Quando Dubravka Šuica, a escolhida da Croácia para fazer parte do executivo de Ursula von der Leyen, recebeu a pasta do Mediterrâneo em dezembro de 2024 estava longe de imaginar a projeção que iria ter como comissária. De tal forma que já é descrita como “uma aliada-chave da presidente da Comissão” graças às guerras no Médio Oriente e à recente crise migratória no território espanhol de Ceuta. “Ninguém poderia ter previsto a rapidez com que os acontecimentos se desenrolaram desde o início do mandato”, disse a comissária croata, de 69 anos, numa entrevista ao Politico antes da crise no enclave espanhol. “[Bashar] al-Assad ainda estava lá, na Síria. Não havia guerra entre o Líbano e Israel.”
Olhando para a descrição da sua missão como comissária para o Mediterrâneo no site da Comissão Europeia – “criar uma agenda comum centrada nas pessoas e em desenvolver parcerias com a região do Mediterrâneo e com os países da nossa Vizinhança Meridional, com base em valores comuns e no diálogo” – o cargo parecia inicialmente uma tarefa sem grande controvérsia, mas acabou por tornar-se numa missão com grande projeção e algumas polémicas.
Como a viagem que fez em junho a Telavive para se encontrar com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Sa’ar, numa altura em que este estava no meio de uma disputa com a líder da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, devido a rumores de que a estónia tinha comparado o tratamento dado por Israel aos palestinianos ao apartheid sul-africano. Josep Borrell, o antecessor de Kallas, criticou a decisão de Ursula von der Leyen de enviar Šuica a Israel e a falta de solidariedade com a atual líder da diplomacia europeia.
A croata, que é contra a suspensão ou anulação do acordo de associação com Israel (algo que é pedido por vários países da UE por causa da atuação de Telavive em Gaza), salientou que as suas missões ao Médio Oriente são coordenadas com todos os comissários, incluindo Kaja Kallas. “Sem Israel, não se consegue fazer nada”, disse Šuica na altura, numa referência à entrega de ajuda em Gaza. “Precisamos da aprovação das autoridades israelitas. E é por isso que temos de manter os canais abertos. Eles estão lá e precisamos de trabalhar com eles.”
Meses antes, em fevereiro, Dubravka Šuica tinha sido também a escolhida de Ursula von der Leyen para outra missão polémica – representar a UE em Washington numa reunião do Conselho de Paz criado por Donald Trump. Embora tenha ido apenas na qualidade de observadora, a sua viagem foi alvo de críticas de vários Estados-membros, encabeçados pela França, que consideraram que esta presença poderia dar um sinal de legitimidade por parte de Bruxelas a este organismo, minando a autoridade da ONU.
Falando perante o Parlamento Europeu após a viagem aos EUA, a croata admitiu não ter sido fácil ouvir as críticas que lhe foram feitas, mas deixou claro que o fez a pedido de von der Leyen (que tinha sido convidada pessoalmente por Trump) e não estava a representar os Estados-membros nem a UE no seu todo. E acrescentou que a sua presença na reunião, na qual não tinha autorização para discursar, “não pode ser interpretada” como um aval ao Conselho da Paz, argumentando ainda que a UE tinha preocupações quanto à sua estrutura de governação e ao seu estatuto.
Šuica voltou a ser a escolhida da presidente do executivo comunitário para apoiar as autoridades espanholas e marroquinas e supervisionar a crise migratória em Ceuta nos últimos dias de julho. Já esta semana, a comissária para o Mediterrâneo deu conta que tem mantido um “contacto regular” com o ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino, Nasser Bourita, e que os “esforços continuam” para controlar a situação.
Esta não é a primeira experiência de Dubravka Šuica no executivo comunitário – já tinha sido comissária para a Demografia, pasta que também tem atualmente, no primeiro mandato de Ursula von der Leyen -, nem sequer na política europeia. A croata, membro da União Democrática Croata (HDZ), de centro-direita, foi eleita em 2012 vice-presidente do EPP Women, o grupo de mulheres do Partido Popular Europeu (cargo que ainda ocupa) e no ano seguinte foi eleita eurodeputada, cargo que ocupou até 2019, quando se tornou comissária.
Na política croata, Šuica conseguiu tornar-se em 2001 a primeira autarca mulher de Dubrovnik, a sua terra natal, tendo sido reeleita por duas vezes. Paralelamente, foi deputada no Parlamento croata por três legislaturas, a partir de 2000. O seu primeiro contacto com a política tinha acontecido em 1990, quando se filiou na HDZ antes das primeiras eleições democráticas na Croácia.
Antes de se dedicar à política, Dubravka Šuica, licenciada em Zagreb no início dos anos 1980 com especialização em Inglês e Literatura e em Língua Alemã, trabalhou durante 20 anos como professor do secundário, professora universitário e diretora de escola em Dubrovnik.







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