“O inimigo saudita continua a mobilizar as suas forças e a incitá-las a intensificar o conflito”, acusou o porta-voz militar dos rebeldes iemenitas, Yahya Saree, em comunicado, acrescentando que “estas concentrações de tropas, bem como os seus depósitos, veículos e equipamento militar, foram alvejados por um grande número de mísseis e drones” na província de Marib.
Pelo menos oito membros das forças do Governo reconhecido internacionalmente foram mortos em bombardeamentos contra um acampamento, bem como dois civis noutro ataque separado, um dia após a ofensiva mais mortífera dos hutis desde o cessar-fogo de 2022.
Na quinta-feira, pelo menos 58 soldados iemenitas foram mortos em ataques com mísseis e drones, sobretudo na região de Marib, que se tornou no centro das hostilidades.
Os hutis também atacaram a Arábia Saudita na noite de quinta-feira, ferindo 11 pessoas, segundo a coligação militar liderada por Riade, que interveio no Iémen em 2015 para apoiar o Governo contra os rebeldes aliados do Irão.
A coligação não ficará de braços cruzados, avisou hoje uma fonte próxima dos militares sauditas citada pela agência France-Presse (AFP), afirmando que Marib era uma “linha vermelha” e que, sem procurar uma escalada da tensão, Riade não permitirá que “o atual equilíbrio de poder no terreno seja alterado”.
Esta vaga de violência reacende a ameaça de um regresso à guerra no Iémen, o país mais pobre da Península Arábica, onde um cessar-fogo acordado em 2022 entre os hutis e o Governo se mantinha antes de ruir no mês passado.
Ao mesmo tempo, os rebeldes desvalorizaram o acordo de defesa conjunta hoje assinado em Meca pelos líderes da Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, classificando-o como uma mera “oportunidade para fotos comemorativas”.
Os hutis avisaram ainda que o acordo de proteção mútua dos três países islâmicos de maioria sunita não irá travar o grupo iemenita.
Nas últimas semanas, os hutis reclamaram a autoria de pelo menos nove ataques contra petroleiros sauditas desde a imposição de um bloqueio ao tráfego marítimo dos navios do reino árabe.
Estes ataques juntaram-se a bombardeamentos contra infraestruturas petrolíferas da Arábia Saudita, que tem visado pelo seu lado posições dos rebeldes no Iémen.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros controlado pelos rebeldes afirmou em comunicado que Riade deveria “trabalhar para acabar com o bloqueio e todas as atividades hostis no Iémen”, em vez de “procurar soluções para a difícil situação em que se encontra”.
Acusou ainda a monarquia saudita de “comprar lealdades” a outros países para os seus próprios interesses, criticando o “desperdício de riqueza” por parte do maior produtor de petróleo da região através destes entendimentos.
O presidente do Conselho Político Supremo huti, Mahdi al-Mashat, afirmou pelo seu lado que qualquer país que se junte a Riade na sua campanha militar contra o Iémen será considerado um agressor pelo movimento, segundo declarações transmitidas pela rede al-Masirah, controlada pelos rebeldes.
“Mesmo que consigam o apoio do mundo inteiro, isso não lhes fará bem”, declarou.
A aliança de defesa saudita, paquistanesa e turca ocorre logo após o anúncio do Irão de que chegou a acordo com a Omã para a criação de uma rota marítima segura no estreito de Ormuz.
Teerão e Mascate estão na fase final de elaboração de uma declaração conjunta sobre este entendimento, que surge na sequência do colapso do memorando de entendimento assinado pelos Estados Unidos e a República Islâmica em 17 de junho, que previa um cessar-fogo imediato e a abertura de negociações durante 60 dias com vista a um acordo de paz definitivo.
As partes voltaram porém à confrontação militar, com Teerão a repor as restrições no estreito de Ormuz, por onde passavam 20% dos bens petrolíferos antes da guerra, e Washington a aplicar novamente um bloqueio naval aos portos iranianos.
Além dos hutis, as milícias xiitas do Iraque, que integram igualmente o chamado “eixo de resistência”, liderada por Teerão, também colocaram a Arábia Saudita sob ameaça.
No entanto, a Resistência Islâmica do Iraque, a aliança de milícias xiitas, anunciou hoje o adiamento da resposta aos ataques aéreos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita no final de julho em solo iraquiano contra fações armadas acusadas de atacar as infraestruturas energéticas do reino árabe.
“A resposta planeada para hoje foi adiada”, anunciou o grupo em comunicado, explicando que a decisão foi tomada a pedido do parlamentar e líder da organização Badr, Hadi al-Amiri, que é também uma das figuras mais reconhecidas das Forças de Mobilização Popular.
Trata-se de grupo paramilitar integrado no Exército iraquiano, composto por milícias de diferentes ideologias, mas as mais poderosas estão ligadas ao Irão e formam a Resistência Islâmica do Iraque.
Os bombardeamentos conjuntos da Arábia Saudita e Estados Unidos resultaram na morte de pelo menos 20 combatentes das Forças de Mobilização Popular e, segundo meios de comunicação social iranianos, de cinco conselheiros da Guarda Revolucionária do Irão.
Uma fonte de alto nível de Riade, citada pela estação al Arabiya, indicou na quinta-feira à noite que, de acordo com “relatórios de informações fidedignos”, milícias iraquianas, os hutis do Iémen e a Guarda Revolucionária estavam a coordenar ataques contra a Arábia Saudita.
O anúncio da Resistência Islâmica do Iraque coincide com o encontro do chefe dos serviços de informação sauditas, Khaled bin Ali al-Humaidan, em Bagdad, com o primeiro-ministro iraquiano e chefe das Forças Armadas, Ali al-Zaidi, para discutir o reforço da coordenação de segurança.
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