O Mundial de 2026 ainda não terminou e a FIFA já está a pensar no próximo. Gianni Infantino confirmou aquilo que há mais de um ano circulava como rumor persistente nos bastidores do futebol internacional: o alargamento da competição de 48 para 64 seleções está oficialmente em cima da mesa, com o horizonte de 2030 como possível data de estreia.
Numa entrevista ao portal suíço Bluewin, o presidente da FIFA foi claro quanto à intenção, ainda que cauteloso quanto ao calendário: o tema será formalmente analisado pelos órgãos competentes assim que este Mundial terminar. A lógica que o sustenta é, nas suas palavras, a de tornar o torneio verdadeiramente global, em que qualquer federação, por mais pequena que seja, possa alimentar o sonho de participar. O argumento apoia-se sobretudo no desempenho das seleções africanas nesta edição: segundo Infantino, nove em cada dez chegaram à fase eliminatória, um salto notável face às apenas cinco presenças africanas do Mundial anterior.
Uma proposta inicialmente tratada como assunto menor
A confirmação pública tem uma origem bem mais discreta. Segundo reconstituiu o New York Times , já em março de 2025, a ideia surgiu no ponto “diversos” da ordem de trabalhos de uma reunião do Conselho da FIFA, precisamente o momento reservado a assuntos menores, já perto do fim do encontro. Foi aí que o dirigente uruguaio Ignacio Alonso leu uma intervenção preparada, defendendo um Mundial de 64 equipas para 2030, ano do centenário da competição. Segundo pessoas com conhecimento direto da reunião, a reação inicial dos presentes terá sido de silêncio perplexo, mas Infantino não descartou a hipótese, tendo pedido que a proposta fosse analisada com mais profundidade.
A FIFA, confrontada na altura com a revelação do jornal norte-americano, confirmou que o tema tinha sido levantado espontaneamente por um membro do Conselho, sublinhando que tem o dever estatutário de analisar qualquer proposta apresentada pelos seus membros, sem que isso significasse, garantiu, qualquer decisão tomada.
Meses depois, a ideia ganhou um padrinho de peso: Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol e vice-presidente da FIFA, classificou publicamente o formato alargado como um “sonho”. O interesse sul-americano tem também uma outra leitura. No desenho atual o Mundial 2030 é organizado por Portugal, Espanha e Marrocos, com Uruguai, Argentina e Paraguai a receberem apenas o jogo inaugural de cada um, em homenagem simbólica a 1930. A expansão para 64 equipas permitiria que cada um destes três países acolhesse um grupo inteiro e não uma única partida. Há quem leia nisto uma resposta a um desconforto regional mais específico: o Paraguai, país do próprio presidente da Conmebol, tem falhado sistematicamente o apuramento direto para o Mundial nos últimos ciclos, o que tornaria a vaga automática de anfitrião ainda mais valiosa.
A Tribuna contactou a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) para conhecer a opinião de Pedro Proença sobre este alargamento, mas segundo o assessor Ricardo Quaresma: “o presidente da federação prefere, para já, não tecer qualquer comentário sobre o assunto.”
Como ficaria o formato
Tecnicamente, a mudança implicaria 16 grupos de quatro equipas, com os dois primeiros de cada grupo a seguir diretamente para os oitavos-de-final, ao contrário do atual sistema de 12 grupos, que ainda inclui o apuramento dos melhores terceiros classificados. O número de jogos subiria dos atuais 104 para 128, mais do dobro dos 64 disputados nas edições com 32 equipas. Na prática, mais de um quarto das federações filiadas na FIFA passaria a disputar a fase final, algo que os críticos apontam como sinal de excesso, capaz de esvaziar de sentido várias fases de qualificação continental. Já hoje, cerca de sete em cada dez seleções sul-americanas apuram-se para o Mundial. Alargar ainda mais o acesso poderia diminuir o interesse comercial das próprias eliminatórias.
A ideia está longe de reunir consenso. Infantino classificou o alargamento para 48 equipas, implementado nesta edição, como um “sucesso a 100%”, mas as críticas não faltaram. O selecionador do Gana, Carlos Queiroz, considerou que o novo formato desvalorizou as qualificações e tornou o Mundial mais “vulgar e comum”. Do lado das confederações, a resistência é ainda mais organizada. O presidente da UEFA, Aleksandar Ceferin, já qualificou como uma “má ideia” qualquer novo alargamento, alertando para o impacto na qualidade competitiva do torneio e no equilíbrio das eliminatórias europeias. O presidente da Concacaf, Victor Montagliani, juntou-se às críticas, e também a confederação asiática já manifestou reservas.
Há um precedente recente que ilustra os limites do poder de Infantino dentro da FIFA: quando o dirigente chegou a apoiar a ideia de disputar o Mundial a cada dois anos em vez de quatro, a reação revelou-se furiosa – sobretudo vinda da Europa – e obrigou os defensores do projeto a arquivá-lo silenciosamente, depois de um comité ter trabalhado no tema durante cerca de um ano sem nunca o concretizar.
Um presidente que gosta de deixar marca
Desde que assumiu a presidência da FIFA em 2016, na sequência do escândalo de corrupção que afastou grande parte da anterior liderança, Infantino tem feito da expansão dos seus torneios uma espécie de assinatura pessoal. Foi ele quem já elevou o Mundial masculino de 32 para 48 equipas, quem promoveu um Mundial feminino igualmente maior e quem criou o novo Mundial de Clubes, testado este verão nos Estados Unidos e que tem enfrentado resistência de ligas e sindicatos de jogadores, além de vendas de bilhetes aquém do esperado. É também um dirigente cada vez mais próximo da política norte-americana: Infantino tem hoje base em Miami e uma relação próxima com Donald Trump, que o convidou para a sua tomada de posse e descreveu-o como o “rei do futebol”.
Por trás do debate desportivo há uma leitura financeira que acompanha toda a discussão: o Mundial é hoje o evento mais lucrativo do desporto mundial, e esta edição de 48 equipas deverá gerar à FIFA uma receita recorde, citada pela imprensa internacional na casa dos nove mil milhões de dólares [cerca de 7.903 milhões de euros], que é mais do que a soma dos últimos quatro anos, o que alimenta a suspeita, entre os mais cépticos, de que o critério comercial pesa tanto ou mais do que o desportivo nesta vontade de continuar a crescer.
Nada está decidido. O próprio Infantino sublinhou que qualquer decisão só será tomada depois de analisada internamente pelos comités da FIFA, já com o Mundial de 2026 arrumado. Mas fica a certeza de que o tema vai voltar à agenda em breve e que Portugal, como um dos três países organizadores de 2030, vai ter de acompanhar de perto uma discussão que pode mudar, mais uma vez, a face do torneio que se prepara para acolher.











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