As stablecoins podem abrir caminho para uma maior internacionalização do real e, ao mesmo tempo, estimular o surgimento de novos produtos, serviços e modelos de negócios financeiros. A avaliação foi discutida durante o painel “Stablecoins: Ativos Virtuais ou Nova Categoria Financeira?”, no Blockchain.RIO 2026.
Amanda Blum, General Counsel e Head of Strategy da Crown, defendeu que a tecnologia pode reduzir algumas das barreiras existentes para estrangeiros que precisam utilizar a moeda brasileira.
Já João Paulo Borges, coordenador-geral de Regulação do Sistema Financeiro do Ministério da Fazenda, destacou outro ponto: o potencial das stablecoins para ajudar a criar um mercado ainda em formação.
Na visão apresentada pelo representante da Fazenda, o desenvolvimento dessa tecnologia precisa ser acompanhado também sob as óticas regulatória e concorrencial.
Stablecoins podem ampliar alcance do real
Amanda usou como exemplo a experiência de estrangeiros no Brasil para explicar um possível caso de uso das stablecoins.
Segundo ela, o Pix é reconhecido internacionalmente como uma solução de pagamento eficiente. Entretanto, o acesso de um não residente ao sistema financeiro brasileiro ainda pode envolver abertura de conta e outras exigências.
Nesse cenário, uma solução baseada em stablecoins poderia oferecer caminhos diferentes para realizar pagamentos e utilizar recursos vinculados ao real.
“Seria superinteressante ele ter acesso ao Pix, mas hoje em dia, por exemplo, para essa pessoa ter acesso ao Pix, ele precisa criar uma conta de não residente, ele precisa ter uma conta bancária”, afirmou.
Amanda ressaltou, porém, que Pix e stablecoins possuem características diferentes e não devem ser tratados como tecnologias equivalentes.
Para ela, o mercado ainda está descobrindo quais serão os principais casos de uso dos ativos digitais vinculados a moedas tradicionais.
“A gente, na minha visão, está só começando a aprender, a estudar e a enxergar”, disse.
Real pode ganhar alcance internacional
Um dos potenciais destacados pela executiva está justamente na possibilidade de ampliar a utilização do real fora das estruturas financeiras tradicionais.
Segundo Amanda, a tecnologia pode permitir novas formas de exposição à moeda brasileira sem necessariamente eliminar preocupações relacionadas à regulação, controle de capitais ou estabilidade monetária.
“Sem perder as preocupações do regulador e sem perder tudo o que a gente precisa controlar, a gente ainda conseguiria lidar com isso”, afirmou.
Na avaliação da executiva, o avanço das stablecoins pode criar produtos que conciliem novas possibilidades tecnológicas com questões macroeconômicas.
“A tecnologia permite a internacionalização do real e casar um produto novo com as preocupações macroeconômicas que a gente tem”, disse.
Essa possibilidade ganha relevância justamente porque o real ainda possui limitações de conversibilidade e utilização internacional.
Ministério da Fazenda olha para concorrência
João Paulo Borges destacou durante o painel que a concorrência ocupa posição central nas discussões conduzidas pelo Ministério da Fazenda.
Segundo o coordenador-geral, iniciativas relacionadas à transformação do sistema financeiro também são avaliadas considerando seus impactos regulatórios e concorrenciais.
Nesse contexto, Borges utilizou o desenvolvimento do Pix e do mercado de cartões como referências para discutir o estágio atual das stablecoins.
A avaliação apresentada no painel é que o Pix não criou somente uma nova forma de realizar pagamentos. O sistema também contribuiu para desenvolver um mercado, ampliar a bancarização e estimular a inclusão financeira.
Para o representante do Ministério da Fazenda, as stablecoins podem seguir uma trajetória de criação de mercado, embora ainda seja cedo para determinar todos os seus efeitos.
Stablecoins podem criar novos produtos e demandas
A expectativa apresentada por Borges é que o crescimento das stablecoins possa abrir espaço para novos negócios, produtos e demandas dentro do sistema financeiro.
Entretanto, esse desenvolvimento ocorre em um mercado ainda emergente.
Por isso, uma das preocupações do Ministério da Fazenda é acompanhar a evolução desse ecossistema à medida que novos usos aparecem.
A comparação com o Pix ajuda a ilustrar essa incerteza. Quando o sistema de pagamentos instantâneos começou a ganhar escala, novas aplicações surgiram conforme empresas e consumidores passaram a incorporar a ferramenta em suas rotinas.
No caso das stablecoins, o mercado ainda está em processo semelhante de experimentação.
Pix e stablecoins ocupam papéis diferentes
Apesar das comparações durante o painel, Amanda reforçou que as duas tecnologias não cumprem necessariamente a mesma função.
O Pix criou uma infraestrutura de pagamentos instantâneos dentro do sistema financeiro brasileiro. As stablecoins, por outro lado, podem circular em redes baseadas em blockchain e permitir outros tipos de aplicações.
“De fato, é muito diferente”, afirmou Amanda ao discutir os dois modelos.
Para a executiva, uma das diferenças está justamente na versatilidade dos ativos programáveis e na possibilidade de combinar diferentes funcionalidades financeiras dentro de uma mesma estrutura.
Esse ambiente ainda está em estágio inicial. Porém, tanto a avaliação da Crown quanto a visão apresentada pelo Ministério da Fazenda apontam para um cenário em que as stablecoins podem deixar de ser apenas instrumentos associados ao mercado de criptoativos e passar a ocupar espaço maior na infraestrutura financeira.
A questão agora é até onde esse mercado pode avançar, e como a regulação acompanhará uma tecnologia capaz de ampliar o alcance do real e criar novas formas de movimentar dinheiro.











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