A política para o setor ferroviário tem sido desastrosa”. Portugal anda “completamente ao contrário da Europa


ENTREVISTA || O comboio não chega a grande parte do território e muitos dos sítios onde chega, chega mal. O especialista Carlos Gaivoto problematiza a questão e explica à CNN Portugal o que está em causa

Europa e Portugal vão a andar de comboio e já passaram um pelo outro, mas já não se veem. Vão a velocidades diferentes e, sobretudo, em direções diferentes.

É com este entendimento que o membro do Conselho Superior para as Obras Públicas, Carlos Gaivoto vê a atual situação na ferrovia portuguesa, que não só está distante do que se vai fazendo em Espanha, França ou Alemanha, como está mais distante.

Confrontado com os constantes atrasos em comboios da CP – Comboios de Portugal que fazem a ligação entre Lisboa e Porto, aquele que é também um dos maiores especialistas do país na área dos transportes lamenta a ausência de um plano para dar à tecnologia existente as condições para que opere na sua plenitude.

“Nós não modernizámos e não estamos a modernizar convenientemente a Linha do Norte. Não só a Linha do Norte, mas toda a linha ferroviária”, aponta, lembrando que Portugal fala, por esta altura, numa ligação de alta velocidade, mas que isso depende de mais coisas do que apenas as máquinas e as carruagens.

“Muita gente diz que o comboio tem de ter alta velocidade e diminuir tempos… De facto, ele tem esses atributos, mas é preciso dar condições de exploração e o planeamento da exploração ser convenientemente acertado em função das novas tecnologias”, acrescenta.

O mesmo é dizer que o Alfa Pendular até pode andar a 220 quilómetros por hora, que é a sua velocidade máxima, mas precisa de uma linha em condições para isso. E quem diz a linha não fala apenas nos carris, mas também em toda a envolvência, incluindo a sinalização.

Carlos Gaivoto lamenta a junção de más condições e de uma má exploração, uma combinação negativa que leva a este tipo de situações. É que o Alfa Pendular nem sequer consegue atingir o seu máximo em grande parte da linha – Carlos Gaivoto lembra que há troços em que vai apenas a 20 quilómetros por hora por questões de obras ou de sinalização -, já que não há condições para isso, mesmo que que o comboio tenha sido introduzido no sistema português em 1999.

“Quando estamos a explorar uma linha, todos esses ajustamentos têm de ser feitos para cada um dos serviços se houver um atraso num dos serviços. Imaginemos a complicação que é tentar resolver a passagem de um Alfa Pendular que devia estar a tempo e horas no Entroncamento ou Coimbra-B. Se for acumulando atrasos, não é só esse serviço que é afetado, são todos”, sublinha, falando de casos comprovadamente reais, já que grande parte dos comboios de longo curso operados pela CP circulam com atraso, como demonstra uma análise feita pela CNN Portugal.

Carlos Gaivoto sugere que Portugal devia implementar o quanto antes o segundo nível do Sistema Europeu de Controlo de Comboios (ETCS), algo que já está em desenvolvimento “em todas as redes europeias”, particularmente em Espanha, França e Alemanha.

Este sistema mais avançado permite uma melhor e mais rápida comunicação entre o comboio em circulação e o centro de controlo que coordena todas as ligações ferroviárias.

“Temos de, rapidamente, modernizar todo o sistema de sinalização, passar do bloco fixo para o bloco móvel, e começar a pensar duas vezes antes de estarmos agarrados a pensar ‘o comboio chegou atrasado 20 minutos’”, afirma.

É que, como diz o especialista na área, os comboios, sejam Alfas Pendulares ou Intercidades, claramente os serviços mais afetados, chegam atrasados por uma razão. “Ainda estamos com sistemas que já estão a começar a ser ultrapassados e não estamos a fazer, provavelmente, o que era necessário e prioritário”, acrescenta, lembrando também que em cima da mesa está, para lá da velocidade, a questão do conforto dos passageiros.

Carlos Gaivoto lamenta, assim, aquilo que vê como 40 anos de “esvaziamento” da CP, algo que entende ser transversal à manutenção de vários sistemas de transportes, nomeadamente em empresas como a Carris, onde o especialista trabalhou.

“Quando se subcontrata serviços, aquilo não é só assinar de cruz o subcontrato. Se há uma tecnologia que é o operador que domina, se o operador quer fazer como se faz lá fora, eles vão alargando e reforçando as suas equipas de manutenção”, aponta o mestre em Sistema de Transportes pelo Instituto Superior Técnico.

“Andamos completamente ao contrário da Europa”, vinca, referindo que há um claro desinvestimento no setor dos transportes, o que é incoerente com discursos como o da intenção de combater a desertificação, já que a rede ferroviária no interior é má ou inexistente.

Quem conhece o mapa ferroviário português sabe que, por exemplo, capitais de distrito como Bragança, Vila Real e Viseu não têm qualquer estação de comboios. A CNN Portugal fez, em setembro de 2022, a viagem entre Lisboa e Madrid. Um percurso de 13 horas que entre a capital portuguesa e Elvas parece algo do passado, como pode ler na reportagem publicada.

“A política para o setor ferroviário tem sido desastrosa e não se resolve o problema a passar do oito para 80”, avisa Carlos Gaivoto, que não percebe como é que não se consegue aplicar o ETCS na Linha de Cascais, mas se pensa em construir uma linha de alta velocidade.

É como “construir a casa pelo telhado”, nota o especialista, que volta a dar os exemplos de outros países – “a maior parte” -, que preferem ter uma acessibilidade regional com conforto e fiabilidade.

O especialista nem quer comparar os países, até porque os níveis tecnológicos não estão no mesmo patamar, mas o recrutamento e o investimento na manutenção também é diferente, com Portugal a perder.

Carlos Gaivoto recusa, aqui, qualquer tipo de questão cultural, falando exclusivamente num problema de política económica que tomou “opções desastrosas que têm vindo a pôr em causa toda a segurança do sistema ferroviário, para além da perda social e económica para as regiões”.

Isso explica-se em parte, no entendimento do especialista, pela passagem da gestão para a Infraestruturas de Portugal. “Quando se põem engenheiros de estradas à frente de ferrovia… não é a mesma coisa”, completa, insistindo que o problema é mais estrutural, nomeadamente na falta de modernização dos equipamentos.



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *