Enquanto países europeus estão passando por uma temporada histórica de calor extremo e de incêndios florestais de grandes proporções, do outro lado do Mar Mediterrâneo o cenário é tão devastador quanto. Desde o início de julho, mais de 1.600 focos de incêndio foram registrados na Argélia, no Norte da África, onde a combinação de seca e temperaturas de até 49°C alimentou as chamas, deixando ao menos seis mortos e avançando sobre áreas do Marrocos e da Tunísia. Em paralelo, a formação de um “super El Niño”, que pode ser um dos mais fortes já vistos, adiciona mais uma camada de preocupação para os próximos meses de um continente que, embora responda por apenas cerca de 3% a 4% das emissões globais de CO2, é o mais vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas em todo o planeta.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a região tem enfrentado ondas de calor mais frequentes, secas prolongadas, chuvas e enchentes com intensidade crescente nos últimos anos.
O período de 2015 a 2024, de acordo com o órgão, foi o mais quente registrado na História do continente, que aquece a um ritmo médio de cerca de 0,3°C por década. À frente deste ranking regional está justamente o norte, com uma média de 1,28°C por década.
Nas demais regiões, embora o ritmo seja diferente, os efeitos da crise climática se manifestam de formas distintas.
O Sahel, faixa semiárida que atravessa países como Níger, Mali, Burkina Faso e Chade, está entre as mais vulneráveis. A combinação das precipitações irregulares e das secas prolongadas pressiona a agricultura local e, quando a chuva finalmente chega, costuma vir em forma de grandes enchentes, afetando milhares de pessoas.
Outra região muito impactada é o Chifre da África — que engloba Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti —, onde secas consecutivas frequentemente comprometem a produção de alimentos, agravando a fome de uma população já fragilizada.
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De acordo com um relatório da OMM em 2024, naquele ano o continente registrou o maior número de deslocamentos provocados por eventos climáticos em uma década: mais de 2,5 milhões de pessoas tiveram de abandonar suas residências por causa de inundações, secas e tempestades, muitas delas em países já fragilizados por conflitos.
Na avaliação de pesquisadores, os extremos climáticos registrados atualmente são apenas um prelúdio do que o continente africano poderá enfrentar nas próximas décadas.
— Em um cenário de altas emissões, nossas pesquisas sugerem que, até o final do século, muitas regiões do continente poderão experimentar condições de onda de calor durante aproximadamente 250 a 300 dias por ano — afirma ao GLOBO Oluwafemi Adeyeri, especialista em hidroclima e saúde do Centro de Excelência ARC para o Clima do século XXI, da Universidade Nacional da Austrália.
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Diante disso, as projeções para o El Niño, que já se formou no Oceano Pacífico e deve se intensificar nos próximos meses, tornam o quadro ainda mais preocupante, podendo agravar as secas e ampliar a ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões africanas. No início do mês, o Banco Africano de Desenvolvimento alertou que seus impactos podem provocar perdas econômicas de até US$ 20 bilhões (R$ 101 bilhões) no continente, afetando a agricultura, o abastecimento de água e, sobretudo, a segurança alimentar.
Os alertas preocupam porque a África já concentra algumas das maiores crises alimentares do mundo. Segundo o relatório deste ano do Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo, da ONU, a fome afeta 309 milhões de pessoas no continente, e mais da metade da população (56,6%) vive em situação de insegurança alimentar moderada ou severa.
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O avanço das ondas de calor também são um problema crescente de saúde pública, lembra o professor, alertando sobre o risco de mortes e a sobrecarga nos sistemas de saúde. Segundo dados da OMM, o ano de 2024 foi o mais quente já registrado na África (e no mundo), com temperatura média cerca de 0,86°C acima das registradas entre 1991 e 2020.
— O calor extremo continua sendo seriamente subestimado como desastre na África. Enchentes e ciclones deixam destruição visível e populações deslocadas — explica ao GLOBO. — Já o calor é menos dramático visualmente, mas pode aumentar a mortalidade, agravar doenças cardiovasculares e respiratórias, reduzir a produtividade do trabalho, interromper a educação, prejudicar plantações e rebanhos e elevar a demanda por eletricidade e serviços de saúde.
Apesar dos impactos crescentes, países africanos vêm ampliando estratégias locais de adaptação.
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Em Burkina Faso, por exemplo, foi implantado um sistema de alerta para ondas de calor acompanhado de campanhas de saúde pública e distribuição de água. Em Gana e na África do Sul, programas de pintura de telhados com revestimentos refletivos buscam reduzir o calor dentro das casas, enquanto cidades como Acra, Freetown, Joanesburgo e Nairóbi têm investido na ampliação de áreas verdes para amenizar as altas temperaturas.
Há ainda iniciativas de desenvolvimento de variedades agrícolas mais resistentes à seca e até programas de melhoramento de galinhas nativas mais tolerantes ao calor, como na Nigéria, para reduzir as perdas na produção de alimentos.
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Mas Adeyeri alerta que essas ações não devem ser romantizadas, já que há limites para o que as comunidades conseguem fazer sozinhas. Segundo ele, muitas iniciativas bem-sucedidas também não conseguem se consolidar porque dependem de recursos temporários, que normalmente desaparecem após a fase piloto.
O maior desafio nisso tudo, destaca o professor, é o financiamento internacional, uma das principais demandas dos países africanos nas últimas COPs. Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, o continente precisa de até US$ 127 bilhões (R$ 646 bilhões) por ano até 2030 para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Atualmente, os países africanos recebem apenas cerca de 3% do financiamento climático global, diz a instituição.
— É também uma questão de justiça climática. (…) Os países que menos contribuíram para o problema climático não deveriam ser levados a aumentar seu endividamento para proteger suas populações de consequências que não causaram — destaca. — Países mais ricos, responsáveis historicamente pelas maiores emissões, devem fornecer um volume muito maior de financiamento para adaptação.










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