Noventa minutos e nenhuma certeza. A Copa do Mundo de 2026 vai ficando marcada na história não apenas pela magnitude, mas pela queda dos gigantes. No Catar, em 2022, a gente já tinha sentido o cheiro da mudança. Mas agora, em 2026, as “zebras” resolveram passear de vez nos gramados da América do Norte. E o que era surpresa virou realidade. Até mesmo a estreante Cabo Verde, do goleiro Vozinha, assustou os atuais campeões nesta sexta e forçou a Argentina a jogar até a prorrogação para garantir uma sofrida classificação às oitavas.
Para os donos da casa, o uniforme de azarão já ficou no passado. O México entrou no torneio sob desconfiança, mas jogo a jogo, transformou o ceticismo em euforia. De desacreditados, os mexicanos agora entram em campo sob os gritos de “favoritos” e terão pela frente a Inglaterra nas oitavas de final, em pleno estádio Azteca. Uma metamorfose que o torcedor nas ruas faz questão de ostentar no peito, como o Rafael Barradas.
“A verdade é que para nós é uma Copa do Mundo muito especial. Há muito tempo não vivíamos uma ilusão assim. A partida contra o Equador foi histórica, porque México não disputava um encontro de eliminação direta em casa desde 1986. E ver a equipe avançar nos encheu de um grande orgulho. Acho que jogar como local influencia muito. O apoio da torcida foi impressionante e se sente uma conexão muito forte entre a seleção e o povo mexicano. Além disso, notei algo muito bonito. Muitos torcedores de outros países, incluídos brasileiros, marroquinos, iranianos e muitas outras nacionalidades, também tem mostrado carinho pelo México.”
Mas se o México construiu a escalada jogo a jogo, em Assunção a explosão foi imediata. E o confronto futebolístico teve sotaque europeu. Ninguém, absolutamente ninguém, esperava o que aconteceu no confronto contra a poderosa tetracampeã Alemanha. A vitória paraguaia quebrou qualquer previsão e parou o país sul-americano no confronto que entrou para a história como a “Batalha de Boston”, na voz do narrador Bruno Pont da Radio Ñanduti (nhanduti).
Estamos classificados, senhores! A garra Guaraní está grande! Nesta batalha que se chama de Boston! Se pudimos! Se pudimos na batalha de Boston! Se pudimos! Não há coração que aguente! Não há garganta que aguente esta emoção única! Isto é histórico!
Até mesmo o presidente do país, Santiago Peña, foi às redes sociais comemorar e declarou um feriado nacional no calor da emoção logo após o apito final. Uma festa que ecoou na voz de cada cidadão, como o Arsenio Sanchez:
“Pra mim foi incrível, né? Assim, foi uma noite absurda porque acho que nem todo mundo acreditava no Paraguai. A Alemanha veio muito bem, veio muito forte, mas assim, eu acho que o Paraguai tem uma… Tem uma coisa que a gente chama de garra, né? Lagarra. Então, a gente fica muito feliz, muito contente pela vitória”.
Enquanto o mundo assiste a essas reviravoltas de boca aberta, aqui no Brasil o fenômeno das zebras ganha um contorno diferente. Em vez de lamentar a queda dos astros bilionários ou chorar pelos ídolos do futebol europeu que fazem as malas mais cedo, o torcedor brasileiro escolheu um lado: o do mais fraco. Nos bares e nas redes sociais, a simpatia pelo “Davi” contra o “Golias” virou quase uma regra de conduta.
Os brasileiros conhecem bem a fórmula de que a graça do futebol está justamente nessa quebra de roteiro. Seja pela paixão que renasce no México, pelo milagre festejado no Paraguai, ou pelo puro prazer do torcedor brasileiro em ver a lógica ser desafiada, a Copa de 2026 já deixou um recado bem claro: no maior palco do mundo, a camisa não ganha mais jogo sozinha.