No país que inventou o futebol profissional tal como o conhecemos, o esporte mais popular do planeta está cada vez mais dominado pela nação do “soccer”.
Levantamento feito pela Máquina do Esporte mostra que 11 dos 20 clubes da Premier League, na temporada 2026/2027, contam com participação significativa de investidores norte-americanos entre seus principais acionistas.
A presença do capital estadunidense é um movimento que teve início na primeira década deste século, com a venda do Manchester United à família Glazer, que também é dona do Tampa Bay Buccaneers, da National Footbal League (NFL). Atualmente, o clube tem como sócio minoritário o britânico Jim Ratcliffe, dono da Ineos.
Antes disso, houve um ensaio de desembarque dos Estados Unidos no futebol inglês, quando, em 1987, o empresário norte-americano do ramo imobiliário George Sullivan associou-se ao britânico Peter de Savary para adquirir o controle acionário do Millwall.
O investidor foi atraído pelo crescimento verificado no futebol da Inglaterra, à época, num período em que os estádios ingleses passavam por forte processo de modernização.
Com os recursos propiciados por Sullivan, o Millwall conquistou o direito de disputar a antiga First Division da extinta Football League, a elite do futebol profissional do país, chegando a liderar o campeonato durante algumas rodadas da temporada 1988/1989.
Em 1992, porém, quando a Premier League foi criada, o Millwall já não disputava a primeira divisão inglesa.
Portanto, a entrada de fato de capital dos Estados Unidos na principal competição nacional de clubes do planeta teve início de fato em 2003, quando a família Glazer adquiriu 2,9% do Manchester United. Dois anos depois, os investidores completariam a compra.
Confira abaixo quais clubes ingleses contam com proprietários dos Estados Unidos na temporada 2026/2027 da Premier League e quem são seus proprietários:
| CLUBE | PROPRIETÁRIO |
| Arsenal | Kroenke Sports & Entertainment |
| Aston Villa | V Sports (tem capital egípcio e norte-americano) |
| Bournemouth | Black Knight Football Club UK Limited (Bill Foley, dono do Vegas Golden Knights, da NHL, como acionista majoritário, além de minoritários como Michael B. Jordan e Nullah Saker) |
| Chelsea | BlueCo, consórcio liderado liderado por Todd Boehly, Clearlake Capital, Mark Walter e Hansjörg Wyss |
| Crystal Palace | Wood Johnson (principal acionista, dono do New York Jets, da NFL), Josh Harris, David Blitzer e Steve Parish |
| Everton | The Friedkin Group |
| Fulham | Shahid Rafiq Khan (dono da empresa automotiva Flex-N-Gate e do Jacksonville Jaguars, da NFL) |
| Ipswich Town | Gamechanger 20 Ltd. (que tem como principal acionista o fundo norte-americano ORG) |
| Leeds | 49ers Enterprises (dona do San Francisco 49ers, da NFL) |
| Liverpool | Fenway Sports Group (dono do Boston Red Sox, da MLB) |
| Manchester United | Família Glazer (acionista majoritária, que também é dona do Tampa Bay Buccaneers, da NFL) e o bilionário britânico Jim Ratcliffe (minoritário), da Ineos |
Fenômeno de audiência
Depois disso, viriam as vendas de Arsenal para o Kroenke Sports & Entertainment, em 2007, e do Liverpool para o Fenway Sports Group, dono do Boston Red Sox, em 2010. Na última década, o processo se intensificou, beneficiado por uma série de fatores.
Um deles tem a ver com a própria projeção global alcançada pelos clubes da Premier League, que, além de ser a liga mais rica do planeta, conta com alguns dos maiores craques em atividade, tendo seus jogos transmitidos regularmente para cerca de 800 milhões de residências espalhadas por 188 países e territórios em todo o mundo, com uma audiência estimada em 3,2 bilhões de espectadores por temporada, número que não representa indivíduos únicos, mas sim a soma de todas as vezes que as pessoas sintonizaram as partidas da liga globalmente.
Para se ter uma ideia, do que isso representa, a Champions League, considerada a maior competição de clubes do mundo, alcança 1,6 bilhão de espectadores em cada temporada.
Já a LaLiga, da Espanha, atinge uma média de 600 milhões, enquanto a National Basketball Association (NBA), que tem o melhor desempenho global entre as ligas dos Estados Unidos, registra em torno de 550 milhões de espectadores ao ano.
Um jogo de maior relevância, como o clássico entre Liverpool e Manchester City, pode mobilizar de 700 milhões e a 750 milhões de espectadores ao redor do mundo.
Não por acaso, a Premier League conseguiu negociar seus direitos internacionais de transmissão por £ 6,5 bilhões, para o ciclo que se encerrará em 2029.
Só o contrato da organização esportiva com a rede norte-americana NBC deve render um total de £ 2,5 bilhões por seis anos, numa prova de que os Estados Unidos têm plena consciência de quanto investir em soccer inglês pode ser promissor.
Estados Unidos cooptam futebol mundial
O interesse da terra do Tio Sam pelo esporte bretão cresceu a partir da última década, movimento que coincide com a eclosão do Fifagate, a partir de uma investigação levada a cabo pelo Federal Bureau of Investigation (FBI), que prendeu dirigentes da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e cartolas de entidades continentais e nacionais, acusados de corrupção, lavagem de dinheiro e desvio de recursos.
Desde então, o país passou a exercer uma influência nunca antes vista sobre os destinos da modalidade esportiva mais popular do planeta, a ponto de se tornar sede dos principais eventos internacionais promovidos pela Fifa nos últimos anos, a Copa do Mundo de Clubes de 2025 e a Copa do Mundo de 2026.
A mais recente tentativa dos Estados Unidos de cooptarem de vez o futebol global consiste na ideia de criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), subsidiária que teria uma fatia minoritária vendida para a gestora de capital de risco de Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, que por sua vez é marido de Ivanka Trump e genro do presidente Donald Trump.
A proposta apresentada nesta semana pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino, tem causado forte polêmica e foi publicamente rejeitada pelas federações que integram Uefa (Europa), Concacaf (Américas do Norte e Central) e AFC (Ásia), com alto custo político para o cartola.
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Uma outra questão de ordem geopolítica favoreceu a intensificação da presença do capital norte-americano na Premier League. Com a Guerra da Ucrânia, empresas e pessoas físicas russas passaram a sofrer os efeitos do embargo comercial imposto ao país.
Isso forçou o bilionário Roman Abramovich a vender o Chelsea (adquirido em 2003) ao consórcio norte-americano BlueCo, liderado por Todd Boehly, Clearlake Capital, Mark Walter e Hansjörg Wyss.
O embargo deixou o caminho aberto para que os investidores norte-americanos dominassem com ainda mais facilidade a Premier League.
Qual a razão do interesse norte-americano?
Ao longo das décadas, equipes esportivas têm se mostrado opções interessantes de negócio para os grandes investidores.
Apesar das idas e vindas que podem ocorrer no mercado (a pandemia da Covid-19 está aí para provar), são ativos que tendem a se valorizar de maneira significava, com o passar do tempo.
Quando o Houston Hockets, da NBA, foi vendido em 2017 por US$ 2,2 bilhões, aquela era considerada a maior negociação de uma equipe, na história do esporte.
Passados oito anos, a venda do Los Angeles Lakers movimentou US$ 10 bilhões, quase cinco vezes mais.
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Por se tratarem de ligas fechadas, as chances de um investidor adquirir uma propriedade numa competição de elite dos Estados Unidos são mais escassas.
Para que isso ocorra, ou ele terá de gastar fortunas imensas numa transação como a do Lakers ou do Boston Celtics, ou aguardar algum processo de expansão, que costuma demorar para ocorrer (depende do aval dos demais times) e envolve o pagamento de taxas elevadas para as ligas.
Além disso, organizações como NFL possuem regras rígidas que proíbem a multipropriedade de franquias (a exceção na liga de futebol americano consiste nos fundos de private equity, que podem receber autorização para comprar fatias minoritárias de no máximo 10% em até seis diferentes times, mas sem direito a voto ou a participar da gestão).
Nesse cenário, quem deseja ampliar o controle real sobre ativos no esporte precisa buscar oportunidades em outros mercados. Não por acaso, diversos donos de franquias da NFL hoje também são proprietários de clubes ingleses.
Investir na Premier League é um movimento relativamente menos custoso para os norte-americanos, em comparação às aquisições que costumam ocorrer em suas ligas domésticas. O valor mercado de um clube inglês mediano é muito menor que o de qualquer franquia dos Estados Unidos.
Como o futebol inglês conta com sistema de acesso e descenso, há ainda a possibilidade de se comprar um clube numa divisão inferior, por um custo baixíssimo, e investir para que ele cresça esportivamente, ampliando as receitas.
Foi o que ocorreu com o Wrexham, comprado pela dupla de atores Rob McElhenney e Ryan Reynolds por £ 2 milhões, em 2020, e que estava avaliado em £ 100 milhões, em abril do ano passado, após conquistar o acesso à Championship, a segunda divisão profissional do país.
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Ainda que o negócio não envolva uma ascensão esportiva tão meteórica, a tendência de valorização com o passar dos anos persiste.
No caso do Manchester United, a família Glazer pagou £ 800 milhões pelo controle do capital do clube. Em 2023, ela faturaria £ 1,5 bilhão (quase o dobro) com a venda (em duas etapas) de 28,94% das ações dos Red Devils à Ineos, de Jim Ratcliffe.
Com base nas cifras movimentadas nessas duas transações, é possível afirma que, ao longo de menos de duas décadas, o valor de mercado do maior campeão da Premier League cresceu acima de 400%.
A temporada 2026/2027 da Premier League, dominada por investidores norte-americanos, terá início em 22 de agosto deste ano e está prevista para ser encerrada em 30 de maio de 2027. O atual campeão é o Arsenal.








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