Cobrir guerras e conflitos armados exige mais do que relatar confrontos e contabilizar mortos. Entrevistar pessoas afetadas pela violência e pelas consequências econômicas, sanitárias e sociais das guerras é o que faz a audiência ter empatia e compreender o impacto desses conflitos. Esse foi o mote da mesa “Cobertura ética e humanitária de conflitos armados: como colocar as pessoas no centro da narrativa”, que aconteceu na manhã desta quinta-feira (30) no 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.
O evento, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), acontece em São Paulo até o próximo sábado (1º).
A mesa contou com a participação de Pedro Borges, cofundador e editor da Alma Preta; Patricia Campos Mello, repórter especial da Folha de S.Paulo e comentarista da TV Cultura; e Omar Mohammed, diretor de pesquisa do Programa sobre Extremismo da Universidade George Washington.
‘As pessoas antes da guerra‘
Patricia Campos Mello abriu a conversa explicando o método que orienta seu trabalho em zonas de conflito: colocar as pessoas antes da guerra. “Eu sempre tento focar nas pessoas, porque eu acho que é assim que as pessoas entendem o que está acontecendo”, afirmou.
“O único jeito é mostrar que as pessoas vivem além do conflito, apesar do conflito, principalmente as mulheres. A guerra não as define”, avalia.
Para a jornalista, mulheres na reportagem têm uma vantagem na hora de se aproximar de outras mulheres, conseguindo entrar nas casas e acessar histórias que de outra forma ficariam invisíveis.
Mas isso, segundo ela, exige abandonar qualquer postura defensiva diante das fontes. “A gente tem que ficar muito desarmado para entender de onde as pessoas veem”, disse.
Sobre como localizar informantes em campo, Patricia resumiu o processo a dois caminhos que costumam se combinar: o planejamento e a sorte.
Por que olhar para fora do Brasil
A segunda parte da mesa começou com uma pergunta direta: em que momento a Alma Preta decidiu voltar o olhar para a cobertura internacional?
Pedro Borges respondeu apontando uma lacuna estrutural do jornalismo brasileiro: sua ausência no continente africano.
“A nossa cobertura internacional aqui no Brasil é muito pequena — e, quando fazemos a nossa cobertura, ela não vai ao continente africano”, afirmou.
Para o editor, essa ausência reflete uma hierarquia mais ampla sobre quais vidas ganham atenção: “A gente sabe que tem corpos que valem menos”, disse.
“O mundo reconhecer a humanidade de um congolês é muito difícil”, analisou.
A síntese dessa realidade está em uma frase que ele ouviu num centro humanitário na RD Congo. “Eu ouvi de uma pessoa: aqui não tem cerco, a comida e a ajuda não vêm porque ninguém quer mandar”.
Borges também refletiu sobre a escassez de profissionais negros cobrindo esse tipo de pauta.
“São raríssimos os jornalistas negros que fazem esse tipo de trabalho”, observou, defendendo que “um olhar de um homem negro que veio da periferia também tem a contribuir”.
Sobre o acesso em campo, contou que sua própria identidade acabou funcionando como porta de entrada em determinados contextos. “Eu fui associado a jogadores negros, e isso me abria muitas portas”, relatou.
“Eu fui apresentado para o comandante do exército congolês assim: ‘Ele é do país do Pelé”, conta o editor da Alma Preta.
Borges destacou ainda a rede de apoio que se forma entre quem cobre esse tipo de pauta. “Existe uma solidariedade entre jornalistas para trocar sobre essas coberturas [de conflitos]”.
A experiência de denunciar a guerra do Iraque
Omar Mohammed relembrou o risco pessoal de assinar as próprias reportagens durante a ocupação de sua cidade, Mossul, a segunda maior no Iraque.
“Antes eu publicava com o meu próprio nome. Até que eu recebi uma mensagem de um professor que me disse que, se eu continuasse publicando com o meu nome, eu iria me matar”, contou.
Sobre o método de apuração, descreveu uma cobertura quase compulsiva do cotidiano da cidade ocupada. “Tudo que eu via acontecendo eu colocava na minha cobertura: a cidade, o isolamento, a segurança.”
Fez questão de marcar sua independência em relação ao poder local: “Eu não trabalhava para o governo. Simplesmente contava o que estava acontecendo”. Mas essa postura tinha um custo. “Isso incomodava muito o Estado Islâmico. Precisei adaptar minhas condições de segurança, segurança digital”, afirmou.
Para continuar trabalhando, criou identidades alternativas. “Eu criei um anonimato, surgiram os personagens. Eu era padeiro, taxista, trabalhei como barbeiro, dependendo de cada situação”, relatou.
Formado em outra área, precisou se reinventar profissionalmente: “Eu tive que sair de historiador para entender o básico do jornalismo.”
Ele, explicou por que, mesmo diante do risco, seguiu fazendo jornalismo: “A única opção disponível era essa. A ferramenta mais poderosa naquele momento era a informação.”










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