Durante anos, parte do mercado cripto trabalhou com uma lógica que parecia simples: para buscar um retorno acima do Bitcoin, bastava aumentar a exposição a ativos como o Ethereum. O último ciclo, porém, colocou essa premissa em xeque.
A avaliação é de Rafael Castaneda, cofundador e COO (diretor de operações) da Oxus Finance, durante participação no Blockchain.RIO 2026. Para o executivo, estratégias que funcionaram em 2021 foram carregadas para os ciclos seguintes como se continuassem válidas.
“Premissas que a gente tinha como realidade, que importamos de 2021 para 2025, foram se desmontando como um castelo de cartas”, afirmou.
Segundo Castaneda, essa mudança exige que traders revejam não apenas quais ativos compram, mas também o motivo por trás de cada operação.
Ethereum x Bitcoin: uma premissa que deixou de funcionar
Castaneda usou a relação entre Ethereum e Bitcoin para exemplificar como determinadas certezas do mercado perderam força.
No ciclo de 2021, segundo ele, o Ethereum chegou a entregar retorno acima do Bitcoin. Assim, para investidores dispostos a assumir mais risco, aumentar a exposição ao ETH passou a funcionar como uma das estratégias para tentar superar o desempenho do BTC.
“Uma das maneiras mais fáceis que você tinha no último ciclo de ganhar uma alta em cima do Bitcoin e tomar um pouco mais de risco era comprar ETH na carteira”, disse.
No ciclo seguinte, entretanto, essa relação deixou de funcionar da mesma maneira.
“Esse ciclo, ETH é uma exposição na sua carteira que te dá mais risco do que o Bitcoin e, em determinado momento da jornada, não entregou mais que o Bitcoin”, afirmou.
Para Castaneda, o episódio mostra como uma estratégia pode deixar de funcionar justamente porque investidores continuam aplicando uma lógica construída em outro momento de mercado.
O problema de repetir a estratégia do ciclo anterior
A mudança não se limita ao Ethereum.
Na avaliação do executivo, cada virada de ciclo coloca à prova premissas que investidores haviam transformado em regras. Quando essas relações mudam, a própria função do trading precisa ser reconsiderada.
“Isso realmente muda, para a pessoa que é do trading, a lógica de por que eu faço trading e de como o trading entrega um resultado melhor do que simplesmente não fazer trading”, afirmou.
A comparação, segundo Castaneda, precisa considerar o custo de oportunidade. Um investidor pode simplesmente comprar Bitcoin ou optar por outras classes de ativos, como ouro, ações, títulos dos EUA ou renda fixa.
Portanto, assumir mais risco e realizar mais operações só faz sentido se a estratégia conseguir justificar essa escolha.
Quanto mais óbvia a aposta, menor pode ser o retorno?
Outro ponto levantado por Castaneda envolve o comportamento coletivo dos investidores.
O executivo relatou um estudo realizado por sua equipe em 2025 que comparou o desempenho de ativos como Bitcoin, Ethereum, BNB e XRP.
Durante uma apresentação, grande parte do público afirmou possuir Ethereum. Outros ativos, apesar de terem apresentado desempenho superior ao ETH em determinados períodos analisados pela equipe, apareciam com menos frequência nas carteiras.
Para Castaneda, o episódio ajuda a ilustrar um comportamento recorrente no mercado.
“Olha a nossa capacidade, como tendência coletiva do mercado: quanto mais pessoas concordam com aquela decisão, pior pode ser a decisão”, afirmou.
Na sequência, ele resumiu a provocação:
“Quanto mais óbvio é aquilo que você está fazendo, parece que é a coisa que menos paga.”
A leitura apresentada pelo executivo não significa que uma estratégia popular necessariamente terá desempenho inferior. O ponto levantado está na mudança das relações entre risco, consenso e preço ao longo dos ciclos.
Castaneda também chamou atenção para uma divisão cultural entre investidores que começaram no sistema financeiro tradicional e aqueles que tiveram o primeiro contato com investimentos por meio das criptomoedas.
Segundo ele, parte de quem entrou diretamente no universo cripto cresceu com a percepção de que profissionais do mercado tradicional representavam um modelo ultrapassado.
“A gente é criado em cripto com uma cultura de que o mundo financeiro tradicional é um monte de velhinho, de dinossauro, que não sabe o que está fazendo”, afirmou.
A provocação, contudo, veio acompanhada de uma ressalva.
“Só que esses dinossauros mexem com gestão de risco. Esses dinossauros estudam teoria de eficiência de mercado. Esses dinossauros sabem fazer balanceamento de portfólio”, disse.
Castaneda citou ainda conhecimentos relacionados à curva de juros, inflação e política monetária como exemplos de conceitos presentes no mercado financeiro tradicional que nem sempre fazem parte da formação de quem começa a investir diretamente por criptomoedas.
“Então, a gente investia sem esse conhecimento”, afirmou.
Gestão de risco entra no centro da estratégia cripto
Para Castaneda, uma das referências que ajudam a interpretar a mudança dos ciclos está na teoria de eficiência de mercado.
Segundo a explicação apresentada pelo executivo, quanto mais um mercado é negociado, mais seus participantes acumulam informações. Esse aprendizado, por sua vez, altera o comportamento dos investidores nos ciclos seguintes.
“Quanto mais um mercado negocia, mais as pessoas que negociam nesse mercado aprendem sobre o mercado. E o aprendizado que elas têm durante o passado começa a mudar o comportamento delas no futuro”, afirmou.
É nesse ponto que ele volta ao exemplo do Ethereum.
“A partir do momento em que todo mundo escreve em pedra que o Ethereum vai pagar mais do que o Bitcoin, é a partir daí que o Ethereum não paga mais do que o Bitcoin”, disse.
A frase resume a tese apresentada pelo executivo: mercados mudam porque seus participantes também mudam.
Uma estratégia conhecida deixa de ser novidade. Uma relação observada no ciclo anterior passa a fazer parte das expectativas. E decisões tomadas com base em padrões passados passam a enfrentar um ambiente diferente daquele em que foram construídas.
O que muda para quem faz trading em cripto?
A análise de Castaneda coloca uma questão para investidores que tentam superar o desempenho do Bitcoin: assumir mais risco ainda está sendo recompensado?
Se a resposta depende apenas do que funcionou no ciclo anterior, a estratégia pode carregar premissas que já perderam validade.
Por isso, a discussão sobre mercado cripto passa menos por escolher automaticamente o ativo que apresentou maior retorno no passado e mais por entender risco, preço, comportamento coletivo e alternativas disponíveis para o capital.
A provocação de Castaneda também aproxima dois universos que durante anos foram tratados como opostos. De um lado, a velocidade e a experimentação do mercado de criptomoedas. Do outro, ferramentas de gestão de risco desenvolvidas pelas finanças tradicionais.
Para o executivo, ignorar esse conhecimento pode custar caro justamente quando o mercado muda e aquilo que parecia uma regra deixa de funcionar.











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