Com Estados Unidos e Irã engalfinhados em uma nova espiral de ataques, com impacto nos mercados de petróleo e temores por uma nova escalada na guerra iniciada em 28 de fevereiro por EUA e Israel, o Paquistão volta ao centro dos esforços diplomáticos.
As preocupações se estendem ao risco de expansão descontrolada do conflito, depois de uma ofensiva iraniana contra bases americanas na Jordânia, seguida pela inédita participação direta da Arábia Saudita em uma operação contra milícias xiitas pró-Teerã, no Iraque. O Egito confirmou que drones foram os causadores do incêndio em um terminal de gás no porto de Damieta, no litoral do Mediterrâneo — mas não apontou diretamente a origem do bombardeio.
A guerra se expande para vizinhos do Irã e ameaça toda a região
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“As negociações entre as partes seguem em andamento, especialmente no que diz respeito ao Estreito de Ormuz e à desescalada”, informou em Islamabad o porta-voz da chancelaria, Tahir Andrabi. A intervenção paquistanesa se segue à mais extensa e intensa salva de bombardeios dos EUA contra solo iraniano desde a retomada dos combates.
Concluída nas primeiras horas de quinta-feira (30/7), foi a resposta direta aos mísseis lançados contra a Jordânia. O Irã relatou a morte de três soldados da Guarda Revolucionária Islâmica e anunciou ter revidado contra alvos norte-americanos no Kuwait e, novamente, na Jordânia.
Fator saudita
Entre analistas e observadores, no entanto, é o envolvimento progressivo da Arábia Saudita que desperta mais atenção — e uma dose de preocupação. Além de ter participado do ataque aos xiitas iraquianos, o reino costura com vizinhos a formação de uma coalizão multinacional de defesa marítima. A iniciativa, voltada especialmente para o Mar Vermelho, ganhou ontem o aval de mais 13 países, firmado em comunicado conjunto liderado por Riad. A questão foi objeto de conversações entre o chanceler saudita e o colega paquistanês.
“Definitivamente, o reino está se engajando, não diretamente contra o Irã, mas contra os grupos apoiados por ele. Mas é ainda uma ‘guerra por procuração'”, analisa, em entrevista ao Correio, o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. Ele vê na mudança de atitude o resultado “da pressão americana para que façam alguma coisa: afinal, vêm acumulando capacidade militar e não reagem?”
Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB, pondera que o governo de Riad “tem mantido, de certa forma, uma posição moderada ou discreta, porque identifica que a guerra é de Israel contra o Irã, com apoio dos EUA”. Mas concorda que Washington “tem puxado para que eles se engajem no combate, mesmo que não diretamente contra o Irã”.
O estudioso do Irel/UnB chama a atenção para o esforço saudita de articular a coalizão marítima com vizinhos do Golfo Pérsico, mas também países como Turquia, Paquistão e Egito. Menezes relaciona a inciativa diretamente ao bloqueio naval que os xiitas houthis do Iêmen, aliados de Teerã, tentam impor ao reino. “A chance de conseguirem formar essa coalizão é grande, porque esse bloqueio complicaria ainda mais a situação energética no mundo: o interesse é também dos países importadores de petróleo.”
O professor da ESPM vê no movimento “uma indicação diplomática e militar de que os países da região não continuarão aceitando passivamente a tentativa do regime iraniano de não só fechar Ormuz, mas também cobrar ‘pedágio’ dos navios que passam pelo estreito”. Rudzit alerta ainda para “fortes indícios de que a Arábia Saudita deve iniciar uma ofensiva por terra no Iêmen”, em resposta à necessidade de “impor-se também como potência regional — afinal, lidera as monarquias do Golfo e está sendo praticamente humilhada pelo Irã”.









