“Que tal, tudo a postos?”
A pergunta de Luís Montenegro a Cândido Barbosa, presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, segundos antes do corte da fita junto ao Centro Cultural de Belém, marcou o arranque oficial da 87.ª Volta a Portugal Jogos Santa Casa.
Numa tarde quente de agosto, Lisboa voltou a ser o ponto de partida da corrida que, durante dez dias, atravessará 15 distritos e 70 municípios até chegar ao Porto. Mais do que o início de uma competição, foi uma celebração institucional da maior prova do ciclismo nacional.
Ao lado do primeiro-ministro estiveram Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Gomes, presidente do Comité Olímpico de Portugal, e várias figuras do desporto. Moedas e Montenegro receberam, simbolicamente, a camisola amarela antes do prólogo de 6,5 quilómetros disputado entre Belém e os Jerónimos.
Montenegro e Rui Oliveira terão sempre Paris
Tal como aconteceu nos Jogos Olímpicos de Paris, há dois anos, Luís Montenegro voltou a cruzar-se com Rui Oliveira. O primeiro-ministro acompanhou, pelo carro vassoura governamental, o campeão olímpico ao longo do percurso e assistiu de perto ao esforço do corredor da UAE Team Emirates-XRG, formação líder do ranking mundial da UCI e estreante nesta Volta a Portugal.
Rui Oliveira terminou o prólogo no segundo lugar, apenas quatro segundos atrás do colega de equipa Julius Johansen (7.02), primeiro camisola amarela da edição.
Mal cruzou a meta, porém, o esforço cobrou a fatura.
Depois de parar a bicicleta, deixou-se cair lentamente sobre o asfalto, amparado por elementos da equipa, enquanto o público respondia com aplausos e gritos de incentivo
“É muito especial o primeiro-ministro estar aqui a acompanhar a Volta. Já tinha estado quando tinha ganho a medalhada de ouro em Paris”, recordou, combalido.
“Foi uma surpresa vê-lo aqui, acho que é muito bom para o ciclismo e para o desporto”, elogiou de voz pausada o irmão gémeo de Ivo Oliveira depois de cumprir os 6,5 quilómetros à beira-rio.
“Queria começar bem, não sei como é que isto vai terminar”, apontou Rui Oliveira.
Para os dias que se seguem promete “todos os dias tentar dar o máximo de espetáculo aos portugueses”, avançou.
Entre as metas pessoais escreve o desejo de vencer uma etapa para homenagear o irmão mais velho, Hélder Oliveira, corredor de dez Voltas a Portugal sem conseguir conquistar uma vitória.
créditos: Miguel Morgado | MadreMedia
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O elogio ao elefante branco de José Sócrates
As memórias de Paris dominaram a intervenção de Luís Montenegro.
Sem direito a perguntas dos jornalistas, o primeiro-ministro recordou a medalha de ouro conquistada por Rui Oliveira, classificando-a como “tão inesperada” quanto “motivadora e inspiradora para todo o país”, disse.
A conquista olímpica surgiu “numa modalidade onde tradicionalmente não temos esses resultados”, mas cujos frutos foram colhidos “na sequência de um investimento feito há cerca de duas décadas em Anadia, em Sangalhos, no Velódromo”, relembrou, infraestrutura inaugurada em 2009 pelo governo de … José Sócrates.
“À época muitos duvidaram de que tivesse grande utilidade ou até quem dissesse que era mais um elefante branco”, referiu, sem saber, que o dono da obra foi o executivo socialista. “Mas foi verdadeiramente a raiz do desenvolvimento desta vertente do ciclismo que hoje tanto orgulha os portugueses”, continuou.
Uma gaffe do atual chefe do executivo que procedeu, sim, ao financiamento das obras de requalificação do Centro de Alto Rendimento (CAR) de Anadia / Velódromo Nacional de Sangalhos através do Contrato-Programa de Desenvolvimento Desportivo.
Sem férias no horizonte, entre elogios à política desportiva feita pelo governo que lidera, Montenegro destacou ainda a capacidade de “promoção” do país através da Volta a Portugal.
Dez dias que prometem “mobilizar não só aqueles que vivem em Portugal”, como os “nossos imigrantes” cuja “rotina de férias” passa por ver o pelotão na estrada e, por fim, os “turistas que nos visitam e que também aproveitam para sentir um pouco da portugalidade que esta prova acaba por transmitir”, finalizou.
Lisboa, onde tudo começou há 100 anos. Hoje, há outra Volta
Num local marcadamente turístico e, ano após ano, escasso de verdadeiros aficionados de ciclismo, Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal, fez questão de recordar a relação umbilical – que a fraca adesão popular teima em contrariar – entre a capital e a mais importante corrida do calendário velocipédico nacional.
“É bom lembrar que em 1927 foi do Marquês de Pombal que partiu a primeira volta. E isso marca a nossa cidade, marca a nossa história”, disse após cumprimentar Luís Montenegro à saída do carro.
A evocação histórica contrastava, contudo, com o ambiente em Belém e o público, esse, parece distante da visão de Moedas.
Entre turistas de gelado e pastéis de Belém numa mão, e garrafa de água, na outra, eram poucos os verdadeiros adeptos de ciclismo.
Quem aproveitou a passagem do evento pela Praça do Império foi um recolhedor de garrafas e latas com o símbolo Volta. Um empreendedor ambiental que pode lucrar bastante se percorrer os 1400 quilómetros do percurso.
Apesar do distanciamento da população autóctone, o atual autarca defendeu o papel agregador da modalidade na união entre municípios.
“É, talvez, dos desportos, o desporto mais autárquico de Portugal”, sublinhou tendo como pano de fundo o CCB, obra do antigo governo de Cavaco Silva.
créditos: Miguel Morgado | MadreMedia
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Levar o ciclismo à casa das pessoas
No ano em que a Federação Portuguesa de Ciclismo reassumiu a organização da Volta a Portugal em Bicicleta, Cândido Barbosa preferiu fechar o dia lembrando a dimensão popular da Volta.
“O ciclismo é de todos. Liga o interior ao litoral, Lisboa às pequenas freguesias e às pequenas cidades. Não deixa ninguém de fora”, rematou.
Uma frase que resume a identidade da corrida num dia em que um inesperado elogio a uma obra de José Sócrates podem ter roubado o protagonismo a um campeão olímpico.
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