A revista Illustração Portugueza captou a descrição do eclipse solar de um dos maiores astrónomos da época, o francês Camille Flammarion: “Diâmetro da lua ligeiramente inferior ao do sol. Montanhas lunares projetadas sobre o anel solar produzindo os grãos de Baily em volta do disco. Vénus visível durante 20 minutos, Mercúrio somente um instante.” Além de todos os prémios e títulos que recebeu em vida, Camille Flammarion foi honrado com a designação de duas crateras em seu nome — uma em Marte e outra na Lua.
Mesmo com progressos significativos na área da previsão dos eclipses, os cálculos estavam ainda muito longe de serem tão precisos como no ano de 2026, o que causou “muita ansiedade” na véspera. Se hoje sabemos que o eclipse solar total desta quarta-feira, 12 de agosto, vai durar exatamente 26 segundos em Rio de Onor, Bragança, naquela altura sabiam apenas que ia acontecer uma ocultação do Sol naquela faixa de território, sem saber se seria total — e durante quanto tempo. Muitos viajaram durante dias para chegar a Ovar sem a garantia de um grande evento astronómico.
Na edição de 29 de abril de 1912 da revista Illustração Portugueza, repetem-se imagens do momento em que a população saiu à rua para olhar para o céu. Desde vidros fumados como lente protetora dos raios solares, ao recurso às propriedades refletoras da água — olhando para o reflexo de uma fonte no Rossio, em Lisboa — para registar a ocultação do Sol, não faltaram métodos. Outros colocavam apenas as mãos sobre a testa, para tentar limitar a quantidade de luz que lhes chegava à retina (e que pode causar lesões irreversíveis). Já naquela altura havia questões sobre a segurança do vidro fumado para a observação do eclipse — pelo que, para esta quarta-feira, deve recorrer a óculos e filtros certificados, que naquele tempo ainda não existiam.
Os últimos quatro eclipses solares em Portugal
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1984 – Eclipse parcial
1999 – Eclipse parcial
2005 – Eclipse anular
2015 – Eclipse parcial
No início da segunda quinzena de abril de 1912, o foco de toda a imprensa nacional é o eclipse. As notícias sobre o fenómeno astronómico têm maior destaque do que o naufrágio do Titanic, a 15 de abril. Aliás, tamanha era a importância deste evento que o Governo português dispensou das aulas os alunos de todos os estabelecimentos de ensino.
Nos jornais, surge o pedido de autorização que estudantes tanto da Universidade de Coimbra como do Instituto Superior Técnico endereçaram ao então ministro do Fomento, Estêvão de Vasconcelos, para ir em “missão de estudo” a Ovar. Francisco Miranda da Costa Lobo, um dos maiores astrónomos da história portuguesa, fez estabelecer 11 estações de observação no local, com a ajuda de jovens que estudavam astronomia em Coimbra. Estavam separadas cerca de 500 metros entre si, numa linha perpendicular à faixa da sombra, descreveu o astrofísico pioneiro ao Diário de Notícias.
Um dos equipamentos utilizados naquele momento foi, para além de todos os utensílios de fotografia que existiam à época, um “aparelho cinematográfico”. Esta operação conduzida pelo professor da Universidade de Coimbra terá resultado no “primeiro eclipse filmado extensivamente”, de acordo com o astrónomo historiador de ciência Luís Tirapicos, no artigo “Eclipses totais do Sol em Portugal: de 1900 a 1919”. Estas filmagens permitiram a Costa Lobo perceber que se tratou, na verdade, de um eclipse “híbrido”, com seis das suas 11 estações a captarem um eclipse anular.
Os que se deslocaram de propósito até Ovar encheram as carruagens da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses — que ofereceu “um serviço especial” para mobilizar portugueses e estrangeiros até à pequena cidade que, durante aqueles dias, se tornou num autêntico centro astronómico. A empresa transportadora procurou facilitar o acesso até Ovar por acreditar que “um eclipse total do sol é o espetáculo mais empolgante que é dado imaginar-se”. Acompanhada por uma breve e detalhada descrição da experiência de observação do anterior eclipse solar total, a Gazeta dos Caminhos de Ferro, a revista oficial d’A Companhia, anunciou, na véspera, “bilhetes a preços reduzidos para os pontos onde melhor se pode observar o fenómeno”.









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