Conheça o que é o UPI, o “pix indiano”, que não é alvo de sanções de Trump


O UPI (Unified Payments Interface) foi lançado na Índia no ano de 2016 pela NPCI (National Payments Corporation of India), empresa estatal que opera sistemas de pagamentos e liquidação para o varejo na Índia.

O lançamento aconteceu quatro anos antes do Pix chegar ao mercado brasileiro. Diferente do sistema brasileiro de pagamentos, o “pix indiano” não é alvo dos Estados Unidos.

Nos últimos 10 anos, o UPI revolucionou o sistema de pagamentos na Índia. Vendedores de chá, motoristas de tuk-tuk e comerciantes de diversas outras áreas recebem pagamentos eletrônicos hoje em dia.

A pandemia de Covid-19 impulsionou ainda mais a adoção de transações digitais, à medida que as pessoas tentavam se proteger do vírus evitando contato físico.

Ao longo de mais de uma década de operação, o volume de transações do UPI expandiu de apenas 20 milhões de transferências no ano fiscal de 2016 a 2017 para mais de 241,62 bilhões de transações no ano fiscal de 2025 a 2026, segundo dados do governo indiano.

Países como Emirados Árabes Unidos, Singapura, França e Catar já aceitam o UPI como forma de pagamento digital.

Em Paris, até mesmo o site da Torre Eiffel começou a aceitar pagamentos via UPI. Nos Emirados Árabes Unidos, o sistema é aceito em lojas de varejo e restaurantes, entre outros estabelecimentos.

O FMI (Fundo Monetário Internacional) reconheceu o UPI como o maior sistema de pagamentos em tempo real do mundo em volume de transações, por conta da escala, da confiabilidade e da interoperabilidade alcançados.

A revolução dos pagamentos eletrônicos na Índia deve desempenhar um papel importante nas tentativas do país de se tornar uma superpotência econômica. O primeiro-ministro, Narendra Modi, afirmou que deseja que a Índia seja considerada um país desenvolvido até 2047.

Por que o Pix é alvo dos Estados Unidos e o UPI não?

O professor de Economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Robson Gonçalves, explica que uma das principais diferenças entre o UPI e o Pix é que o sistema brasileiro é uma infraestrutura fechada de TI, que é operada diretamente pelo Banco Central do Brasil com interface com as instituições financeiras. Enquanto isso, o UPI é uma infraestrutura aberta que é compatível com diferentes aplicativos.

“Isso significa que as big techs americanas não estão excluídas do ecossistema que é constituído em torno desse Sistema Nacional de Pagamentos na Índia, diferentemente do que é no Brasil, em que as instituições financeiras é que precisam estar conectadas”, disse ele.

O Pix é citado pelos Estados Unidos como um dos motivos para a taxação de 25% sobre importações brasileiras, devido às investigações no âmbito da Seção 301 da Lei do Comércio de 1974.

O relatório da USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos) diz que o meio de pagamento é considerado “injusto e discriminatório” contra empresas americanas, por ser operado pela mesma organização que o regula, o Banco Central. O documento cita um conflito de interesses.

Robson Gonçalves explica que o UPI está mais aberto para a participação das big techs e, por conta disso, não é alvo dos Estados Unidos. “A grande diferença é um ecossistema centralizado, no caso do Brasil e um ecossistema muito mais aberto para a participação das big techs, no caso do UPI indiano”, afirmou ele.

O professor diz ainda que o governo americano questiona o Pix pelo fato de o Banco Central ser, ao mesmo tempo, regulador e operador. Dessa forma, o Pix operaria segundo uma lógica “anticompetitiva” na perspectiva americana.

“O fato é que o Pix ganhou espaço às custas de outros produtos financeiros e outros meios de pagamento, que são oferecidos pelas big techs norte-americanas, e elas participam do UPI por conta de ser um ecossistema com infraestrutura aberta. Portanto, no caso indiano, o operador é uma instituição independente, que não o Banco Central”, disse Gonçalves.

Um exemplo de meio de pagamento oferecido pelas big techs é o WhatsApp Pay, controlado pela Meta. A gigante de tecnologia também é dona do Instagram e do Facebook.

O sistema brasileiro também reduz a dependência em relação a cartões de crédito e até mesmo cartões de débito oferecidos por instituições não bancárias. Um dos campos em que as big techs norte-americanas avançam é justamente as instituições de pagamento não bancárias, como explica o professor.

“O Pix é tão prático, tão ágil, que ele acaba ocupando esse espaço e, portanto, reduzindo o tamanho do mercado disponível para as big techs norte-americanas, coisa que não acontece na Índia”, afirma.

O analista de internacional da CNN Brasil, Lourival Sant’Anna, diz que a solução para o problema dos Estados Unidos com o Brasil em relação ao Pix seria transferir formalmente a gestão da plataforma.

“A solução era simples: transferir formalmente a gestão do Pix para o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados). Mas o governo brasileiro preferiu transformar isso num cavalo de batalha, porque dá dividendos político-eleitorais, atribuindo à oposição uma suposta intenção de ceder nisso aos EUA”, disse ele.



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