As travessias incógnitas do ponto de estrangulamento energético mais vital do mundo viraram uma tábua de salvação para mercados globais que se preparavam para um choque de oferta muito pior quando a guerra do Irã estourou.
Para os produtores da região, no entanto, a situação está longe do normal: os navios são alvo de hostilidades repetidas, mesmo contando com alguma proteção militar, disseram as fontes.
O vaivém já dura meses, mas rastrear quanto petróleo esses navios “escuros” estão movimentando é um desafio tanto para traders quanto para analistas, porque as embarcações se protegem dando poucas pistas de onde estão. Os volumes estão acima das estimativas de mercado de 4 milhões de barris por dia, disseram as fontes, sem especificar quanto. Elas falaram sob condição de anonimato, dada a sensibilidade do assunto.
Antes da guerra do Irã, cerca de 20 milhões de barris por dia cruzavam Ormuz, algo como um quinto da oferta mundial de petróleo. Na semana passada, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse que 9 milhões de barris por dia haviam cruzado Ormuz nos sete dias anteriores — um número que surpreendeu muitos traders e que ficaria no teto das estimativas de fluxo, quase metade do ritmo pré-guerra.
Esses embarques sob fogo são uma das razões pelas quais os futuros do petróleo Brent passaram boa parte de agosto sendo negociados entre US$ 80 e US$ 90 o barril, dizem traders e analistas.
É bem menos que os níveis mais alarmantes previstos no início do conflito, caso a guerra do Irã se arrastasse pelo verão do Hemisfério Norte. Alguns se preparavam para o petróleo a US$ 150.
As travessias clandestinas de vaivém se somaram a desvios por oleodutos, liberações de estoques e queda da demanda mundo afora para limitar o baque econômico da guerra.
“Apesar dos ataques repetidos aos nossos navios, estamos determinados a continuar cumprindo nossa responsabilidade de entregar energia com segurança aos mercados globais e a atender os compromissos e as necessidades dos nossos clientes tanto quanto possível”, disse a gigante estatal de petróleo dos Emirados Árabes Unidos, a Abu Dhabi National Oil, em resposta a um pedido de comentário para esta reportagem.
“Como outras empresas de energia da região, seguimos arcando com as consequências diretas de ataques não provocados contra nosso pessoal, nossos navios e nossas instalações – ataques que expõem funcionários, terceirizados e marítimos a risco maior e ao mesmo tempo perturbam fluxos críticos de energia.”
Além dos Emirados, barris do Iraque, do Catar e do Kuwait também foram levados por Ormuz, segundo dados de rastreamento de embarcações compilados pela Bloomberg e informações da Kpler e da Vortexa.
O vaivém aparece com nitidez fora do Estreito de Ormuz, na costa de Omã, onde cerca de 150 navios – de petroleiros gigantes a graneleiros – estão parados, ante uns 40 em janeiro, segundo dados do satélite Sentinel 1 da União Europeia. Muitos esperam a transferência de carga das embarcações que entram e saem de Ormuz com os transponders desligados.
Pessoas a par dos embarques dos Emirados disseram que há poucos sinais de desaceleração, mesmo depois de o país relatar novos ataques iranianos a seus navios nos últimos dias. A Adnoc já vendeu cerca de 135 milhões de barris de cru a compradores no mundo todo e lançou outra rodada de vendas na semana passada.
Ainda assim, exportar grandes volumes de petróleo em plena guerra está longe de ser simples. As fontes a par das travessias de Ormuz disseram que houve mais incidentes com embarcações do que os reconhecidos publicamente – tanto ataques a navios mercantes quanto ações defensivas de forças ocidentais contra embarcações que assediam os cargueiros que tentam cruzar o estreito.
São um lembrete de que manter os preços da energia baixos mundo afora tem seu risco: vários tripulantes morreram na travessia de Ormuz e cresce o número de vazamentos de óleo na região. Um deles apareceu em imagens de satélite do Golfo de Omã na semana passada, sem qualquer indicação de onde veio – o que sublinha o caráter clandestino das travessias.
Desde o começo do conflito, 23 navios da Adnoc foram atacados ao cruzar Ormuz, o que resultou em uma morte e 20 tripulantes feridos, informou a empresa, acrescentando que o impacto também é sentido por empresas e famílias no mundo inteiro.
“Um ataque à infraestrutura que mantém a energia fluindo não é simplesmente um ataque a uma empresa”, disse a companhia. “A perturbação no Estreito de Ormuz está causando danos profundos muito além de quem é diretamente atingido nesta região.”
Os ataques às vezes atrasam embarques e, embora as paradas costumem ser curtas, elas aumentam a incerteza do mercado, disseram compradores na Ásia.
Embarques sauditas
Um país que ainda não vem escoando grandes volumes dos próprios barris nesse esquema é a Arábia Saudita. Mas há sinais preliminares de mais atividade nos portos do reino dentro do Golfo Pérsico, agora que sua rota alternativa pelo Mar Vermelho está sob ameaça dos houthis do Iêmen, milícia apoiada pelo Irã.
Dois navios foram vistos carregando no gigantesco terminal de exportação de Ras Tanura, no Golfo, na semana passada, enquanto a Bahri, empresa saudita de navios-tanque, vem posicionando embarcações de forma constante na costa de Omã, onde são feitas as transferências dos navios que fazem o vaivém.
Ao todo, 16 superpetroleiros estão lá agora, com mais três a caminho nos próximos dias. Juntos, eles conseguem carregar 38 milhões de barris.
Por Alex Longley, Anthony Di Paola, Grant Smith e Weilun Soon











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