Fim dos ‘bons moços’: Bahia ganha raça de Libertadores e vaga passa por virada


O placar de 1 a 1 contra o Corinthians na Casa de Apostas Arena Fonte Nova pode até ter deixado um gosto amargo de que os três pontos escaparam. Mas o que se viu em campo diz muito mais sobre o futuro do Bahia do que qualquer resultado isolado. No domingo, 26, o torcedor tricolor testemunhou o encerramento de um ciclo incômodo: a apatia crônica deu lugar a uma versão prime de um time brigador, de atitude e com fome de vitória a qualquer custo. Faltou apenas o capricho técnico, e um pouco de sorte.

Nos últimos anos, o Bahia se notabilizou pelo jogo associativo, pelo refinamento técnico e pela posse de bola. Mas carregava uma ferida aberta: a passividade. Era uma equipe rotulada como “bons moços“, do fair play ao pé da letra, que se encolhia com facilidade diante de provocações, catimbas e intimidações dos adversários em jogos pesados.

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Contra o Corinthians, a chave virou de vez.

Tradicionalmente acostumado a apitar o jogo, ditar a temperatura e empurrar o antijogo, o clube paulista encontrou do outro lado um Bahia pronto para a guerra. Um Esquadrão dono absoluto da Fonte Nova, determinado a mostrar quem manda em Salvador.

O Bahia peitou, encarou, reclamou, provocou, xingou, respondeu à altura e não baixou a cabeça em nenhum segundo. Foi time de gritar na cara, empurrar, colar testa e ser chato. Tudo isso enfrentando, mais uma vez, uma arbitragem desastrosa e desastrada de Ramon Abatti Abel.

A ‘gringaiada’ e a virada de chave

Essa nova alma competitiva não surge por acaso. A presença em campo de Alejo Véliz, Román Gómez, Mingo e Acevedo injetou no elenco uma dose cavalar de catimba, gana e espírito sul-americano. Esse quarteto elevou o sarrafo mental e trouxe a casca que faltava. O Bahia deixou de ser um time previsível para se tornar um adversário indigesto, provocador e cascudo.

A essa raça, será necessário somar a evolução tática dos pilares. Everton Ribeiro ainda não voltou a viver o seu auge físico e tático com a camisa tricolor, manto com o qual tem desfilado maestria e regido o meio-campo desde a sua chegada. O time precisa dele para ter um ‘algo a mais’.

Por outro lado, o jogo escancarou um gargalo do setor:
Rodrigo Nestor precisou voltar forçadamente para o lado direito do campo após a lesão de Erick e a entrada de Jean Lucas no time titular. Ficou nítido que o camisa 11 tem um desempenho muito superior quando atua pela esquerda. Sem espaço pela direita, fizeram falta os seus arremates perigosos de média e longa distância.

Na lateral-esquerda,
Zé Guilherme tem sido uma das gratas surpresas desse pós-Copa do Mundo: um atleta técnico, mas acima de tudo lutador, que não deixa um milímetro de grama sem suar. Para completar, o retorno de Luciano Juba devolve ao time uma capacidade de passe e amplitude que vai elevar ainda mais o nível técnico do setor. Valeu, Zé, mas as vaga é do Jubinha.

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O 9 que faltava, garotos em alta e o horizonte promissor

Mesmo no gol sofrido, que nasceu em uma falha do goleiro Ronaldo — abrindo espaço de vez para a cobrança pela titularidade do argentino Guido Herrera —, o time não se abateu. E se a vitória não veio no placar, a sensação de alívio veio no setor ofensivo. Alejo Véliz não estreou com gol nas estatísticas oficiais, mas a atuação deixou claro que a busca pelo centroavante acabou.

Nos dois gols anulados, o argentino mostrou apetite, leitura de espaço, faro de gol e uma presença física que incomoda os zagueiros do primeiro ao último minuto. Willian José também teve um tento anulado, provando que as opções de área começam a dar respostas reais.

Ainda no ataque, foi ótimo ver Rogério Ceni voltar a usar Kauê Furquim, que entrou no lugar de Ademir. O camisa 7, inclusive, lembrou um pouco mais aquele “Fumacinha” que vimos em seu primeiro ano de Tricolor — um sinal claro de que a sombra e a energia de Furquim têm incomodado e estimulado o medalhão.

A margem de evolução para essa equipe ainda é gigantesca. O grupo ganha contornos ainda mais competitivos com as futuras integrações de Guido Herrera no gol e do zagueiro espanhol Marco Moreno, encorpando o setor defensivo.

Faltaram os três pontos diante do Corinthians, é verdade. Mas sobrou o que a torcida mais exigia: garra, sangue nos olhos e fibra moral. Se o Bahia conseguir conciliar essa nova faceta guerreira com a qualidade técnica que já possui, a torcida pode, sim, esperar um time brigando na prateleira de cima e lutando até o fim por uma vaga na Copa Libertadores.

O “time de bons moços” ficou para trás; o Bahia agora sabe guerrear.





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