A Copa do Mundo não pode ser tratada como um ativo financeiro – Jornal DR1


Há muito tempo a FIFA deixou de ser apenas a entidade que organiza o maior torneio do planeta. Sob a gestão de Gianni Infantino, a impressão é de que a prioridade deixou de ser o futebol e passou a ser a maximização de receitas. A mais recente proposta de vender uma participação dos direitos comerciais da Copa do Mundo para investidores privados talvez seja apenas o capítulo mais explícito dessa transformação. Afinal, quando a UEFA reage afirmando que “a Copa do Mundo não está à venda”, a discussão ultrapassa a esfera financeira e entra na defesa da própria essência do esporte.

Não se trata de um caso isolado. As decisões da FIFA nos últimos anos revelam um padrão. A Copa do Mundo de 2022 foi realizada no Catar em meio a intensas críticas relacionadas aos direitos humanos e às condições de trabalho. A edição de 2034 foi entregue praticamente sem concorrência à Arábia Saudita, novamente sob questionamentos sobre direitos humanos e sobre a influência política e econômica dos países do Golfo no futebol internacional. Para muitos críticos, a entidade parece cada vez mais confortável em associar seu principal produto a mercados capazes de gerar grandes receitas, mesmo quando essas escolhas provocam desconforto esportivo e institucional.

A Copa de 2026 reforçou essa percepção. A expansão para 48 seleções aumentou significativamente o número de partidas e o potencial de arrecadação com ingressos, direitos de transmissão e patrocínios. A FIFA sustenta que a medida democratiza o acesso ao torneio e amplia investimentos nas federações nacionais. Os críticos, porém, enxergam uma lógica comercial predominando sobre a esportiva, argumentando que o aumento do calendário dilui o nível técnico da competição e sobrecarrega ainda mais atletas e clubes.

Outro aspecto que desgastou a imagem da entidade foi a postura de Gianni Infantino durante a Copa de 2026. Em vez de preservar a neutralidade institucional que sempre se espera do presidente da FIFA, sua proximidade com Donald Trump tornou-se alvo de críticas constantes. Organizações de direitos humanos e parte da imprensa internacional questionaram o alinhamento político do dirigente, especialmente diante de decisões e episódios envolvendo imigração, arbitragem e gestão do torneio. Ao final da competição, Infantino respondeu aos críticos dizendo que eles estavam “espalhando ódio”, postura que pouco contribuiu para reduzir a polarização em torno da entidade.

A relação próxima entre o presidente da FIFA e o governo americano também levantou dúvidas sobre a independência da entidade. Em um momento em que o futebol deveria servir como espaço de união entre povos, a percepção de interferências políticas acabou colocando em xeque um dos pilares da FIFA: sua neutralidade institucional.

Agora, a proposta de transformar os direitos comerciais da Copa do Mundo em um ativo para investidores privados parece confirmar aquilo que muitos já suspeitavam: para a atual gestão, a Copa é vista cada vez mais como um negócio e cada vez menos como patrimônio do futebol. A reação da UEFA, de diversas federações e até de integrantes da própria FIFA demonstra que essa preocupação não é apenas retórica. A renúncia de um importante assessor de Infantino classificando o projeto como “um mau negócio para o futebol” evidencia que a resistência também existe dentro da entidade.

É evidente que o futebol moderno movimenta bilhões de dólares e depende de uma gestão financeira sólida. O problema surge quando a lógica do mercado passa a determinar decisões que deveriam ser guiadas pelo interesse esportivo. A Copa do Mundo não conquistou seu prestígio porque gera receitas bilionárias; ela gera receitas bilionárias porque se tornou, ao longo de quase um século, o maior patrimônio simbólico do futebol mundial.

Se a FIFA inverter essa ordem, tratando a Copa apenas como um ativo financeiro, corre o risco de descobrir tarde demais que nem todo patrimônio pode ser medido em balanços contábeis. O valor da Copa do Mundo sempre esteve na paixão que desperta, e não no preço que alguém está disposto a pagar por ela.



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