O jogo desta sexta (2) entre Argentina e Cabo Verde, e o de sábado (4), entre França e Paraguai, vão acontecer sob calor extremo, aponta um estudo da World Weather Attribution (WWA). Antes da Copa, o Fifpro, sindicato global de jogadores de futebol, recomendou à Fifa que fossem adiados ou suspensos os jogos cuja previsão indicasse “calor severo”, como o previsto para essas partidas. Em diversas áreas dos EUA e do Canadá, as temperaturas máximas ultrapassam os 38°C.
Os pesquisadores da WWA explicam que um fenômeno climático nessa intensidade só acontece uma vez a cada 200 anos. A onda de calor, que começou na quarta (1) e está projetada para terminar no domingo (5), foi provocada por um forte sistema de alta pressão, conhecido como domo de calor, que transporta ar quente e úmido do sul e mantém essa massa de ar sobre grande parte das regiões central e leste dos Estados Unidos, além do sul de Ontário e Quebec, no Canadá.
Embora esse seja um padrão meteorológico comum, as temperaturas registradas atualmente são significativamente mais altas devido ao aquecimento global, destaca o relatório, que listou que França e Paraguai, na Filadélfia, no sábado, e Cabo Verde e Argentina, em Miami, nesta sexta, deverão ter níveis de calor acima do considerado seguro para a prática do futebol profissional, quando a temperatura de bulbo úmido está em 28°C ou mais.
A temperatura de bulbo úmido combina umidade e temperatura para calcular o estresse térmico. Uma temperatura de bulbo úmido de 35°C equivale a 45°C com 50% de umidade, o que dá uma sensação térmica de 71°C. Antes da Copa, o Fifpro, sindicato global de jogadores de futebol, recomendou à Fifa que fossem adiados ou suspensos os jogos cuja previsão indicasse “calor severo”.
Jogos já aconteceram sob calor extremo nessa Copa
Os pesquisadores destacaram ainda que a partida entre Portugal e Croácia, realizada em Toronto, nesta quinta (2), também ocorreu sob condições de calor úmido intenso. Na primeira rodada da Copa, dois jogos extrapolaram esse limite seguro, de acordo com um levantamento do The Guardian: Uruguai 1 x 1 Arábia Saudita, em Miami (EUA), com 32,9ºC, e Suécia 5 x 1 Tunísia, em Monterrey (México), com 30,6ºC.
Um estudo da ONG Climate Central, especializada em questões climáticas, apontou, antes do torneio, que quase metade dos jogos da Copa tinha pelo menos 50% de chance de ocorrer sob condições capazes de comprometer o desempenho dos jogadores. Em um jogo sob temperaturas acima de 28°C, o número de sprints, as distâncias percorridas em campo e a capacidade de recuperação dos atletas, tendem a diminuir, destaca a análise.
Friederike Otto, professora de Ciência do Clima no Centro de Política Ambiental do Imperial College London, e colaboradora da WWA, disse que não deveria ser necessário um estudo científico para alertar as condições inseguras em partidas da Copa do Mundo nessas temperaturas.
— As mudanças climáticas já estão entre nós, já estão afetando as coisas de que gostamos em nosso cotidiano e continuarão a piorar quanto mais adiarmos a inevitável transição para emissões líquidas zero — explicou.
A World Weather Attribution é uma colaboração científica internacional que analisa e comunica a possível influência das mudanças climáticas sobre eventos climáticos extremos, como tempestades, chuvas extremas, ondas de calor e secas. A colaboração reúne pesquisadores do Imperial College London, do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, do Instituto Meteorológico Real dos Países Baixos (KNMI) e de instituições parceiras em todo o mundo.
Noruega ensaia protesto por treinos e jogos no calor extremo, mas recua
A dois dias do confronto com o Brasil, pelas oitavas de final da Copa, o calor tirou os noruegueses do sério. Enquanto os jogadores treinavam sob um sol de 34º em plena manhã, a federação norueguesa decidiu protestar contra a situação. Ao oficial da Fifa encarregado de organizar as entrevistas do dia, avisou que o treinador faria um pronunciamento à imprensa (um dia antes da coletiva de véspera de jogo, como previsto pela Fifa) e que dois atletas falariam vestidos com o colete térmico. Os escandinavos, contudo, acabaram esfriando a cabeça.
Os atletas escolhidos não comparecendo usando o equipamento e o técnico Stale Solbakken mediu suas palavras ao falar sobre o tema. Ele admitiu que é difícil para os jogadores treinar no calor. Mas ressaltou que a comissão técnica e o departamento médico estão preparados para ajudá-los.
— É difícil? Sim, é difícil. Mas acho que vamos sobreviver e que podemos conseguir — afirmou Solbakken, debaixo de uma tenda montada no campo para protegê-lo do sol:
— Você precisa planejar os treinos de acordo com o clima e garantir que nos hidratemos, comamos, descansemos e estejamos o mais preparados fisicamente possível. Além disso, temos seis ou cinco substituições que provavelmente usaremos se o calor persistir durante os 90 minutos, e mais uma se o jogo for para a prorrogação.
Sob sol de 34º em plena manhã, Noruega treina com sprinklers ligados para amenizar o calor
Antes, o médico da delegação, Ola Sand, havia sido mais enfático. Ele classicou a situação como algo que “beira a irresponsabilidade” e informou que a federação norieguesa manifestou preocupação à Fifa.
— Acho que beira a irresponsabilidade, mas a Fifa não tem outro limite. A recomendação veio de diversos cientistas e pesquisadores renomados do clima, que estudam os efeitos do calor nas pessoas, sem que eu tenha sido consultada — disse o médico:
— Enviamos mensagens, e sei que muitos outros também enviaram mensagens de preocupação à Fifa, e eles não fizeram nada — disse. — Acho que deveria ter havido um limite máximo, e que deveriam ter marcado os jogos para horários do dia em que não estivesse tão quente — acrescentou.
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Irrigação e coletes com gelo
Durante o período do treino aberto para a imprensa, foi possível ver como os jogadores estavam incomodados com o sol e a temperatura. Além do protetor solar, alguns atletas recorreram ao colete térmico (com gelo). Além disso, o sistema de irrigação do gramado ficou ligado enquanto os jogadores trabalhavam com bola. Sand criticou o fato de a Fifa não ter um limite mais rígido de temperatura para a realização dos treinos e jogos.
— Deveria haver um (limite). Por isso, temos que ficar de olho nos jogadores e nos comunicar com eles o tempo todo. O bom é que temos essas pausas para hidratação, onde podemos conversar e ajudá-los a se refrescar um pouco — acrescentou.