O aumento da frequência e da intensidade dos incêndios florestais na Europa está despertando um perigo oculto que permanecia silencioso sob o solo há mais de oito décadas.
Uma análise técnica detalhada no veículo The Conversation revela que as chamas atuais possuem calor e duração suficientes para provocar a ativação de bombas e munições da Segunda Guerra Mundial que não explodiram no século passado.
O perigo tornou-se uma ameaça operacional real após o fogo em Le Porge, na França, expor pelo menos 75 projéteis em áreas onde a população circulava sem qualquer ciência do risco.
Calor afeta explosivos
A física por trás dessa ativação perigosa envolve uma combinação de calor sustentado e falha estrutural dos materiais bélicos antigos.
Diferente de um fogo superficial que consome apenas folhagens por alguns minutos, as queimadas intensas que duram horas ou dias conseguem transferir calor suficiente para as camadas profundas da terra, atingindo artefatos enterrados ou escondidos sob a turfa.
Conforme as especialistas Sarah Njeri, da Universidade de Londres, e Christina Greene, da Universidade do Arizona, a degradação temporal é um fator determinante para a instabilidade.
Na análise publicada, as pesquisadoras explicam que “décadas de corrosão podem tornar as carcaças e os fusíveis mais sensíveis” do que no momento de sua fabricação original.
Essa sensibilidade elevada faz com que o limiar de segurança dos artefatos seja facilmente ultrapassado pelo clima extremo.
As autoras enfatizam que “recheios explosivos podem inflamar ou detonar quando aquecidos além de um limite crítico”, o que transforma o combate ao fogo em uma operação de alto risco para os bombeiros, que muitas vezes não podem se aproximar das chamas.
Em um dos episódios relatados no estudo, o impacto de uma explosão foi tão forte que um projétil atravessou a parede de uma residência que havia sido evacuada.
O prefeito de Le Porge, Martial Zaninetti, expressou surpresa com a descoberta das munições após o incêndio, afirmando que “a municipalidade não tinha registro de que as munições estivessem lá de forma alguma”.
Risco climático acelerado
A vulnerabilidade europeia é agravada por mudanças climáticas que tornam o solo mais seco e suscetível a incêndios que queimam o subsolo. Segundo um estudo de apoio publicado na revista Nature, o número de dias com condições propensas a incêndios extremos no sul da Europa dobrou entre 1981 e 2025.
Esse cenário permite que o fogo penetre em depósitos de turfa seca, onde as chamas podem persistir por semanas sem serem detectadas na superfície.
No Reino Unido, por exemplo, o incêndio de Langdale Moor demonstrou esse perigo ao registrar a detonação de 21 projéteis da Segunda Guerra Mundial que estavam escondidos no subsolo ao longo de seis semanas de queima persistente.
Herança bélica europeia
A extensão da contaminação por restos explosivos no continente é massiva, abrangendo desde antigos campos de treinamento soviéticos no nordeste da Alemanha até as zonas de conflito da Primeira Guerra Mundial na Bélgica e no norte da França.
O fenômeno da colheita de ferro, comum em áreas agrícolas onde agricultores encontram munições a cada primavera, agora ganha uma nova e letal escala com os megaincêndios florestais.
Com o abandono de áreas rurais nas últimas quatro décadas e o consequente acúmulo de vegetação, a Europa enfrenta o desafio urgente de gerir um arsenal esquecido que o calor extremo está trazendo de volta à vida.
*Sob supervisão de Éric Moreira










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