Explicador. Da Ásia ao Ártico: a guerra com o Irão aproxima os rivais de Trump. O que está a mudar?


Quase seis meses depois do início da guerra com o Irão, as consequências já ultrapassam largamente o campo de batalha. O Estreito de Ormuz continua com o tráfego marítimo muito reduzido, os Estados Unidos consomem importantes reservas de mísseis ofensivos e defensivos e os mercados petrolíferos permanecem condicionados pelo receio de uma nova escalada.


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Mas há outra transformação, menos imediata e potencialmente mais duradoura, em curso: o mapa das grandes rotas comerciais e das alianças internacionais começa a mexer.

Numa análise publicada pela ‘Newsweek’, surgem três movimentos particularmente relevantes. A Rússia procura novas ligações terrestres até ao Oceano Índico, a China prepara uma ligação marítima regular à Europa através do Ártico e a Arábia Saudita juntou-se à Turquia e ao Paquistão num novo acordo de defesa coletiva.

São acontecimentos distintos, mas partilham uma lógica: reduzir vulnerabilidades e criar alternativas a rotas, mercados e garantias de segurança demasiado dependentes do Médio Oriente ou de Washington.

O que está, afinal, a acontecer? Quem pode beneficiar? E até que ponto estas mudanças poderão sobreviver à própria guerra?

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Porque é que o Estreito de Ormuz é tão importante?

A primeira peça do puzzle está no Golfo.

O Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas mais importantes do planeta para o transporte de energia. A guerra demonstrou novamente até que ponto uma perturbação naquela pequena faixa de mar consegue produzir consequências muito além da região.

Segundo a ‘Newsweek’, o fluxo de navios continua reduzido a uma fração do habitual e os mercados petrolíferos mantêm-se atentos à possibilidade de o frágil abrandamento dos combates terminar.

Para países dependentes destas rotas, o problema é simples: quanto maior a instabilidade, maior o incentivo para encontrar alternativas.

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E é precisamente isso que está a acontecer.

O que pretende fazer a Rússia?

Moscovo enfrenta um problema diferente, embora relacionado.

Desde a invasão em grande escala da Ucrânia, os países ocidentais procuraram limitar as receitas russas provenientes das exportações de petróleo e gás através de sucessivos pacotes de sanções, restrições financeiras e limites ao comércio energético.

A Rússia respondeu desviando uma parcela crescente das suas exportações para a Ásia.

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China e Índia compraram, em conjunto, mais de 400 mil milhões de dólares em petróleo russo entre fevereiro de 2022 e janeiro de 2026, segundo dados do Centre for Research on Energy and Clean Air citados pela ‘Newsweek’.

Parte desse comércio é transportada pela chamada “frota sombra”, uma rede de petroleiros, frequentemente envelhecidos e com estruturas de propriedade pouco transparentes, utilizada para movimentar petróleo russo sujeito a sanções e restrições ocidentais.

Só que também esta solução enfrenta dificuldades crescentes.

Forças britânicas abordaram em junho o petroleiro sancionado ‘Smyrtos’ no Canal da Mancha, França intercetou outro navio suspeito de integrar a frota sombra no Mediterrâneo e a União Europeia colocou dezenas de outras embarcações sob sanções.

É aqui que surge uma nova ideia russa: trocar parte da vulnerabilidade marítima por caminhos-de-ferro.

Moscovo quer chegar ao Oceano Índico por terra

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Marat Khusnullin, vice-primeiro-ministro russo, revelou que Moscovo pretende estudar ligações ferroviárias permanentes ao Oceano Índico através de países como Afeganistão, Paquistão, Turquemenistão e Irão.

A Rússia já dispõe de alternativas. O Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul permite ligar o país ao Índico através do Irão, enquanto a Rota Internacional de Transporte Transcaspiana abre outro caminho pela Ásia Central, mar Cáspio e Cáucaso.

O problema é que também estas ligações apresentam vulnerabilidades.

O Irão encontra-se em guerra e a capacidade ucraniana para realizar ataques a grande distância acrescentou um novo elemento de risco às rotas utilizadas por Moscovo.

A ideia russa é, por isso, multiplicar caminhos.

“Qualquer opção que permita o acesso à Índia é aceitável”, resumiu Khusnullin, citado pela ‘Newsweek’.

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O que ganharia Putin com estas novas rotas?

Sobretudo redundância.

Se uma rota pode ser bloqueada, sancionada ou atacada, ter três ou quatro alternativas torna o comércio mais resistente.

Uma ligação ferroviária eficiente entre a Rússia e os mercados asiáticos poderia ainda diminuir a exposição de Moscovo às zonas marítimas onde países ocidentais dispõem de maior capacidade de fiscalização.

Há, contudo, uma enorme diferença entre desenhar uma linha num mapa e construir um corredor comercial internacional.

As novas ligações propostas pela Rússia demorariam anos a concretizar, exigiriam investimentos significativos e dependeriam de acordos entre vários países com interesses e situações políticas muito diferentes.

Não são, portanto, uma solução imediata para os problemas económicos russos.

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Mas revelam para onde Moscovo está a olhar.

E a China? Está a olhar para norte

Se a Rússia procura chegar ao Índico por terra, a China prepara-se para utilizar de forma mais regular uma rota que durante décadas pareceu demasiado difícil para se transformar numa grande alternativa comercial: o Ártico.

Ao longo da costa setentrional da Rússia encontra-se a Rota Marítima do Norte, com mais de 4.800 quilómetros.

O progressivo recuo do gelo tornou esta passagem mais acessível durante determinados períodos do ano e aumentou o interesse comercial numa ligação entre a Ásia e a Europa que evita o canal do Suez e o mar Vermelho.

Até agora, o tráfego regular era sobretudo constituído por navios russos que transportavam gás natural liquefeito ou metais, além de algumas viagens pontuais entre Rússia e China.

Isso começa a mudar.

China prepara ligação regular à Europa pelo Ártico

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Segundo a ‘Newsweek’, a chinesa Sea Legend Shipping prepara o lançamento de um serviço regular entre Ningbo, na China, e Felixstowe, no Reino Unido, com escalas noutros portos chineses e europeus.

A importância estratégica é evidente.

Para Pequim, a rota permite encurtar os tempos de transporte para a Europa e reduzir a dependência de passagens condicionadas pela guerra com o Irão e pela instabilidade no Médio Oriente.

Para Moscovo, também há benefícios.

A Rota Marítima do Norte passa em grande medida pela zona económica exclusiva russa e a Rosatom controla autorizações de trânsito e cobra taxas, incluindo pelos serviços de quebra-gelos prestados aos navios.

Ou seja, quanto maior for a utilização comercial da rota, maior poderá ser a importância económica e estratégica da Rússia no comércio entre a Ásia e a Europa.

A Coreia do Sul também quer experimentar

A China não está sozinha.

Poucos dias depois da partida do navio da ‘Sea Legend Shipping’, a sul-coreana PanStar Line deverá enviar o cargueiro ‘PanStar Acro’ numa viagem de demonstração a partir de Busan através da Rota Marítima do Norte.

O objetivo é testar a viabilidade comercial da passagem.

Se estas experiências forem bem-sucedidas e derem origem a serviços regulares, o Ártico poderá assumir um papel muito mais importante nas cadeias logísticas entre a Ásia e a Europa.

Isso não significa que vá substituir Suez.

As condições meteorológicas, o gelo, as necessidades de infraestruturas, os custos de seguros e as limitações sazonais continuam a representar obstáculos importantes.

Mas poderá transformar-se numa alternativa estratégica — e isso, num mundo de conflitos e bloqueios marítimos, tem valor por si só.

O terceiro movimento não é comercial: é militar

Há ainda uma consequência da guerra que se manifesta de forma diferente.

Os ataques iranianos contra bases dos Estados Unidos e infraestruturas energéticas dos países do Golfo obrigaram alguns dos principais aliados de Washington na região a questionar até que ponto podem continuar dependentes exclusivamente da proteção americana.

A Arábia Saudita já deu um passo importante.

A 7 de agosto, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, assinaram o Makkah Joint Defense Agreement.

O princípio central aproxima-se daquele que sustenta a NATO: um ataque armado contra um dos signatários deverá ser encarado como um ataque contra todos.

É uma nova NATO no Médio Oriente?

Ainda não.

O acordo não estabelece publicamente obrigações militares tão detalhadas quanto as existentes na NATO, nem assenta numa estrutura institucional e numa integração militar construídas ao longo de décadas.

Mas o significado político é relevante.

Três importantes potências regionais estão a criar uma garantia coletiva de segurança sem que Washington faça parte da estrutura.

O acordo prevê ainda a possibilidade de outros países aderirem no futuro.

Para a ‘Newsweek’, o movimento poderá representar o início de uma reorganização mais ampla da arquitetura de segurança do Médio Oriente, na qual os países da região procuram garantias complementares às oferecidas pelos Estados Unidos.

O que significa tudo isto?

Nenhuma destas mudanças começou necessariamente com a guerra com o Irão.

A Rússia já procurava desviar o seu comércio para a Ásia devido às sanções ocidentais. A China já demonstrava interesse pelo Ártico. E os países do Golfo já procuravam diversificar as suas relações diplomáticas e militares.

A guerra funciona sobretudo como acelerador.

Expôs a vulnerabilidade de Ormuz, mostrou os riscos de concentrar cadeias logísticas em poucas passagens marítimas e reforçou as dúvidas de alguns aliados sobre até onde chega a proteção dos Estados Unidos.

O resultado é uma procura crescente por alternativas.

Mais caminhos-de-ferro entre a Eurásia e o Índico. Mais navios através do Ártico. Mais relações comerciais entre Rússia e Ásia. E novas estruturas de segurança no Médio Oriente.

O que podemos esperar agora?

No curto prazo, grande parte destas alternativas continuará a ter um peso limitado.

Construir milhares de quilómetros de ferrovia demora anos. Transformar o Ártico numa rota comercial regular exige infraestruturas, navios adequados e condições de navegação favoráveis. E um acordo entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão está ainda muito longe de possuir a estrutura militar da NATO.

A questão mais importante será perceber se estas iniciativas sobrevivem à crise que lhes deu novo impulso.

Se isso acontecer, a consequência da guerra com o Irão poderá revelar-se muito maior do que uma alteração temporária nos preços do petróleo ou no tráfego através de Ormuz.

Poderá acelerar uma tendência que já vinha a ganhar força: um sistema comercial e de segurança internacional com mais rotas alternativas, mais centros de poder e menor dependência das estruturas dominadas pelo Ocidente.

Nesse cenário, a verdadeira mudança não estará apenas no mapa das guerras. Estará também no mapa por onde circulam navios, comboios, mercadorias, energia — e poder.



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