Boicote da UEFA a competições da Fifa pode afetar Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil


Os 55 países que fazem parte da UEFA, a federação de futebol europeu, anunciaram nesta quinta-feira (30) que boicotarão todas as competições da Fifa enquanto a proposta de venda de parte dos torneios permanecer em vigor.

A situação pode afetar a Copa do Mundo Feminina de 2027, que acontecerá no Brasil. Até agora, Dinamarca, França, Espanha e Alemanha, dos países europeus, estão confirmados no torneio.

No total, a UEFA possui 11 vagas, o que ainda restariam 7 seleções a serem definidas.

As espanholas, aliás, são as atuais campeãs do mundo.

As seleções da UEFA disputarão em outubro os playoffs das eliminatórias da Copa. O prazo de Infantino é até 19 de setembro, ou seja, a situação poderia já estar definida.

A informação foi revelada em uma nota divulgada pela própria UEFA. Um boicote significa que a Copa do Mundo de 2030 acontecerá sem potências globais como Inglaterra, França, Espanha e Alemanha.

Competições como a Copa do Mundo Feminina de 2027, a Copa do Mundo de Clubes de 2029, os Mundiais de Clubes, além, claro, da Copa de 2030.

Esse acordo surge dois dias depois de termos revelado a existência de um plano de protesto para a retirada dos principais torneios da FIFA.

Segundo o comunicado, as federações ‘rejeitam de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir a titularidade da Taça do Mundo e de outras competições da FIFA para investidores privados’.

A UEFA acrescentou em seu comunicado que a Copa do Mundo ‘não pode ser tratada como um produto de investimento’, afirmando: ‘É um dos maiores legados esportivos do futebol’.

‘Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores de todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deveria ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda’.

O texto ainda defende que, como resultado das discussões, ‘nenhuma seleção nacional filiada à UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que sejam totalmente abandonadas e que sejam oferecidas garantias vinculantes de que a FIFA jamais voltará a abrir sua estrutura de governança ou suas competições à propriedade privada’.

‘Há coisas que são simplesmente importantes demais para serem vendidas. A Copa do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E, enquanto a Europa tiver voz, ela jamais estará à venda’, finaliza o texto.

A FIFA planeja criar uma empresa separada de US$ 20 bilhões (R$ 85 bilhões) para administrar suas competições, com 20% dela destinados a investidores externos.

Os países europeus vinham discutindo a possibilidade de boicotar a Copa do Mundo caso Infantino levasse adiante seus planos.

Além da UEFA, as federações da Ásia e da América do Norte também rejeitaram a ideia. Elas representam 143 dos 211 votos da Fifa. Apesar disso, ainda não há informações sobre bloqueio.

‘UEFA e suas 55 associações nacionais filiadas estão unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações acionárias na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados.

A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores de todos os continentes. Nenhuma parte desse patrimônio deve jamais ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda.

É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à iminência de aprovação sem qualquer consulta significativa àqueles que têm a responsabilidade de administrar o esporte. Isso representa não apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial.

As associações nacionais de todo o mundo estão agora diante de um ultimato: aceitar a entrega irreversível das maiores competições do futebol ou arcar com as consequências. Isso não é uma “decisão democrática”, mas uma forma de governança baseada na intimidação — um ato de coerção incompatível com uma instituição encarregada de zelar pelo futebol global.

Mas nossa oposição vai muito além da forma como esse processo foi conduzido.

No momento em que investidores externos adquirirem participações nas competições da FIFA, o futebol mudará para sempre. O retorno financeiro passará a ser uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores se transformarão em uma pressão diária. A partir desse momento, todas as decisões sobre o calendário internacional, o formato das competições e o futuro do futebol deixarão de ser orientadas pelo que é melhor para o esporte e passarão a atender ao que é melhor para os acionistas.

Esse modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas de quem tem como principal dever maximizar o retorno financeiro. Tampouco os interesses das associações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores podem ficar subordinados aos interesses dos investidores. O futebol não pode hipotecar seu futuro em troca de ganhos financeiros.

A posição da Europa é clara. Nunca daremos legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que apenas administra em nome das próximas gerações.

Como resultado da discussão realizada hoje, nenhuma seleção nacional filiada à UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que sejam totalmente abandonadas e que sejam oferecidas garantias vinculantes de que a FIFA jamais voltará a abrir sua estrutura de governança ou suas competições à propriedade privada.

Que não haja qualquer dúvida: a UEFA e suas associações nacionais se oporão a esses planos com absoluta determinação.

Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a comprometer. Este é um desses momentos.

Há coisas que são simplesmente importantes demais para serem vendidas. A Copa do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E, enquanto a Europa tiver voz, ela jamais estará à venda’.

Gianni Infantino, presidente da Fifa, e Donald Trump, presidente dos EUA, na final da Copa do Mundo 2026 — Foto: Divulgação/Casa Branca

Entenda mais da proposta da Fifa

Presidente da FIFA, Gianni Infantino — Foto: Sports Press Photo/Sports Press Photo/Fotoarena/Agência O Globo

A Fifa enviou uma carta oficial para todas as 211 associações que são oficialmente parte da entidade máxima do futebol, sugerindo um valor de US$ 40 milhões para apoio ao plano de venda de participações nas principais competições organizadas por ela, entre essas a Copa do Mundo.

A iniciativa, considerada controversa e que já tem resistência entre europeus e asiáticos, teria como objetivo ‘abrir’ a Fifa para investimentos externos, já que poderão adquirir participações na empresa e receber lucros das publicidades e vendas dos torneios.

Segundo a rede de TV britânica BBC, uma carta foi enviada para as federações com prazo de resposta para 19 de setembro. O texto é assinado pelo presidente, Gianni Infantino. As que aceitarem já receberão um montante inicial de US$ 20 milhões, disponíveis a partir de 1º de janeiro de 2027.

Esse dinheiro viria da ‘liquidação de uma parte minoritária’ da participação da Fifa na subsidiária que aumentaria as receitas através de investimentos privados.

A polêmica também foi grande na política interna da entidade, visto que, segundo a BBC, Infantino teria mantido o plano escondido, sem avisar a oito vice-presidentes (presidentes de federações) sobre o plano. O valor total de arrecadação previsto seria de US$ 10 bilhões.

Apesar disso, a Fifa afirma que o presidente apresentou a ideia na reunião com os membros antes da final da Copa do Mundo 2026.

Taça da Copa do Mundo — Foto: Divulgação/Casa Branca

Até mesmo por isso, algumas federações afirmam que foram enganadas e criticaram as negociações. Além disso, há uma espécie de oposição em andamento, afirmando que o caso não possui um andamento legal.

Uma porta-voz da Federação Inglesa disse para a rede de TV que não havia ‘conhecimento algum dessa proposta e não possuímos detalhes substanciais, incluindo qual é a proposta em si e quais condições estão atreladas a ela’.

‘Com base nas informações limitadas, estamos profundamente preocupados com a falta de processos e governança para chegar a este ponto, bem como com a aparente substância e os princípios envolvidos’.

O projeto foi rechaçado imediatamente pela UEFA (Europa), Concacaf (América do Norte) e AFC (Ásia).

A maior situação foi da entidade europeia, emitindo uma resposta antes do anúncio dos planos, afirmando que eles ‘ultrapassaram todos os limites’.

A Fifa argumenta a necessidade de aumentar o futebol de forma global, com discussões sobre uma Copa do Mundo de 64 seleções já na próxima edição, em 2030. No entanto, os países europeus afirmam que a situação geraria problemas no calendário já muito apertado para os atletas.

A relação entre a entidade máxima e a UEFA também não anda bem, com críticas de ambos os lados a decisões da Copa do Mundo, como no caso de Folarin Balogun, jogador dos EUA que teve a suspensão de cartão vermelho retirada.

Por conta de decisões polêmicas no torneio neste ano, o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, boicotou a final da Copa do Mundo.

A Concacaf, que participou da sede da Copa de 2026, afirma estar preocupada ‘com a falta de devido processo legal’.

‘Partilhamos a decepção de muitos na nossa região e no mundo do desporto pelo facto de este nível de detalhe ter sido concebido e divulgado publicamente antes de qualquer discussão com os órgãos de governação e partes interessadas relevantes’.

Já a Confederação Asiática destacou a ‘importância de explorar abordagens inovadoras que possam fortalecer o futuro do futebol mundial’. Apesar disso, defende que essas mudanças ‘devem ser fundamentadas nos princípios da boa governança, transparência e consulta significativa’.

A Associação Europeia de Clubes de Futebol, organização que representa mais de 850 clubes, afirmou que teria sido ‘apropriado’ que a Fifa os consultasse sobre ‘uma proposta de tal magnitude’.

Por fim, a Fifpro, associação internacional de jogadores de futebol, pediu à Fifa que’reconsidere sua proposta sem mais demora’.

A entidade afirmou ter ‘tomado nota com profunda preocupação da proposta de transformar a Copa do Mundo da FIFA e outras competições da FIFA em ativos de investimento para capital privado’.

O comunicado completa dizendo que a medida ‘remodelaria fundamental e irreversivelmente os incentivos que sustentam as competições’ e que era ‘particularmente preocupante que um projeto desta magnitude tenha sido desenvolvido em grande parte a portas fechadas’, quando tinha ‘implicações potencialmente abrangentes para o bem-estar dos jogadores, o calendário de jogos internacionais e a futura governança do esporte’.



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