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Os últimos cinco anos redesenharam o mapa do andebol europeu de clubes. O Barça construiu uma dinastia e depois teve de a defender; a Alemanha regressou ao topo através do Magdeburg e, mais recentemente, do Füchse Berlin; a Escandinávia produziu uma geração de eternos segundos no Aalborg; e, primeiro em silêncio, depois nem tanto, um clube português subiu até à elite.
Isto não é uma lista de nostalgia. Tomando como espinha dorsal o atual ranking europeu de clubes (à data de junho de 2026, que combina os resultados das últimas épocas na Liga dos Campeões, na Liga Europeia e nas provas continentais), ficam aqui as oito melhores equipas da Europa: como cada uma chegou até aqui nos últimos cinco anos, os resultados que as definem e os jogadores que as sustentam. E depois, porque me importa a mim e ao desporto no meu país, a história por baixo da tabela: a ascensão portuguesa, impulsionada por um motor de formação que continua a alimentar o topo.
1. SC Magdeburg (GER), 692 pontos
O percurso. Nenhum clube percorreu maior distância em cinco anos. O Magdeburg entrou neste período como equipa de Liga Europeia, finalista dessa segunda prova em 2022, e saiu dele como a força dominante da prova maior. Venceu a Liga dos Campeões em 2023 e de novo em 2025, juntou o Mundial de Clubes da IHF em 2024 e alcançou uma terceira Final4 consecutiva em 2026.
Resultados. Campeão da Liga dos Campeões em 2023 (30:29 após prolongamento frente ao Kielce) e em 2025 (32:26 sobre o Füchse Berlin); campeão do Mundo de Clubes em 2024; medalha de bronze em Colónia em 2026. Três presenças seguidas na Final4.
Melhores jogadores. Gísli Kristjánsson e Omar Ingi Magnússon formam o núcleo criativo islandês; o guardião Sergey Hernández assinou uma das grandes exibições de sempre numa final, em 2025. A mão de Bennet Wiegert no comando técnico é a constante.
2. FC Barcelona (ESP), 691 pontos
O percurso. A referência da era, e apenas a um ponto do topo no ranking. O Barça venceu quatro Ligas dos Campeões neste período e ergueu o 12.º troféu em 2026, o padrão pelo qual todos os outros se medem, mesmo numa época em que o ranking em bruto o coloca em segundo.
Resultados. Campeão da Liga dos Campeões em 2021, 2022, 2024 e 2026; quarto lugar em 2025. Campeão quase permanente da ASOBAL em casa, com uma época 2025/26 de domínio quase total.
Melhores jogadores. O capitão Dika Mem, tricampeão da Liga dos Campeões, comanda o ataque, e a sua saída anunciada para o Füchse Berlin em 2027 dá a este ciclo um travo de fim. Aleix Gómez (antigo melhor marcador da prova) e o guardião Gonzalo Pérez de Vargas continuam ao mais alto nível.
3. Füchse Berlin (GER), 654 pontos
O percurso. A melhor história de ascensão da Europa. Ausente de Colónia durante mais de uma década, o Füchse tornou se campeão alemão em 2025 e chegou depois a duas finais consecutivas da Liga dos Campeões, em 2025 e 2026, perdendo ambas, mas afirmando se como o projeto mais entusiasmante do desporto.
Resultados. Finalista da Liga dos Campeões em 2025 (frente ao Magdeburg) e em 2026 (frente ao Barça); campeão alemão em 2024/25.
Melhores jogadores. Mathias Gidsel, duas vezes Jogador Mundial do Ano pela IHF e detentor de um recorde de golos numa única época, batido em 2026, é a cara do clube e, talvez, do desporto. Lasse Andersson e o guardião Dejan Milosavljev (cujas defesas nos livres de sete metros afastaram o Veszprém em 2026) completam uma coluna vertebral temível, com Mem a chegar em 2027.
4. Aalborg Håndbold (DEN), 572 pontos
O percurso. O estandarte da Escandinávia e o mais doloroso quase da era. O Aalborg chegou à Final4 três vezes neste período e à final por duas, e perdeu ambas as finais para o mesmo adversário, o Barça.
Resultados. Finalista da Liga dos Campeões em 2021 e 2024 (ambas frente ao Barça); de regresso à Final4 em 2026, onde terminou em quarto. Um modelo de consistência a que só faltou o troféu.
Melhores jogadores. Sander Sagosen trouxe peso de craveira mundial à primeira linha, ao lado do emergente Simon Pytlick e da experiência de Aron Pálmarsson, um núcleo dinamarquês construído para continuar a bater à porta.
5. One Veszprém (HUN), 491 pontos
O percurso. O eterno candidato. O Veszprém passou os cinco anos como presença fixa nas fases decisivas sem conquistar a Liga dos Campeões, mas venceu o Mundial de Clubes da IHF em 2024, ao derrotar o Magdeburg, prova de um plantel que pertence ao topo absoluto.
Resultados. Campeão do Mundo de Clubes em 2024; presença regular na Final4 e nos quartos de final; eliminação nos quartos de final de 2026 decidida apenas nos livres de sete metros, frente ao Füchse Berlin.
Melhores jogadores. Nedim Remili e Hugo Descat conduzem um ataque cosmopolita, com Ivan Martinovic e o guardião Rodrigo Corrales a darem o equilíbrio.
6. HBC Nantes (FRA), 486 pontos
O percurso. O outsider francês que se instalou na elite, por vezes à frente do próprio Paris. O Nantes transformou percursos longos numa presença de pódio, confirmando que já não é surpresa nenhuma.
Resultados. Medalha de bronze da Liga dos Campeões em 2025, ao vencer o Barça por 30:25 no jogo do terceiro lugar; presença repetida nos quartos de final ao longo do período.
Melhores jogadores. O guardião Emil Nielsen está entre os melhores do mundo na sua posição; Aymeric Minne e Théo Monar fornecem o poder de fogo à frente dele.
7. THW Kiel (GER), 462 pontos
O percurso. O gigante silencioso. O Kiel abriu a era como campeão europeu em título (2020) e, embora um regresso a Colónia lhe tenha escapado ao longo destes cinco anos, a excelência continuada na Bundesliga e os percursos longos nas eliminatórias europeias mantêm no bem firme no topo do ranking.
Resultados. Sem Final4 no período, mas com presença constante na fase a eliminar e candidatura permanente ao título alemão; casa de um antigo melhor marcador da prova em Emil Madsen.
Melhores jogadores. Harald Reinkind e Emil Madsen encabeçam um plantel que nunca deixa de se reforçar, apoiado na tradicional disciplina defensiva do Kiel.
8. Sporting Clube de Portugal (POR), 447 pontos
O percurso. É este o salto. Durante quase todo o período, o Sporting foi presença habitual na Liga Europeia e superpotência doméstica. Em 2025/26 deu o passo em frente: uma campanha a sério na Liga dos Campeões, que o levou às eliminatórias de acesso aos quartos de final e o deixou empatado no total com o Veszprém dentro do grupo (64:64), e uma subida até aos oito primeiros da Europa, oitavo no ranking continental, empatado em pontos com o Flensburg e à frente de Szeged, Kielce e até do PSG.
Dez anos da minha vida foram passados a vestir este símbolo, por isso não vou fingir que sou neutro. Mas o número é o número: o Sporting é, neste momento, um clube europeu de elite pelos resultados, e não por sentimento.
Resultados. Acesso às eliminatórias da Liga dos Campeões em 2025/26; vencedor da Taça Challenge da EHF (2010 e 2017); o clube mais titulado da história de Portugal, com 23 títulos de campeão nacional (o mais recente em 2025) e 19 Taças de Portugal.
Melhores jogadores. O capitão Salvador Salvador encarna a identidade coletiva da equipa, construída em torno de uma espinha de internacionais portugueses que cresceram juntos ao longo do percurso das seleções.
Portugal em ascensão
O salto do Sporting para os oito primeiros não é um acaso, e não é a história toda. Por baixo dele existe uma cultura de andebol nacional a atingir um patamar que nunca antes tinha conseguido sustentar.
O FC Porto compete ao mais alto nível, ao lado do Sporting: presença na Liga dos Campeões, campeão nacional por diversas vezes (o 23.º título de Andebol 1 chegou em 2021/22) e 17.º clube do ranking europeu. O eixo Sporting e Porto, aguçado pelo Benfica e pelo ABC de Braga, transformou o campeonato português num verdadeiro terreno de prova, competitivo, e não numa procissão de uma só equipa. É essa qualidade interna que eleva os clubes quando pisam o palco europeu.
E por baixo dos clubes seniores está o motor que mais importa: os resultados da formação. Portugal já não é uma promessa, é uma fábrica. A seleção de juniores chegou à final do Campeonato do Mundo em 2025, cedendo apenas frente à Dinamarca; e conquistou a prata europeia em 2022 (em casa, no Porto) e de novo em 2024, depois de um segundo lugar já em 2010. Um marcador como Francisco Costa, que iluminou o Europeu de juniores de 2022, é exatamente o perfil que agora se gradua para o Sporting, para o Porto e para a seleção principal.
É isto a integração contínua: uma geração de ouro que passa, época após época, dos pódios de formação para as rotações das melhores equipas portuguesas e, cada vez mais, para a própria Liga dos Campeões. O Sporting em oitavo na Europa é a ponta visível de um manancial que se renova sem parar.
A época que aí vem: mais uma grande luta
Tudo aponta para um 2026/27 mais renhido, disputado sob o novo formato da prova.
No topo, Magdeburg e Barça estão separados por um único ponto no ranking, uma corrida ao título em miniatura, o campeão em título contra o campeão recordista, com o Barça a renovar se mesmo enquanto começa a contagem decrescente para a mudança de Dika Mem para o Füchse Berlin em 2027. O próprio Füchse chega com o atacante mais perigoso do mundo em Gidsel e uma primeira Liga dos Campeões como obsessão. O Aalborg continua a perseguir o troféu que já lhe escapou duas vezes em Colónia. Veszprém e Nantes espreitam, prontos a castigar qualquer deslize.
E o Sporting? A missão agora é transformar um lugar entre os oito primeiros num primeiro acesso aos quartos de final da Liga dos Campeões, converter a chegada em permanência. Com o Porto a pressionar ao mais alto nível e uma geração de formação que acabou de alcançar uma final mundial, o andebol português nunca esteve tão bem colocado para forçar a entrada na festa dos grandes.
O mapa foi redesenhado. A próxima época é onde todos lutam para manter, ou conquistar, o seu lugar nele.
Força, e que vença a melhor luta.
Por Ricardo Andorinho










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