Médio Oriente: Sistema de saúde da Cisjordânia à beira do colapso face à retenção de receitas fiscais por Israel


Num relatório, a organização Médicos pelos Direitos Humanos – Israel (PHRI, na sigla inglesa) atribui a situação à falta de liquidez provocada pela retenção, por parte de Telavive, de 2.500 milhões de dólares (cerca de 2.300 milhões de euros) pertencentes à Autoridade Palestiniana.

“A contínua retenção das receitas palestinianas não pode ser considerada um diferendo financeiro técnico. Tornou-se parte de uma política mais ampla com consequências diretas para a população civil”, denunciou Milena Ansari, diretora para os territórios palestinianos da PHRI, citada no documento.

Segundo os dados citados no relatório, mais de 75% dos centros do Ministério da Saúde palestiniano (447 dos 590 existentes) reduziram drasticamente a atividade, funcionando apenas uma ou duas vezes por semana.

Desde 2025, 63% dos centros de cuidados de saúde primários operam apenas parcialmente, muitos deles apenas um dia por semana, em comparação com os seis dias de funcionamento antes de 07 de outubro de 2023.

Desde essa data, em que ocorreram os ataques do Hamas no sul do território israelita e teve início a ofensiva militar israelita que devastou a Faixa de Gaza, Israel reteve milhares de milhões de dólares em receitas fiscais e aduaneiras cobradas em nome da Autoridade Palestiniana, o organismo governamental que administra partes da Cisjordânia ocupada.

Sem essas verbas, a Autoridade Palestiniana, liderada pelo presidente Mahmoud Abbas, também líder do partido Fatah, não consegue pagar aos funcionários públicos, adquirir medicamentos nem manter em funcionamento hospitais e farmácias públicas.

Em maio passado, os médicos palestinianos iniciaram uma greve por tempo indeterminado devido ao não pagamento dos salários, o que levou ao encerramento de centros de cuidados de saúde primários e limitou a prestação de cuidados de urgência e de cuidados intensivos.

Embora a Associação Médica Palestiniana tenha anunciado, um mês depois, o levantamento gradual da greve, o relatório da PHRI especificou que os profissionais de saúde “continuam a trabalhar com capacidade reduzida, enfrentando simultaneamente a escassez de medicamentos e o atraso no pagamento dos salários”.

O ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, colono e defensor da supremacia judaica, deixou de transferir, desde o ano passado, as receitas mensais provenientes dos direitos aduaneiros para a Autoridade Palestiniana.

Até junho, Israel tinha retido, de forma acumulada, pelo menos 2.500 milhões de dólares, segundo dados do International Crisis Group (ICG).

A crise financeira decorre em paralelo com a intensificação das incursões militares israelitas e das restrições à circulação na Cisjordânia, dificultando ainda mais o acesso aos serviços de saúde para mais de três milhões de palestinianos, que sem uma autorização especial não podem entrar em Israel nem em Jerusalém Oriental ocupada.



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