Portugal não pode continuar a arder todos os verões


E diagnósticos não faltam.

A Comissão Técnica Independente que avaliou os incêndios de agosto de 2025 voltou recentemente a confrontar o país com uma realidade incómoda: as reformas realizadas não foram suficientes para garantir uma resposta adequada aos grandes incêndios. O relatório identifica falhas e fragilidades e devolve ao debate público problemas que Portugal conhece há demasiados anos.

Não nos faltam diagnósticos. Falta transformar diagnósticos num território diferente.

Essa é a questão essencial. O abandono de vastas áreas do interior, o envelhecimento da população, a fragmentação da propriedade, a acumulação de combustível, a dificuldade de gerir milhares de parcelas e uma floresta que, em muitos locais, não é economicamente valorizada criaram condições que nenhum exército de bombeiros consegue resolver durante uma tarde de agosto. E, apesar de ter aumentado o número de detenções de incendiários, conforme se pode ler na reportagem da página 10 desta edição do DN, o que é certo é que se continua a trabalhar a posteriori.

O combate é indispensável. A prevenção é decisiva.

Portugal investiu, aprendeu e alterou profundamente o sistema depois das tragédias de 2017. Seria injusto dizer que nada mudou. Mudou. Há mais conhecimento, planeamento, vigilância e capacidade de resposta. Mas reconhecer os progressos não obriga a ignorar aquilo que continua por fazer. Pelo contrário. Quando, quase uma década depois de Pedrógão Grande, continuamos a assistir a grandes incêndios e a discutir muitas das mesmas fragilidades, temos de perguntar se o ritmo da transformação está à altura do risco.

E o risco também mudou. Temperaturas mais elevadas, períodos prolongados de seca e fenómenos meteorológicos extremos aumentam as condições favoráveis à ocorrência e propagação de incêndios violentos. Portugal não pode preparar o território para o clima de ontem. Tem de o preparar para a realidade que já enfrenta.

É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre bombeiros, aviões ou número de operacionais. Passa a ser sobre política florestal, agricultura, ordenamento do território, valorização económica do interior, gestão de combustíveis, cadastro da propriedade e responsabilização de quem tem obrigação de cuidar do terreno.

Continuar a medir a força do país pelo número de homens, mulheres, viaturas e aviões que conseguimos colocar diante das chamas é aceitar que chegámos demasiado tarde. A verdadeira medida do sucesso terá de ser outra: quantos incêndios conseguimos evitar e, quando começam, quantos impedimos de se transformar em grandes incêndios.

Quando este verão terminar, haverá balanços. Contaremos hectares, prejuízos, casas atingidas e dinheiro gasto. Voltaremos a discutir medidas, responsabilidades e reformas. E, se nada de verdadeiramente estrutural mudar, no próximo verão voltaremos provavelmente às mesmas imagens, às mesmas perguntas e às mesmas promessas.

É precisamente esse ciclo que Portugal tem de quebrar.

Os incêndios podem fazer parte dos nossos verões. A resignação perante um país que arde todos os anos não pode fazer parte do nosso futuro.



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