Médio Oriente: Do quase certo maior ataque de sempre ao Irão ao fim-de-semana mais calmo em semanas, pelo meio Teerão confirmou o controlo do Estreito de Ormuz


Na sexta-feira, 31, mais uma vez o mundo foi abalado pela ameaça do Presidente norte-americano de que estava prestes a carregar no gatilho para, durante o fim-de-semana, desferir o maior ataque alguma vez feito pelos EUA desde a II Guerra Mundial.

Passou Sábado e Domingo e nada aconteceu. Mas já se sabia, porque logo na tarde de Sábado, num longo “post” na sua rede social Truth Social, Donald Trump anunciou que o Irão, mas também a Arábia Saudita, o Catar e os Emiratos lhe pediram para tirar o dedo do gatilho.

E o pedido, apontava o Presidente dos EUA nessa publicação na rede social de que é proprietário, foi satisfeito, quando os aviões já deviam estar no ar e os misseis a serem carregados para as plataformas de lançamento, esvaziando assim a ameaça… ou o bluff.

Para Trita Parsi, um dos directores do Instituto Quincy, um dos mais respeitados think tanks de reflexão sobre política internacional e geoestratégia, o que aconteceu foi que Donald Trump ensaiou mais um bluff para obrigar o Irão a ceder na questão de Ormuz.

Isto, porque, nota ainda Trita Parsi, que no Domingo participou em vários podcasts sobre este assunto, para Donald Trump, neste momento, abrir o Estreito de Ormuz é a sua obsessão devido ao efeito devastador que o seu encerramento pelo Irão tem na economia mundial e na norte-americana também.

Porém, ao invés de obter o resultado que pretendia, o que recebeu foi uma vigorosa resposta de Teerão, especialmente no que diz respeito à promessa de espelhar sobre os interesses dos EUA e dos seus aliados na região os ataques que fossem sobre si realizados, além de que recusa confirmar ter sequer sido enviada pelos iranianos qualquer mensagem aos norte-americanos.

É que Trump tinha ameaçado atacar como nunca fizera até agora toda a infra-estrutura energética do Irão e as suas fontes de água potável, bem como pontes rodoviárias e ferroviárias…

Ao que o Irão respondeu com a garantia de que não sobraria uma refinaria intacta nos países aliados dos EUA no Golfo Pérsico, ou uma central de dessalinização de água do mar sem as quais estes países, mesmo que em distintas proporções, não podem manter a vida em sociedade que têm hoje, desde logo o Catar, Kuwait, Emiratos ou Bahrein, mas também a Arábia Saudita e Israel.

Perante esta garantia de retaliação severa por parte de Teerão, Trump, como igualmente sublinhava nestas últimas horas John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos mais respeitados especialistas em geoestratégia e política internacional, Donald Trump ficou sem margem para agir.

Não apenas porque as consequências seriam devastadoras para os seus aliados na região, mas porque, com a aproximação rápida das eleições intercalares nos EUA, e com as sondagens a mostrarem que o seu Partido Republicano deverá perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, este ataque mostrou-se claramente desaconselhável.

Todavia, apesar de se tratar de um bluff, até porque já sucedeu antes, e por várias vezes, Donald Trump mostrar que se tratava de uma forma de pressão sobre Teerão, já nesta segunda-feira, 03, o porta-voz dos Negócios Estrangeiros iraniano, em conferência de imprensa em Teerão, deu alguns sinais de que o bluff pode ter sido parcialmente bem-sucedido.

É que Esmael Baghei conformou as notícias que já circulavam desde Domingo sobre um processo negocial entre o Irão e Omã, os dois países que confinam no Estreito de Ormuz, a passagem marítima que liga o Golfo Pérsico e o Oceano Índico e por onde é, em tempo de paz, escoado 20% do petróleo e do gás mundiais.

Estas negociações entre Teerão e Muscat apontam, segundo alguns analistas, para uma situação em que iranianos e omanitas ficam com o controlo da passagem de navios por Ormuz, beneficiando em partes iguais, no futuro, do pagamento de uma “taxa ambiental”, mas, para já, com uma parcela especial cobrada pelo Irão como recompensa de guerra.

Com isso, o Irão teria forma de financiar a reconstrução das infra-estruturas destruídas pelos norte-americanos e israelitas desde que a coligação israelo-americana lançou esta guerra ilegal e injustificada contra o Irão a 28 de Fevereiro deste ano, quando Washington e Teerão tinham decorrer conversações sobre o programa nuclear iraniano.

Recorde-se que já em Junho de 2025, norte-americanos e israelitas atacaram o Irão de surpresa quando semelhantes negociações decorriam, embora este ano tenha sido substantivamente mais grave porque no ataque inicial a coligação EUA/Israel matou o Líder Supremo do Irão, aiatola Ali Khamenei, e mais 40 figuras de proa do regime, entre políticos e militares.

Perante esses dois ataques “traiçoeiros”, como lhes chamou Mojtaba Khamenei, o novo Líder Supremo, que sucedeu ao seu pai no cargo, o Irão fez saber que não volta a confiar nos EUA e que toda e quaisquer negociações terão de ser consequentes, o que só pode ser garantido com o envolvimento de terceiros, incluindo organizações internacionais.

Mas, como parece ser factual, até porque os mercados petrolíferos estão a agir como tal, com o barril de Brent a recuar quase 5% na manhã desta segunda-feira, 03, para cerca de 84 USD, em breve o Estreito de Ormuz, e, nesse contexto, também o de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho/Canal do Suez ao Oceano Índico, deverá ser reaberto.

“Algum progresso foi conseguido”, confirmava Esmael Baghaei, respondendo a uma pergunta da agência iraniana de notícias, IRNA, acrescentando que este processo negocial decorre com outros intervenientes da região, e ainda fora dela, além de Omã.

Ao mesmo tempo, numa publicação nas redes sociais, Abbas Araghchi, o chefe da diplomacia iraniana, ia mais longe ao confirmar que “um acordo vai ser anunciado muito em breve” porque está “na sua fase final de conclusão”.

Porém, como alguns analistas trazem à tona, a grande questão neste momento é que dificilmente o Irão deixará de lado o Memorando de Entendimento de 14 pontos assinado a 17 de Julho, onde o Irão conseguiu alguns trunfos que a maior parte dos especialistas não acreditavam poderem ser alcançados.

Desde logo o controlo efectivo do Estreito de Ormuz, a devolução de mais de 20 mil milhões USD em verbas congeladas no exterior no âmbito das sanções a que o país está sujeito há décadas pelo Ocidente, e ainda a garantia de que não será de novo atacado, o que só pode ser conseguido com a saída dos EUA da região, fechando as dezenas de bases que ali têm.

E o Presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, não perdeu tempo a fazer esse reparo: “Os Estados Unidos da América terão de se manter empenhados no que assinaram no Memorando de Entendimento” acrescentando que o core desse acordo será “o centro de gravidade da política externa do Irão no futuro”.

Pelo meio permanece a questão que estará a limitar muito a acção militar dos EUA e é depauperação dos seus arsenais de mísseis, que alguns analistas garantem estarem em níveis nunca vistos devido a esta guerra mas também da que decorre há quase cinco anos na Ucrânia, especialmente de interceptores Patriot PAC3, mas também de ataque, como os Tomahawn e JASSM.

O major general Agostionho Costa descrevia a situação como dramática porque os EUA não terão actualmente mais de 700 Patriot PAC 3 em stock, o que é pouco mais que nada, e o mesmo sucede com os projectéis de ataque, que os Estados Unidos vão levar uma década a refazer os seus efectivos neste tipo de armamento.

Permanece, todavia, um elevado risco de esta guerra poder escapar ao controlo de Donald Trump, como já sucedeu no ano passado, quando Israel, ignorando os EUA, lançaram um ataque contra o Irão, obrigando, como confirmou Marco Rubio, o secretário de Estado norte-americano, e Conselheiro para a Segurança Nacional de Trump, não deixando alternativa a Washington que não fosse alinhar com Telavive nesses ataques.

E em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau não escondeu a sua frustração com este recuo de Donald Trump, porque, ao que se sabe agora, o tal maior ataque de sempre sobre Teerão seria realizado pela coligação israelo-americana, como, de resto, o chefe do Governo israelita esteve a “alimentar” na sua recente visita à Casa Branca.

É que em Israel, esta está a ser vista como a derradeira oportunidade nos tempos que se avizinham para que seja possível conseguir convencer os Estados Unidos a empenharem-se numa guerra sem limites contra o Irão e sem a qual dificilmente Netanyhau sairá triunfante nas eleições parlamentares de Setembro próximo.

É que o chefe do Governo israelita, tal como Trump nos EUA, tem garantido o regresso ao Tribunal assim que deixar o cargo para responder por vários processos de corrupção e branqueamento de capitais nos quais dificilmente conseguira evitar a prisão.

Mas também Trump corre riscos, porque se perder as eleições intercalares de Novembro, o que seria deixar de ter a maioria nas duas câmaras do Congresso, na Câmara dos Representantes, e também possivelmente no Senado, como apontam quase todas as sondagens, tem á sua espera vários processos de destituição já anunciados pela oposição democrata.

Desde logo porque lançou o país numa guerra contra o Irão a reboque de Israel sem informar o Congresso, como lho exige a Constituição, e, se calhar ainda mais grave, devido ao facto de ter prometido divulgar o conteúdo dos Ficheiros Epstein, o maior escândalo de pedofilia de sempre, e onde o seu nome é dos mais citados, e não o ter feito.

Além disso, o eleitorado norte-americano que está contra esta guerra é superior a 70% e Israel nunca foi tão impopular nos EUA, como o revelam várias sondagens, que apontam ainda para a degradação do apoio a Trump entre os seus mais fiéis do Movimento MAGA (Make America Great Again) porque este os convenceu que seria um Presidente anti-guerra e está a revelar-se dos mais aguerridos falcões de guerra em Washington.

O que indica, como vários analistas notam, incluindo dois antigos conselheiros e elementos de Administrações de Bush e Trump, os ex-coronéis Larry Wilkerson, que foi chefe de Gabinete de Collin Powell, e Douglas MacGregor, que trabalhou com o actual Presidente na primeira vez que passou pela Casa Branca, que os Estados Unidos foram empurrados para este conflito pelo lobby de Israel em Washington.



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