Aproxima-se a Gala dos Globos de Ouro e este ano a data é redonda: são 30 anos! As nomeações já foram anunciadas e dia 26 de setembro acaba o suspense: saberemos o vencedor de cada categoria!
Não quero aqui contar-te os nomeados, mas, sendo já velho e sabido que o cinema português não tem o reconhecimento mais feliz da História do Cinema, é precisamente sobre os 5 filmes nomeados que quero falar-te.
Antes de continuar, vamos relembrá-los:
– A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira
– Entroncamento, de Pedro Cabeleira
– Hanami, de Denise Fernandes
– Lavagante, de Mário Barroso
– O Riso e a Faca, de Pedro Pinho
Nos últimos anos, os nomeados aos Globos de Ouro mostram um Cinema Português cada vez mais interessado em revisitar a memória, confrontar o passado e questionar o presente — dentro e fora das fronteiras nacionais, sem esquecer as repercussões noutros cantos do mundo nem os vestígios que por lá ficaram. Estes 5 filmes permitem-nos falar de Portugal através de diferentes épocas, lugares e feridas, porque partilham a vontade de olhar para Portugal com tudo o que isso implica: pensam no que foi, no que é e no que ainda não se resolveu.
Afinal, que Portugal retratam estes cinco nomeados?
A Memória do Cheiro das Coisas
Este drama retrata a chegada de um veterano da guerra colonial a um lar de idosos. Para alguém outrora com tanta pujança e um ritmo tão acelerado, ser forçado a abrandar (e a lidar com os fantasmas que ficaram) não vai ser fácil. Até porque Arménio mantém as suas convicções e, ainda que não possa já deitar a mão a uma arma, recorre às palavras para fazer as suas investidas e destilar o ódio sobre uma das suas cuidadoras – Hermínia, que é negra. Com o tempo, os dois formam um vínculo inesperado. Uma história sobre a memória (que, de tempos a tempos, nos trai), o passado (que, por vezes, nos custa soltar) e as relações humanas (que, quase sempre, nos transformam sem que o possamos prever).
Entroncamento
Laura foge de um passado complicado e refugia-se no Entroncamento para recomeçar e poder reconstruir a sua vida. Arranja um trabalho honesto, mas depressa vê-se tentada pelos esquemas de uma rede criminosa, em que dá de caras com jovens frustrados, cada um com os seus contextos e problemas – e não são muito diferentes dos seus. Afinal, todos estão em busca de uma vida mais risonha. Nas ruas, vemos a luta pela sobrevivência, motivada pelos choques culturais, a ganância, a violência e o desespero causado pelas mudanças e migrações. Neste Portugal contemporâneo, pautado por tensões e fricções sociais, esta história mostra do que somos feitos quando pouca esperança resta.
Hanami
Nana vive na ilha do Fogo, em Cabo Verde, e há anos que diz adeus a quem se vai embora, incluindo a mãe, Nia, que parte logo após o seu nascimento. A cuidado dos avós, a pequena aprende a ficar, vivendo entre a realidade e os sonhos que acalenta – especialmente aquele em que a mãe regressa e não volta a deixá-la. Quando Nana é acometida por febres altas, é enviada aos pés de um vulcão para ser curada. Um retrato sobre família, pertença, identidade e deslocação, que inevitavelmente relembram Portugal como cenário de partidas e chegadas; um país que já viu tantas despedidas lavadas em lágrimas e reencontros aconchegados em abraços. Porque a memória e a identidade podem transbordar o indivíduo e passar a pertencer a uma família; a uma nação.
Lavagante
É impossível falar de Portugal sem evocar as décadas em que toda uma nação foi obrigada a enaltecer a pátria de maneira fingida e oca, proibida de atuar sem o jugo do medo sobre o pescoço. Nesta história, vive-se a ditadura, na década de 60, e um médico opositor ao regime vive um romance com uma estudante. O lavagante (crustáceo marinho) serve aqui como metáfora para expressar o primitivismo brutal da época, em que se vivia uma óbvia repressão, censura, perseguição e revolta estudantil. Um Portugal abatido por um manto de angústia e desalento, sob o qual ferve uma miríade de possibilidades.
O Riso e a Faca
Sérgio é um engenheiro ambiental que aceita um cargo na Guiné-Bissau. O seu novo trabalho é dar apoio a uma ONG na construção de uma estrada entre o deserto e a selva. Durante a sua estadia, desenvolve relacionamentos complexos com dois habitantes – Diara e Gui – enquanto procura descobrir o que aconteceu ao seu antecessor. Mas integrar-se e deixar-se acolher numa comunidade está longe de ser a mesma coisa, pelo que não é fácil ir apalpando terreno nas relações que vai travando. O certo é que adentrar nas dinâmicas neocoloniais da comunidade vai ser desafiante e é em Diara e Gui que vai encontrar o refúgio perante a solidão e a atrocidade anárquica. Um relato que toca no colonialismo ainda por dissipar, nas relações de poder com raízes racistas e na dupla herança-legado portugueses.
Estes 5 filmes nomeados esmiúçam diante dos nossos olhos uma série de temas que captam muito bem a nossa atenção.
Memória. Identidade. Pertença. Migração. Colonialismo. Família. Violência. Mudança.
São temas intemporais, que facilmente nos tocam: ou porque suscitam em nós a mais básica empatia humana ou porque remexem a memória coletiva que trazemos gravada.
Debruçam-se sobre o passado que ainda tem umas quantas unhas cravadas no presente, apesar das mudanças que o país tem testemunhado nestas últimas décadas. Relembram também os que ficaram, os que partiram e aquilo que em nós se fratura e passa a pertencer aos que vamos conhecendo pelo caminho. Embora contando histórias diferentes, atravessando coordenadas e épocas distintas, todos eles nutrem este mesmo olhar por um país – o que aconteceu, aquilo em que se foi transformando e as marcas que ainda traz consigo.
Qual destes chamou mais pela tua curiosidade? Vamos ver se tens um favorito antes de dia 26 de setembro…
#GlitterUpYourLife











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