A polémica dos 900 anos da fundação de Portugal – Observador


1. A controvérsia em torno das celebrações dos 900 anos da Fundação de Portugal reside na mudança de escala, de centralidade geográfica e de narrativa histórica ditada pelo Governo. De facto, enquanto a Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2026, de 26 de fevereiro circunscrevia o foco territorial aos 900 anos da Batalha de São Mamede, consagrando Guimarães como o epicentro absoluto da efeméride, a nova Resolução n.º 149/2026, de 17 de julho, operou uma reviravolta estrutural. Ao alargar o horizonte do programa à Batalha de Ourique e ao Tratado de Zamora, e ao designar Paulo Portas como Comissário-Geral, o executivo diluiu o protagonismo vimaranense num ciclo comemorativo de âmbito nacional.

2. Esta inflexão reflete uma deliberada cedência política aos defensores da chamada “tese da formação” em detrimento dos partidários da “tese da fundação”, optando por camuflar uma disputa historiográfica sob uma narrativa unificadora. Com efeito, ao aplicar o conceito de Fundação a três momentos historicamente distintos e autónomos, o Governo institucionalizou e amplificou a confusão conceptual entre aquilo que foi o processo gradual de gestação da Nação portuguesa e o ato fundacional da soberania do Estado. E a verdade é que, em vez de clarificar o debate público, esta solução de geometria política variável serve o propósito de esvaziar a centralidade de Guimarães, estendendo a efeméride a uma cronologia de conveniência que transforma a Fundação – um rigoroso marco histórico – num conceito elástico e difuso.

3. Por detrás desta engenharia cronológica vislumbra-se um evidente cálculo político, desenhado para blindar o atual calendário do Estado e favorecer as forças ideológicas apostadas em conservar a intocabilidade dos feriados de 10 de Junho e 1 de Dezembro. É que a consagração do 24 de Junho como o dia primordial da independência de Portugal forneceria o argumento definitivo para a sua elevação a feriado nacional obrigatório — uma justa aspiração vimaranense que, num calendário laboral já saturado de feriados, ditaria inevitavelmente a queda daquelas duas datas no calendário festivo nacional. E assim, so diluir a Fundação por três datas, o Governo neutraliza a ameaça sobre o “Dia de Camões” e a “Restauração”, prestando vassalagem a quadrantes políticos bem identificados que há muito instrumentalizam estas efemérides como bastiões dos seus próprios sentimentos patrióticos.

4. Esta desfiguração do rigor histórico deixa em Guimarães um profundo sentimento de injustiça, que vai muito além do bairrismo. Para a comunidade vimaranense, a decisão não representa apenas perda de protagonismo, mas uma desconsideração pela verdade científica de uma terra que sempre guardou a memória do nascimento de Portugal. Ao ver a sua centralidade confiscada, Guimarães reage pela recusa em aceitar que o berço de Portugal seja transformado numa moeda de troca para conveniências políticas de Lisboa ou para a preservação de mitos ideológicos. Resta saber se o país, ao anestesiar a força de São Mamede para não perturbar velhos calendários, não acabará por celebrar uma efeméride desprovida de alma, deixando a Guimarães o papel de continuar a ser o guardião solitário da integridade da nossa fundação.





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