Desde que lançou, em 2020, o projecto de celebrar os 900 anos de Portugal, a Sociedade Histórica defendeu a importância de aproveitar esta efeméride de largo espectro, para reflectir sobre a nossa História e a nossa identidade ao longo desses mesmos 900 anos.
Uma celebração que pretende ser de todos não pode ficar confinada a um olhar focado unicamente no embrião do país. Durante o século XII, Portugal foi um reino de limites indefinidos, que tinha aspirações territoriais a uma configuração mais ampla, quer a Norte, quer a Leste, como se adivinhava em 1169, antes do desastre de Badajoz, quando os domínios de D. Afonso Henriques se estendiam a territórios hoje na Galiza, e incluíam cidades como Cáceres e Trujillo.
Depois, no início do século XIII, Portugal esteve a ponto de ser absorvido pelo reino de Leão e integrar um Grande Ocidente peninsular sob o mando de Afonso IX, um dos mais notáveis netos do nosso rei fundador. A circulação de magnates de fala luso-galaica entre as cortes de Portugal e de Leão é um bom exemplo da fluidez das identidades e das composições políticas nesse tempo. A celebração do século XII deixa-nos confinados a um território exíguo entre o Tejo, o Minho, o Côa, mais as montanhas do Gerês e do Montesinho, e as fragas do Douro, onde o rio corre de Miranda para Barca de Alva.
O Condado Portucalense.
Como sabemos, o embrião do século XII sobreviveu, devido à tenacidade do rei D. Afonso II e aos interesses de Castela; ao impedir Leão de absorver Portugal em 1212, Castela logrou abocanhar a monarquia leonesa em 1230 e tornar-se na potência peninsular hegemónica.
Em contrapartida, respirando pelo mar, sendo pragmático desde a primeira hora, ao longo dos séculos XIII e XIV Portugal firmou-se não só como um estado peninsular, mas também como uma monarquia imprescindível ao comércio marítimo europeu; o reino tinha a particularidade de ser habitado por falantes de uma só língua, que mais ninguém usava na Europa – era, pois, um raríssimo Estado-língua, desde a assinatura do Tratado de Alcanizes, em 1297.
Com o seu território hispânico consolidado desde então, Portugal continuava a aspirar às partes inalcançadas em 1169, e nas guerras fernandinas, o rei de Portugal chegou a ser aclamado rei da Galiza, mas o conflito redundou num desastre e, no final, a herdeira de Portugal casou com o rei de Castela. Noutras partes da Europa, um consórcio desta natureza levou quase sempre à subordinação da população da princesa ao mando do esposo estrangeiro, mas em 1383, quando o rei D. Fernando fechou os olhos, grande parte da população recusou-se a aceitar o mando da menina que estava entregue a João I de Castela, e tampouco o de sua mãe, D. Leonor Teles, a rainha viúva.
De forma síncrona, mesmo sem disporem de redes sociais, dezenas de vilas e cidades não aclamaram a nova rainha, e muitas outras protestaram contra a subserviência das elites – todos queriam um rei próprio e encontraram-no no Mestre de Avis, proclamado D. João I pelas cortes de Coimbra, de abril de 1385.
Apoiado por um legista hábil e por um guerreiro visionário, o rei de Boa Memória corporizou a vontade da grande maioria dos portugueses e aceitou enfrentar o exército castelhano numa desproporção numérica, que o génio de D. Nuno Álvares Pereira anulou no campo de Aljubarrota. A presença de um contingente inglês no seio da hoste lusa era o sinal claro da relevância europeia de Portugal e pode ser visto como o primeiro marco de uma velha aliança, que se tornaria numa chave estruturante da própria Europa, como a História viria a provar repetidamente ao longo do tempo, e de um modo muito expressivo nas guerras napoleónicas.
Batalha de Aljubarrota (autor desconhecido).
Assim, a Batalha Real de 14 de agosto de 1385 impediu Castela de engolir a monarquia lusitana e deu tempo para que o sentimento de identidade colectiva que aspirava a ter sempre um rei próprio, que foi o motor da revolta de 1383, se consolidasse nos séculos seguintes, até se manifestar, de modo cristalino, na Restauração de 1640, quando o país e o seu império responderam quase em uníssono (só falhou Ceuta) à reposição de um português no trono de Portugal, aceitando sem revoltas o aumento dos impostos que viria a sustentar a guerra.
A vitória de Aljubarrota, ao consolidar o território hispânico de Portugal, deu azo a que a velha interpelação do mar fosse finalmente concretizada no século XV, com o avanço militar para o estreito de Gibraltar, pela conquista de Ceuta, e com a incorporação dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, sem que outras monarquias europeias os reclamassem para si, nem mesmo Castela, que disputava com Portugal a posse das ilhas Canárias.
Aljubarrota foi, pois, o dia D de Portugal, em que o embrião do século XII se mostrou pleno de vitalidade e pronto para se completar. Qual crisálida, por Aljubarrota, Portugal deixou de ser um pequeno país periférico, para se transformar numa potência oceânica, transfigurando-se e provocando a revolução mundial dos Descobrimentos. Neste ciclo largo de celebração dos 900 anos de Portugal, o ponto alto do ano de 2035, será certamente a evocação dos 650 anos do dia que decidiu a perenidade de Portugal.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]










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