A entrada de cerca de 70 mil migrantes em Ceuta na semana passada não provocou apenas uma crise humanitária e fronteiriça. Expôs também uma vulnerabilidade que acompanha a União Europeia há anos: a possibilidade de os fluxos migratórios serem utilizados como instrumento de pressão política, diplomática e económica.
A instrumentalização da migração não nasceu em Ceuta nem é exclusiva das relações entre Espanha e Marrocos. De Cuba à Líbia, passando pela Turquia e pela Bielorrússia, há décadas que Governos percebem que abrir uma fronteira — ou simplesmente ameaçar deixar de a controlar — pode ser suficiente para obrigar outros países a negociar.
Segundo explica o ‘El Confidencial’, especialistas ouvidos pelo jornal alertam, porém, que ainda não existem elementos suficientes para concluir que Marrocos tenha deliberadamente provocado a atual crise em Ceuta. Jørgen Carling, investigador do Instituto de Pesquisa da Paz de Oslo (PRIO), recorda, contudo, que a crise fronteiriça de 2021 fez parte do “repertório estratégico de Marrocos” para pressionar Espanha e a União Europeia.
Cuba mostrou há quase meio século como funciona
Um dos exemplos mais conhecidos ocorreu em 1980. Cuba permitiu que cerca de 125 mil pessoas partissem da ilha em direção aos Estados Unidos durante o chamado êxodo de Mariel. Entre elas encontravam-se dissidentes políticos, pessoas que fugiam da pobreza e também prisioneiros libertados pelo regime de Fidel Castro.
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Para Carling, existe uma lógica que pode repetir-se noutros países: a saída de cidadãos descontentes, jovens ou desempregados não é necessariamente encarada pelo Governo de origem como uma perda. Pode, pelo contrário, reduzir tensões internas e, simultaneamente, criar pressão sobre o país de destino.
Na Europa, porém, a estratégia ganhou outra dimensão. Líbia, Turquia e Bielorrússia mostraram que nem sequer é necessário utilizar os próprios cidadãos: migrantes provenientes de países terceiros podem transformar-se em peões numa disputa entre governos. E, por vezes, basta ameaçar reduzir a cooperação fronteiriça para obter concessões.
Gaddafi percebeu cedo o poder da fronteira
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Na Líbia, Muammar Gaddafi já apresentava o controlo da migração através do Mediterrâneo como um serviço pelo qual a Europa deveria pagar. Em 2010, chegou a exigir milhares de milhões de euros para impedir que migrantes partissem em direção ao continente europeu, ameaçando com as consequências caso Bruxelas não colaborasse.
Anos depois da queda do ditador, Khalifa Haftar percebeu o mesmo poder. Embora controle um Governo paralelo sem reconhecimento internacional, o marechal conseguiu estabelecer interlocução com países europeus graças, entre outros fatores, à influência que exerce sobre as rotas migratórias. Em julho, a UE anunciou mesmo a criação de um Centro de Coordenação de Resgate em Benghazi, território controlado por Haftar.
Turquia abriu a porta — e Bruxelas voltou a pagar
A Turquia protagonizou outro dos episódios mais claros. Depois da crise migratória de 2015, quando cerca de 860 mil pessoas chegaram à Bulgária, Chipre e Grécia, a UE reforçou a cooperação com Ancara para tentar controlar a rota.
Mas, em fevereiro de 2020, num momento de forte tensão com Bruxelas, as autoridades turcas anunciaram que deixariam de impedir refugiados de avançar para a fronteira grega. Ancara acolhia então quase quatro milhões de refugiados, sobretudo sírios, e a abertura da fronteira permitia simultaneamente aliviar pressão interna e exigir mais apoio europeu.
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Meses depois, Bruxelas aprovou mais 485 milhões de euros para programas humanitários relacionados com refugiados, além dos seis mil milhões já previstos no mecanismo europeu destinado à Turquia.
Bielorrússia levou a estratégia ainda mais longe
Talvez o exemplo mais explícito tenha ocorrido em 2021. Depois de a UE reforçar sanções contra Alexander Lukashenko, o regime bielorrusso facilitou a chegada de migrantes às fronteiras orientais da União. Só na fronteira polaca foram registadas cerca de 30 mil tentativas de passagem em poucos meses.
Voos provenientes de cidades como Bagdade e Benghazi começaram a chegar a Minsk, enquanto milhares de pessoas eram encaminhadas para junto das fronteiras europeias. A UE classificou a operação como um “ataque híbrido” em resposta às sanções. A Polónia respondeu gastando quase 700 milhões de euros em medidas de proteção, incluindo a construção de uma barreira na floresta de Białowieża.
Os números mostram a dimensão da mudança: segundo dados citados pelos investigadores, no primeiro semestre de 2025 houve 15.500 travessias irregulares a partir da Bielorrússia; em igual período de 2026, apenas 235.
O paradoxo europeu: quanto mais se protege, mais dependente fica
É aqui que regressamos a Ceuta. Espanha reforçou a barreira flutuante de Tarajal e mantém a cooperação com Marrocos para controlar as entradas. Mas essa estratégia encerra aquilo que Alberto-Horst Neidhardt, do Centro de Política Europeia, descreve como um paradoxo: quanto mais a UE depende dos países vizinhos para impedir a chegada de migrantes, maior é o poder que lhes entrega.
Um Governo pode não precisar sequer de abrir formalmente a fronteira. A ameaça de suspender a cooperação, relaxar os controlos ou permitir um aumento das partidas pode tornar-se suficiente para exigir dinheiro, apoio diplomático ou outras concessões.
Ceuta pode acrescentar uma arma nova: as redes sociais
E é precisamente aqui que a atual crise pode introduzir uma novidade. O Governo espanhol atribuiu a entrada em Ceuta a redes de contrabando, enquanto dezenas de mensagens de origem desconhecida circularam nas redes sociais incentivando pessoas a tentar atravessar a fronteira.
Até agora, explica Carling, a instrumentalização da migração dependia sobretudo de Estados vizinhos, porque eram estes que tinham capacidade para abrir ou fechar rotas. Campanhas coordenadas de desinformação nas redes sociais podem alterar essa realidade.
Se conseguirem mobilizar milhares de pessoas em direção a uma fronteira, a capacidade de provocar uma crise migratória deixa de estar exclusivamente nas mãos dos governos. “Essa arma”, alerta o investigador citado pelo ‘El Confidencial’, pode passar a estar disponível para “uma gama nova e mais ampla de atores”.
E essa talvez seja a consequência mais inquietante de Ceuta: a próxima crise fronteiriça europeia pode não precisar de começar com uma decisão tomada num palácio presidencial. Pode começar simplesmente com uma campanha organizada num telemóvel.










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