A Copa do Mundo de 2026 levou a arbitragem a um novo patamar tecnológico.
A Fifa estreou câmeras corporais nos árbitros, ampliou o uso do impedimento semiautomático e manteve o discurso de que o VAR (árbitro de vídeo) deve intervir apenas em erros claros.
O torneio, porém, que está na etapa de mata-matas, coloca com outro debate em evidência: a falta de uniformidade nas decisões.
A comparação que mais repercutiu envolve Lionel Messi e Folarin Balogun. Na estreia da Argentina, Messi acertou a panturrilha de um jogador da Argélia com as travas da chuteira. O árbitro de campo, o polonês Szymon Marciniak, mandou o jogo seguir, e o VAR não recomendou revisão.
Dias depois, Balogun foi expulso por Raphael Claus na vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia. O brasileiro inicialmente aplicou cartão amarelo, mas mudou a decisão depois de rever no monitor o forte pisão no adversário.
“Um erro não justifica outro. O Messi deveria ter sido expulso e não foi, assim como o árbitro brasileiro Raphael Claus expulsou corretamente o jogador dos Estados Unidos”, afirmou o ex-árbitro Wallace Valente.
O técnico da África do Sul, Hugo Broos, reclamou da expulsão de Themba Zwan ao fazer comparação com o lance de Messi.
“O cartão vermelho é pesado demais. Não acho que era para tanto. Quando vejo o que houve ontem [16 de junho] com Messi, não concordo. Não teve nem VAR com o Messi”, reclamou em entrevista a jornalistas.
A discussão não ficou restrita aos cartões vermelhos. Vinicius Junior teve um gol anulado contra a Escócia depois que o VAR identificou falta na jogada, uma disputa dele com um zagueiro da seleção europeia.
Nas oitavas de final, a Bélgica empatou contra o Senegal em um lance de contato físico semelhante ao que havia anulado o gol de Vini e, na prorrogação, ainda recebeu um pênalti após revisão da cabine, em que o responsável era o brasileiro Rodolpho Toski. A decisão foi alvo de reclamações dos senegaleses.
Para Wallace, os dois episódios expõem um problema de interpretação.
“A meu ver, tanto o gol anulado do Vinicius Junior como o pênalti marcado para a Bélgica são lances de televisão e não de campo. Se formos procurar pequenos toques em um esporte de contato físico como é o futebol, vamos acabar fragilizando muito a disputa. Com a imagem em câmera lenta e parada, os árbitros dos dois lances foram levados ao exagero nas interpretações.”
O ex-árbitro assistente Luciano Benevides avalia que a tecnologia deixou de ser o centro da discussão. Para ele, o problema está na diferença de critérios entre árbitros e equipes de VAR.
“Temos a Copa da arbitragem tecnológica, da câmera acoplada no árbitro, do impedimento semiautomático, do uniforme ultramoderno. Mas, com tudo isso, ainda temos muita contradição de procedimentos e critérios entre decisão de campo e interferência da cabine do VAR.”
Segundo Benevides, a Fifa orientou a arbitragem a permitir mais tempo de bola em jogo, elevar o nível de tolerância para contatos físicos e reduzir interrupções. Na prática, diz ele, nem sempre isso aconteceu.
“O Messi atinge a panturrilha do defensor com as travas da chuteira, sem disputar a bola, e não houve cartão nem revisão. Em lance semelhante, Balogun foi corretamente expulso após o VAR chamar Raphael Claus.”
Na avaliação do ex-assistente, o gol anulado de Vinicius Junior e o pênalti marcado para os belgas seguem a mesma lógica: decisões diferentes para lances em que o contato físico foi determinante.
Nem por isso, afirma Benevides, o saldo da arbitragem é negativo.
“Em geral, temos uma Copa com grandes jogos e boas arbitragens. O destaque, para mim, é o brasileiro Wilton Pereira Sampaio. Ele já trabalhou em três partidas e, caso a seleção brasileira não chegue à decisão, se credencia como um dos principais candidatos para apitar a final da Copa.”
Wilton, que também foi escalado na Copa do Qatar, comandou a estreia entre México e África do Sul, vencida pelos mexicanos por 2 a 0, com direito a três cartões vermelhos. Depois, apitou a vitória da Noruega por 3 a 2 sobre Senegal. Na fase dos 32, esteve na classificação de Marrocos sobre a Holanda.
Ele está empatado com Carlos Eugênio Simon, que foi para três Copas (2002, 2006 e 2010) e escalado em sete oportunidades, como os árbitros brasileiros que mais atuaram na história do torneio.










Leave a Reply