Irão e Israel não cedem à pressão de Trump para acabar com a crise no Médio Oriente


Esta segunda-feira, 17 de agosto, dia em que terminaram os 60 dias previstos no memorando de entendimento assinado por Irão e Estados Unidos para negociar um acordo permanente, ficou marcada por uma nova troca de ameaças entre o regime de Teerão e Donald Trump, deixando antever que uma solução de paz estará longe de acontecer. Numa outra frente da crise no Médio Oriente, Jared Kushner esteve reunido esta segunda-feira também com o primeiro-ministro de Israel para tentar convencer Benjamin Netanyahu a aceitar o plano de 15 pontos com vista à obtenção de uma trégua em Gaza, com o enviado da Casa Branca a sair de Jerusalém apenas com a promessa de constituição de dois grupos de trabalho para discutir vários temas relacionados com o território palestiniano.

O Irão começou, esta segunda-feira, por considerar irrelevante o fim do prazo, acusando Washington de violar compromissos. “O prazo de 60 dias para as negociações é irrelevante”, afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei, citado pela agência de notícias iraniana IRNA.

Segundo Bagaei, “a implementação [do acordo] está completamente paralisada pelas flagrantes violações, por parte dos Estados Unidos, do memorando de entendimento assinado a 17 de junho”.

O memorando, assinado pelos presidentes norte-americano, Donald Trump, e iraniano, Masoud Pezeshkian, além de estabelecer um cessar-fogo e um período de 60 dias para as partes negociarem um acordo definitivo, previa ainda a reabertura do estreito de Ormuz e, segundo Teerão, o levantamento das restrições à comercialização de petróleo iraniano e do bloqueio aos portos e navios do país.

“As negociações nem sequer começaram porque os Estados Unidos, apenas algumas semanas após a assinatura do memorando de entendimento, cometeram violações flagrantes e generalizadas do seu texto”, acusou ainda o porta-voz da diplomacia iraniana. Era suposto não haver hostilidades durante os 60 dias, mas estas foram retomadas menos de três semanas depois, num contexto de divergências sobre o controlo da navegação no estreito de Ormuz.

Uma fonte sénior da administração iraniana adiantou, esta segunda-feira também, à Reuters, que Teerão decidiu mudar a sua política de defensiva para “totalmente ofensiva” devido ao impasse nas negociações para obter um acordo de paz com os Estados Unidos. “As entidades iranianas devem estar preparadas para uma escalada de tensões no estreito de Ormuz e na região mais vasta, uma vez que o Irão estará pronto para tomar decisões e agir perante escolhas difíceis”, afirmou a autoridade iraniana à agência noticiosa, acrescentando que Teerão realizaria um ataque militar “oportuno e preciso” para quebrar o bloqueio naval dos Estados Unidos caso a diplomacia falhasse.

Donald Trump, por seu turno, ameaçou esta segunda-feira bombardear Omã caso o país “atrapalhe” um acordo sobre o estreito de Ormuz, numa altura em que Mascate e Teerão negoceiam o tráfego marítimo nesta passagem.

“Se Omã se intrometer, vamos bombardeá-los”, afirmou o presidente dos Estados Unidos à Fox News, quando questionado sobre as negociações em curso entre Omã e Irão.

Mascate e Teerão mantêm há várias semanas negociações, sem a participação dos Estados Unidos, sobre a gestão da navegação no estreito de Ormuz – o Irão afirmou que os dois países já alcançaram um entendimento sobre o mapa das rotas de navegação e estão a trabalhar na conclusão de “um pacote” mais abrangente.

No que diz respeito a Israel, Jared Kushner esteve esta segunda-feira reunido em Jerusalém com Benjamin Netanyahu para tentar fazer avançar a segunda fase do plano de paz de 15 pontos dos Estados Unidos para Gaza, rejeitada pelo primeiro-ministro israelita.

O enviado especial da Casa Branca, e genro de Donald Trump, viajou para Israel com Nikolai Mladenov, o alto representante para Gaza no Conselho de Paz, um órgão criado pelo presidente norte-americano para aplicar o plano, tendo estado também presente no encontro o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, escolhido por Donald Trump para integrar o Conselho da Paz.

Uma fonte israelita adiantou à AFP que as duas partes discutiram a possibilidade de colocar um general norte-americano a liderar a verificação do desarmamento do Hamas, tendo Netanyahu insistido que Israel não se retirará de Gaza até tal acontecer. E que terão acordado, após quatro horas de reunião, “que não haveria redistribuição de tropas nem reconstrução na Faixa de Gaza antes de o Hamas ser desarmado em toda a região”.

De acordo com a CNN, que cita uma fonte israelita conhecedora das discussões, Kushner terá pressionado Netanyahu durante a reunião para que “não criasse obstáculos” à implementação do plano do Conselho para desarmar o Hamas, algo que deverá ser acompanhado pela retirada gradual das Forças de Defesa de Israel do enclave.

Em resposta, noticiou o mesmo canal televisivo, Netanyahu defendeu perante Kushner que avançar com o plano de 15 pontos era politicamente “problemático” antes das eleições de 27 de outubro em Israel, insistindo que o Hamas deve tomar medidas primeiro.

Oficialmente, o gabinete do primeiro-ministro israelita classificou as conversações de ontem como “profundas e construtivas”, revelando que foi acordada a criação de dois grupos de trabalho – um sobre o desarmamento e a desmilitarização de Gaza, notando que este é um processo “que tanto Israel como o Conselho da Paz estão determinados a ver realizado com celeridade e concluído antes de qualquer reconstrução na região”, e outro “focado no saneamento, na água potável e noutras questões de saúde pública que afetam a população de Gaza e também impactam o povo de Israel”.

No domingo, Kushner teve um inédito encontro de duas horas com o novo líder do Hamas, Khalil al-Hayya, realizado no Egito, com o norte-americano a insistir na adoção de medidas que permitam verificar o desarmamento do grupo e que este renuncie a qualquer papel na governação de Gaza. O Hamas, por seu turno, disse ao genro de Trump que estava empenhado no plano para Gaza e defendeu que houvesse pressão sobre Netanyahu.



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