Milionários de papel de parede


E aqui começa a instalar-se um paradoxo. Como é que num país em que o salário médio ronda os 1500 euros brutos cada família, em média, detém este nível de riqueza?

Os portugueses poupam? Não muito. Em regra põem cerca de 12% do salário de lado, mas como o salário é baixo poupam bastante menos, em termos absolutos, do que os espanhóis. Os portugueses investem o seu dinheiro em títulos e ações? Também não. Quanto muito têm um PPR ultrasseguro (e bem) ou compram Certificados de Aforro (nos momentos em que deu na televisão e os vizinhos também estão a comprar) para, pelo menos, não perderem dinheiro com a inflação.

Mas há um bem em que, historicamente, os portugueses sempre investiram o seu dinheiro: imobiliário. Quase três em cada quatro portugueses vivem em casa própria, a maioria apenas com uma pequena percentagem ainda hipotecada (ou com toda a dívida ao banco paga).

Como explica o INE: “A riqueza líquida média (…) aumentou cerca de 21% em termos reais em relação a 2020. (…) Em grande parte, esta evolução foi determinada pelo aumento do valor dos ativos reais, num contexto de forte crescimento dos preços da habitação.” Ou seja, desde 2020, o preço das casas disparou e, com isso, os portugueses ficaram, pelo menos no papel, mais ricos.

É uma situação que revela um paradoxo social profundo. Portugal tornou-se um país de património rico, mas paga salários pobres. Uma economia em que o enriquecimento ocorre maioritariamente por via da propriedade herdada ou da especulação imobiliária, e não pelo rendimento do trabalho, lastra ainda mais os trabalhadores sem património. E empurra os mais jovens para o trabalho fora do país.



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