Negociações na Guerra EUA-Irão: dinâmicas, opções e (possíveis) resultados


Começamos a ter dúvidas sobre a possibilidade de se chegar a um entendimento, mínimo, entre o Irão e os Estados Unidos (EUA), tendo em consideração a forma como os diversos processos negociais tem decorrido. Narrativa agressiva de Donald Trump, oscilatória entre agressão e cooperação, contra a narrativa calma e negacionista, sempre detalhada e assertiva, do Irão, indiciam questões difíceis de ultrapassar, para se chegar a um entendimento. Há, também, uma ideia, quanto a nós errada, de que os EUA estão a improvisar, sem um plano.

As dinâmicas que estamos a testemunhar são o resultado dum ‘choque’ entre a abordagem de Trump às negociações empresariais, que promove um estado de instabilidade como base para avançar um acordo até à sua assinatura e, depois, uma implementação estável; e a abordagem do regime iraniano, que é prolongar as negociações até que o acordo esteja o mais conforme possível à sua visão ideológica e estratégica e, depois, corroer a sua implementação, tanto quanto possível de acordo com essa visão.

Donald Trump tem uma abordagem muito clara relativamente aos negócios e à negociação. Foi detalhada nos seus livros e não mudou a sua abordagem às questões estratégicas, durante a sua presidência. Esta abordagem difere da conceção realista das relações internacionais e, por isso, gera antagonismo entre os especialistas. No entanto, atualmente, molda o discurso internacional e, é provável, que com o tempo, mude a forma como os Estados gerem questões regionais e globais. Em termos genéricos consiste em oferecer soluções minimalistas e maximalistas, com ameaça de uso da força e posturas mais amistosas, forçando uma decisão, dentro das opções oferecidas.

O Irão é governado por um regime radical, que está envolvido numa luta determinada para preservar a sua estabilidade interna e que avança, de forma agressiva e intransigente, os seus objetivos ideológicos e estratégicos. Isto aplica-se ao nível mais pessoal (o Líder Supremo pode tornar-se um mártir, e surgirá um novo líder que continuará a promover a mesma doutrina) e a nível nacional (as infraestruturas nacionais podem ser sacrificadas, independentemente das consequências para a sua população, desde que não sejam críticas para alcançar os objetivos).

Além disso, nenhum método de ação é considerado ilegítimo. O fim justifica os meios. Isto significa que todas as táticas são aceitáveis: desenvolvimento de armas nucleares, uso do terrorismo, uso de mísseis para fins terroristas, repressão violenta e assassina da população iraniana e de outras populações, engano e fraude nas negociações, operações de influência e narrativas falsas direcionadas ao público, particularmente ao público interno, mas também à comunidade internacional.

Em última análise, o Irão só chegará a um acordo digno desse nome, quando estiver encostado à parede. Mesmo assim, serão inseridas cláusulas que lhe permitirão avançar nos seus objetivos, no dia seguinte à assinatura do acordo. Entre outras coisas, o Irão recusa-se categoricamente a discutir questões que não estejam no centro das exigências dos EUA e obriga-o a prescindir delas, para avançar a negociação. Aqui incluem-se as questões de mísseis e a subversão regional (através dos proxies), o acordo nuclear, no atual (ou num futuro) memorando de entendimento.

Existe uma assimetria fundamental entre estas duas abordagens. Trump terá de decidir se retoma a guerra até que seja imposto um acordo, se retoma a guerra até o Irão perder as suas capacidades, se continua a exercer pressão, sem guerra, até que se alcance um acordo razoável, ou se deixa o regime iraniano no seu estado atual até ao seu eventual colapso. Trump e a sua equipa precisam de afinar os seus objetivos negociais e conseguir um entendimento em consonância. Um acordo minimalista (só estreito de Ormuz) não irá resolver a questão de segurança no Medio Oriente.

Tenente-general (R)



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