Dos trabalhadores em províncias remotas a quem as empresas tiveram de enviar mantimentos, aos clientes com números portugueses ligados a operadores de Portugal que ficaram também sem sinal, a Lusa recolheu vários relatos de dificuldades no dia em que a operadora anunciou ter reposto parcialmente os serviços em 15 províncias, prevendo abranger as restantes seis ainda hoje.
Apesar da reposição gradual, a maioria dos clientes continuava esta manhã sem conseguir fazer chamadas de telemóvel, ainda que já com acesso a dados móveis.
O impacto faz-se sentir também nas operações bancárias, dependentes do envio de mensagens SMS — precisamente o serviço que a Unitel ainda não repôs.
Uma utilizadora relatou ter ficado impedida de pagar impostos, por fazer os pagamentos através de uma aplicação bancária que exige a receção de um SMS para validar transferências.
Outra, na mesma situação, teve de se deslocar a uma dependência bancária para tentar resolver o problema.
Dificuldade idêntica enfrenta a gestora de uma empresa, que está sem conseguir pagar os salários dos trabalhadores por não receber os “tokens”, ou seja, os códigos de segurança temporários enviados pelo banco para autorizar as operações.
As compras em supermercados e os pagamentos em cafés e restaurantes ficaram igualmente condicionados, uma vez que os cartões SIM dos terminais de pagamento automático (TPA) estão associados à Unitel.
Algumas cadeias de hipermercados estão já a substituir os SIM dos terminais para que os clientes possam voltar a pagar com cartão, enquanto outras lojas disponibilizam IBAN para os pagamentos.
Nas províncias, a falha agrava os problemas logísticos.
“O nosso problema são os funcionários que estão nas províncias. Já tivemos de mandar um carro com mantimentos, porque não estão a conseguir comprar nada”, relatou à Lusa o responsável de uma empresa que opera no Zaire e no Uíge.
Há ainda quem reporte absentismo laboral, com funcionários a faltar ao trabalho invocando justificações como ida ao médico ou óbito de familiar, rematadas com a impossibilidade de avisar a chefia “porque os telefones não funcionam”, ironizou um responsável.
À paralisação juntam-se as dificuldades de faturação sentidas por muitas empresas.
Os testemunhos recolhidos pela Lusa dão também conta de que os cibercafés dispersos por Luanda não estão a funcionar com normalidade, enquanto as lojas das concorrentes da Unitel, a Africell e a Movicel, registam grande afluência de clientes à procura de alternativas.
A Lusa contactou a Associação Angolana de Internet, a Empresa Interbancária de Serviços (EMIS), que gere a rede Multicaixa e o Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social (MINTTICS) para obter reações, sem respostas até ao momento.
O ataque foi identificado às 02h20 de terça-feira e afetou os serviços móveis de voz, dados e Internet em todo o território nacional. Em comunicado ao mercado divulgado hoje, a Unitel admitiu que o incidente pode ter sido “um ataque deliberado e dirigido”, com o intuito de perturbar a entrada em bolsa, que ocorreu na quarta-feira.
A operadora estreou-se na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) na sequência da privatização de 15% do capital pelo Estado, e disparou 24,88% no primeiro dia de negociação, apesar da falha na rede.
A Unitel, que segundo o seu Relatório e Contas de 2025 conta com mais de 20,8 milhões de clientes, detém uma quota de mercado de 76%, sendo a maior operadora de telecomunicações de Angola.
O peso da empresa no mercado tem levantado, ao longo da crise, o alerta de clientes e especialistas para a excessiva dependência de um único operador.
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