Gabriel Oliveira e o desafio de ser fotógrafo na era da IA


Gabriel Oliveira cresceu a desmontar aparelhos que muitas vezes não sabia voltar a montar, movido por uma curiosidade que nunca conviveu bem com a ignorância prática: perante algo que lhe despertasse interesse, sentia necessidade de perceber o seu funcionamento. Cresceu também numa casa onde os pais ouviam kizomba, semba e outros estilos africanos, rodeado por uma música que, na altura, não imaginava vir a cruzar-se com o seu trabalho.

A fotografia entrou-lhe na vida no final de 2023, através da igreja que passou a frequentar. Ganhou forma profissional em 2025, quando o pastor Edivaldo Simão lhe sugeriu que fotografasse os cultos e os eventos da comunidade, apesar de Gabriel nunca ter trabalhado antes de modo profissional com uma câmara. “Ele acreditou em mim muito antes de eu acreditar”, resume. Sem formação formal, aprendeu através dos erros, da observação e do estudo: quando uma fotografia não ficava como queria, procurava perceber porquê e como fazê-la melhor da próxima vez. As imagens que fazia na igreja foram-lhe abrindo caminho junto de outras pessoas, até o introduzirem no circuito de concertos, onde passou a fotografar artistas que, segundo descreve, já faziam parte da sua vida muito antes de ser fotógrafo – Telma Lee, Edmázia Mayembe, Anna Joyce, Pérola, Paulo Flores, Yasmine, Nair Nany e Dynamo, entre outros. “A música africana que ouvia dentro de casa quando era criança acabou por se cruzar com a fotografia que descobri anos mais tarde”, nota. “Hoje consigo contar, através do meu próprio olhar, histórias de uma cultura com a qual cresci.”

O primeiro concerto que fotografou a nível profissional foi o de Edmázia Mayembe, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa – a primeira vez, descreve, em que sentiu a responsabilidade de contar, através das suas fotografias, o que acontecia em palco. O espetáculo, “15 Anos de Mim”, assinalava também uma estreia da própria cantora angolana num palco europeu, depois de uma carreira iniciada ainda na infância. Gabriel Oliveira recorda a dimensão do espaço, as luzes e a energia do público: “Havia pressão, claro, mas ao mesmo tempo senti que era exatamente ali que queria estar.”



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