Infantino diz que FFE não é ‘obrigação’ após críticas da Uefa
Proposta de criação de uma subsidiária para receber investimento privado levanta controvérsias. Crédito: Fifa
Em uma década no comando da Fifa, Gianni Infantino mexeu na entidade máxima do futebol. Entre promessas cumpridas e receitas recordes, ele não se esquivou de polêmicas. O maior desgaste de imagem está em curso.
O que pode parecer somente um projeto de capitalização das associações nacionais de futebol, na realidade, conecta uma família, o presidente da maior democracia do mundo e a entidade que comanda o esporte com mais seguidores no planeta.
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Donald Trump está no centro de uma rede que conecta Gianni Infantino a Joshua Kushner, líder do projeto Fifa Forward Enterprise (FFE). A proposta visa atrair investimentos privados, mas enfrenta resistência, principalmente da Uefa.

Gianni Infantino na Fifa: A origem
Gianni Infantino foi eleito em 2016 com o discurso de renovação após escândalos na gestão do antecessor Joseph Blatter. Era a mesma tônica dos outros candidatos, ainda que todos já tivessem ocupado altos cargos na própria Fifa.
Os métodos de angariar votos também eram semelhantes. João Havelange prometeu patrocínios a asiáticos e africanos em 1974; Blatter, dinheiro a pequenas associações em 1998; e Infantino, vagas na Copa e aportes para desenvolvimento do futebol.
Infantino completa 10 anos no comando da Fifa com promessas cumpridas
Recordes financeiros e Copa de 48 seleções são trunfos do presidente, em meio a questões éticas. Crédito: TV Estadão
O rombo nas contas da Fifa era de US$ 550 milhões em 2016 (R$ 1,9 bilhão, na época). A entidade havia registrado déficit pela primeira vez em 15 anos, com prejuízo de US$ 102 milhões (R$ 330 milhões, na época). Recuperar credibilidade e saúde financeira, portanto, eram desafios de Infantino.
Nos números, ele se deu bem, foi reeleito em 2019 e em 2023. Os questionamentos sobre as relações da entidade com governos que relativizam direitos humanos, contudo, levantam questionamentos.
Mais seleções na ‘Copa de Trump’
Quase três décadas depois de Blatter aumentar o número de participantes na Copa do Mundo de 24 para 32 seleções, Infantino cumpriu, no segundo mandato, uma promessa da primeira campanha. Em 2026, veio a primeira Copa com 48 seleções.

Donald Trump recebeu ‘Prêmio da Paz da Fifa’, no sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Foto: Gianni Infantino via INs
Assim, a Fifa bateu recordes de venda de ingressos e público. Antes do Mundial, Trump recebeu o Prêmio da Paz, entregue pela Fifa por ele ter mediado o cessar-fogo entre Israel e Hamas. Infantino insistiu que o presidente merecia a primeira edição da contestada premiação.
O Mundial foi de subserviência da Fifa em relação aos Estados Unidos. As altas taxas de vistos negados se mantiveram, afetando Haiti, Irã, Iraque, Senegal e Costa do Marfim.
Em especial, os iranianos acusaram os Estados Unidos de preconceito por vetar a entrada de funcionários da seleção. Diante da tensão da guerra no Oriente Médio, o time precisou mudar sua base de Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México. Os jogos da equipe foram em território americano, em Inglewood e em Seattle.
Outro caso emblemático foi a imigração americana deter o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, tido como o melhor juiz da Confederação Africana de Futebol (CAF). Ele acabou deportado para a Turquia, mesmo portando passaporte diplomático e documentação exigida. A Fifa se limitou a dizer que não se envolve em processos de imigração e que a decisão cabe exclusivamente ao governo do país anfitrião.
A relação entre Infantino e Trump ficou mais escancarada quando o presidente americano admitiu ter ligado para o mandatário da Fifa e solicitado que a suspensão de Folarin Balogun fosse revogada. Isso de fato aconteceu, ainda que com promessas de que não tenha sido em atendimento a uma demanda presidencial.
Entretanto, a Casa Branca, sob Donald Trump, coordenou uma operação jurídica e política sem precedentes, produzindo um dossiê contra a decisão do árbitro brasileiro Raphael Claus, responsável pela aplicação do cartão vermelho que resultaria na suspensão automática do atacante norte-americano.
No dossiê, a Casa Branca acusa, sem provas, Claus de estar envolvido em manipulação de resultados em jogos no Brasil. Segundo o The Athletic, braço de esportes do New York Times, o governo Donald Trump recrutou advogados em conjunto com o Secretário de Comércio, Howard Lutnick, e o doador da Federação de Futebol dos Estados Unidos (U.S. Soccer) e gestor de fundos de investimento, Scott Goodwin, para a operação.
Petrodólares fazem Infantino cumprir promessas nas finanças
A Arábia Saudita é outra aliada de Infantino. O país será sede da Copa de 2034. O processo de escolha foi acelerado, com desistência da Austrália por entender que não haveria uma competição de fato.
O caminho dos sauditas se abriu após a definição de seis sedes para 2030, entre América do Sul, Europa e África. Isso determinava que, pelo sistema de rotação da Fifa, apenas candidaturas da Ásia e da Oceania seriam aceitas para 2034.
“A decisão de atribuir a Copa à Arábia Saudita, um dos países que mais violam os direitos humanos no mundo, é um sinal alarmante de que o dinheiro e o petróleo prevalecem sobre princípios e valores”, criticou Abdullah Alaoudh, diretor de Combate ao Autoritarismo no Centro de Democracia do Oriente Médio (MEDC).
Na gestão Infantino, países do Oriente Médio, sem tradição no futebol, figuraram como sede dos Mundiais de Clubes. Além, é claro, da Copa do Mundo de 2022, no Catar.

Infantino retoma Fifa lucrativa em aproximação com nações do Oriente Médio. Foto: Luke Dray/Fifa
Os catarianos sediaram quatro edições do Mundial de Clubes/Intercontinental entre 2016 e 2025. Os Emirados Árabes Unidos foram sede em outras três vezes e já tinham dois na conta antes de Infantino.
A força saudita se fez mais clara no apoio do país para o sucesso do Mundial de Clubes de 2025. A DAZN comprou com exclusividade os direitos de transmissão do torneio. Meses antes, o streaming foi comprado por um braço do Fundo de Investimento Público (FIP) da Arábia Saudita, ao custo de US$ 1 bilhão (R$ 6 bilhões).
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A entrada do novo Mundial fez com que o orçamento apresentado em março de 2023 fosse revisado, aumentando em US$ 2 bilhões (R$ 10,3 bilhões). Até o final de 2024, 62% das receitas para o ciclo 2023-2026 já haviam sido garantidas contratualmente.
Foi a partir disso que a entidade pôde manter os repasses às associações. O chamado “orçamento de investimentos” da Fifa bateu US$ 12,9 bilhões (R$ 66,6 bilhões) no ciclo, equivalente a 90% da arrecadação. Outra promessa de campanha cumprida.

Mundial de Clubes em novo formato, criado por Infantino, potencializou receitas. Foto: Chelsea via X
Os direitos de transmissão de TV e marketing representam 75% das receitas. No recorte de 2026, essa fonte é a principal, potencializada pela Copa do Mundo. Dos US$ 8,9 milhões (R$ 45,9 milhões) esperados em faturamento, 44% vêm pela venda das transmissões.
A opulência do ciclo 2023-2026 se reflete também nos repasses às associações. Por meio do programa Fifa Forward 3.0, são previstos US$ 2,25 bilhões (R$ 11,6 bilhões) aportados. Somente em 2026, cada associação receberá US$ 1,25 milhão (R$ 6,4 milhões) para cobrir custos do futebol.










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