Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol, e Gianni Infantino, presidente da Fifa – Reprodução / Twitter (@agdws)
A Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) se pronunciou pela primeira vez na noite desta sexta-feira (31) em relação à proposta da Fifa de criar uma subsidiária para gerir os direitos comerciais do futebol, com possibilidade de vender 20% de participação a um investidor ligado à família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A entidade divulgou comunicado afirmando que, após tomar conhecimento da proposta, consultou suas federações filiadas e convocou reunião de seu Conselho para avaliar o tema. Em seu comunicado, porém, não deu a data nem o local onde tal encontro irá ocorrer.
A justificativa da entidade é que solicitou informações adicionais à Fifa sobre estrutura, governança e impactos da iniciativa. O curioso é que a proposta da criação da FFE, um documento de 25 páginas, já havia sido enviado às 211 federações filiadas à Fifa.
Cautela
Entre as confederações continentais mais relevantes, a Conmebol foi a última a se manifestar sobre o tema, já rejeitado por Uefa (Europa) e Concacaf (América do Norte, Central e Caribe). De longe, é a entidade mais relevante a, até o momento, não tomar nenhuma posição sobre o assunto.
“A Conmebol continuará atuando com prudência, responsabilidade e espírito de cooperação, contribuindo para o fortalecimento do futebol mundial exclusivamente por meio dos canais institucionais e em conformidade com os princípios da boa governança”, declarou a entidade, sem declarar muita coisa.
Por trás desse tom reticente está um dilema enfrentado pelo presidente da entidade, o paraguaio Alejandro Domínguez: o receio de entrar em atrito com Gianni Infantino, presidente da Fifa, ou com Uefa e Concacaf, confederações com as quais a Conmebol mantém maior proximidade.
Vagas
Segundo a Máquina do Esporte apurou, Domínguez pleiteia que a América do Sul tenha direito a 8 vagas diretas e uma na repescagem para a Copa do Mundo 2030. Três delas já estão asseguradas, com Argentina, Uruguai e Paraguai como países-sede do Mundial da Fifa, ao lado de Portugal, Espanha e Marrocos.
O objetivo é garantir que até 9 das 10 seleções sul-americanas consigam disputar a competição, incluindo a meia vaga destinada à repescagem. Na Copa do Mundo 2026, a região contou com seis vagas diretas e uma na repescagem, disputada pela Bolívia, que não conseguiu a classificação.
Foi Domínguez, aliás, que afirmou que a próxima Copa do Mundo terá 64 seleções. O cartola contou a novidade em sua conta no X no último dia 20, um dia após a final da Copa do Mundo 2026.
“A próxima edição será em casa! A Copa do Mundo de 2030 acontecerá no Uruguai, na Argentina e no Paraguai. Uma grande oportunidade para o futebol celebrar o centenário da Copa do Mundo com uma competição que contará com 64 seleções”, informou o dirigente paraguaio, na ocasião.
Expansão
A proposta de Infantino de ampliar a Copa para 64 seleções a partir de 2030 está em análise. Segundo o diário The Guardian, Fifa abriu licitação para empresas de pesquisa avaliarem os impactos econômicos da mudança, com prazo de entrega até 11 de setembro. A decisão terá que ser tomada ainda este ano.
O relatório solicita avaliação sobre receita de ingressos, patrocínios e direitos de mídia, além de impactos no calendário internacional e no bem-estar dos jogadores. A expansão reduziria a vida útil do formato de 48 equipes, estreado em 2026, após mais de duas décadas com 32 seleções (edições da França 1998 ao Catar 2022).
Relações perigosas
Com interesse direto no tema, Domínguez é um dos principais apoiadores da ideia de Infantino de ampliar o torneio. No entanto, caso tome precipitadamente uma posição favorável à proposta de venda de participação nos direitos comerciais do futebol mundial, irá necessariamente entrar em conflito com Uefa e Concacaf, hoje suas principais parceiras continentais.
Com a Concacaf como aliada, a entidade organizou, nos últimos anos, duas edições da Copa América nos Estados Unidos, explorando condições comerciais mais vantajosas. Em 2016, o país sediou a Copa América do Centenário, que celebrou os 100 anos da competição, a mais antiga disputa continental entre seleções. Há dois anos, realizou outra edição do torneio na terra do Tio Sam.
Uefa
Com a Uefa, houve aproximação mais recente. Entre 2020 e 2021 as duas entidades se aproximaram ao rejeitar conjuntamente outra iniciativa mirabolante da Fifa, de realizar da Copa do Mundo bienal.
A ação conjunta de Uefa e Conmebol, as confederações com maior prestígio no futebol mundial, barraram a iniciativa, que sobrecarregaria o calendário e poderia gerar saturação do mercado, enfraquecendo do produto.
Dessa união houve a criação de iniciativas conjuntas, sendo a principal delas a Finalíssima, duelo valendo taça disputado entre os campeões da Euro e da Copa América. As duas entidades chegaram até a inaugurar um escritório conjunto em Londres.
A Uefa já prometeu boicotar torneios futuros caso a Fifa avance com a venda de participação dos direitos comerciais do futebol. A decisão da entidade pode intensificar a oposição e colocar a Conmebol em posição delicada, dividida entre a busca por mais vagas e a manutenção de suas atuais alianças estratégicas.











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