Por Eduarda Liberal
Entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, o Brasil receberá pela primeira vez a Copa do Mundo Feminina da FIFA. Além de colocar o país no centro do futebol internacional durante um mês, a competição deve ter impacto direto sobre diferentes setores da economia brasileira. Um estudo elaborado pela FGV Projetos a pedido da Embratur estima uma movimentação de R$ 8,8 bilhões durante a preparação e a realização do torneio.
A projeção inclui os gastos de visitantes, as despesas ligadas à organização do evento e os efeitos indiretos dessa circulação de recursos. Segundo o levantamento, o Mundial pode acrescentar R$ 3,8 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB), criar 73,7 mil postos de trabalho diretos e indiretos e distribuir R$ 4,5 bilhões em rendimentos, entre salários e lucros. A arrecadação de impostos federais, estaduais e municipais é estimada em R$ 928 milhões.
Boa parte desse impacto deve vir de quem circulará pelo país durante a competição. A expectativa é de um fluxo de aproximadamente 2 milhões de pessoas, entre moradores e turistas nacionais e estrangeiros. Somente os gastos desse público podem movimentar R$ 4,7 bilhões em atividades econômicas diretas e indiretas, além de sustentar cerca de 45,7 mil postos de trabalho e gerar R$ 2,4 bilhões em renda.
Hotéis, bares, restaurantes, comércio, transporte e serviços estão entre os setores que tendem a receber os efeitos mais imediatos. O torneio será disputado em Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, distribuindo a movimentação econômica por diferentes regiões do país. Ao todo, serão 32 seleções e 64 partidas. O perfil dos visitantes internacionais ajuda a dimensionar esse potencial. Dados utilizados no estudo mostram que mulheres representam 48,61% dos turistas estrangeiros que chegam ao Brasil. A permanência média é de 11 dias e o gasto médio chega a US$ 1.317 por viagem. Compras, gastronomia, atividades culturais e destinos de Sol e praia aparecem entre os principais focos de consumo, o que amplia a possibilidade de o dinheiro movimentado pela Copa chegar também a pequenos e médios negócios.
Outro componente relevante são os gastos para colocar o torneio de pé. O orçamento global da competição é de US$ 800 milhões. Como parte desse valor será destinada às premiações internacionais, a estimativa da FGV considera uma injeção direta de aproximadamente R$ 2,3 bilhões no mercado brasileiro para despesas com logística, transmissão, segurança, saúde e outras operações. Somados os impactos diretos e indiretos desse eixo, a organização deve movimentar R$ 4,1 bilhões e sustentar cerca de 28 mil postos de trabalho no país.
A dimensão dos números chama atenção quando comparada a outros eventos esportivos realizados no Brasil. De acordo com a Embratur, os dez maiores eventos esportivos recorrentes realizados no país em 2025 movimentaram, juntos, R$ 4,56 bilhões. A projeção para a Copa Feminina representa quase o dobro desse valor concentrado em uma única competição.
Os efeitos econômicos, porém, não se limitam ao período entre junho e julho de 2027. A realização do Mundial também pode reforçar a posição do Brasil no mercado internacional de grandes eventos e estimular novos fluxos turísticos. Depois da Copa do Mundo masculina de 2014 e dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, o país voltará a receber uma competição esportiva de alcance global, desta vez com a oportunidade de associar a promoção turística ao crescimento do futebol feminino.
O governo federal também começou a estruturar o legado da competição. Em dezembro de 2025, foi criada uma secretaria extraordinária no Ministério do Esporte responsável pela articulação das ações relacionadas ao Mundial. Entre suas atribuições estão a integração entre União, estados e municípios e a coordenação de políticas voltadas ao legado esportivo, social e cultural da Copa. Em 2026, o Ministério passou a elaborar um Plano de Legado com participação de diferentes órgãos públicos.
Esse legado também passa pelo próprio mercado do futebol feminino. A competição acontece em um momento de expansão da modalidade e pode ampliar a presença de mulheres não apenas nas arquibancadas, mas em atividades ligadas à gestão, arbitragem, comunicação, turismo, produção de eventos e demais áreas da cadeia esportiva. A Lei Geral da Copa de 2027 incluiu entre seus princípios o estímulo à participação de meninas e mulheres no esporte e a consolidação de um legado social, esportivo e financeiro após o torneio.
Mais do que os bilhões projetados para circular durante o torneio, a Copa de 2027 coloca em disputa o legado que ficará depois dela. O impacto do Mundial também será medido pela capacidade de transformar visibilidade em investimento permanente no futebol feminino, ampliar oportunidades para meninas e mulheres e distribuir os ganhos do evento para além dos grandes estádios e patrocinadores. Se esse movimento chegar às periferias, aos projetos de base, às trabalhadoras e aos pequenos negócios das cidades-sede, a Copa poderá deixar uma marca que ultrapassa o resultado dentro de campo.










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