O Mundial de futebol acabou, mas Portugal continua em jogo


O Mundial de Futebol terminou para Portugal mais cedo do que todos desejávamos. As explicações para a eliminação ficam para quem melhor conhece a modalidade. Mas o fim da participação da Seleção Nacional não tem de significar o fim do nosso entusiasmo pelo desporto. Portugal continua em competição.

Enquanto a atenção mediática se concentra quase exclusivamente no rescaldo do futebol, a Seleção Nacional de Rugby disputa, nos Estados Unidos e Canadá, a World Rugby Nations Cup, uma das competições mais importantes da história recente da modalidade. E, no entanto, a maioria dos portugueses dificilmente saberá que os Lobos estão em campo. A razão é simples: quase ninguém fala deles.

A Nations Cup, criada pela World Rugby, representa uma mudança estrutural para as seleções emergentes. Pela primeira vez, países como Portugal passam a integrar uma competição internacional regular, competitiva e com verdadeiro impacto no desenvolvimento da modalidade. Mais jogos, adversários de maior qualidade, maior previsibilidade competitiva e uma preparação mais consistente para o Campeonato do Mundo de 2027. É precisamente o tipo de competição que Portugal reclamava há muitos anos para consolidar o crescimento do rugby nacional.

O formato da competição é algo invulgar. Existem dois grupos de seis seleções, mas as equipas do mesmo grupo não jogam entre si. No Grupo A estão representadas as seleções das Américas e do Pacífico: Canadá, Chile, Samoa, Tonga, Uruguai e Estados Unidos. O Grupo B reúne equipas da Europa, Ásia e África: Geórgia, Hong Kong China, Portugal, Roménia, Espanha e Zimbabwe. Em simultâneo decorre uma competição semelhante destinada às seleções de Tier 1, a Nations Championship, que reúne as principais potências mundiais da modalidade.

Os resultados dos Lobos demonstram que o crescimento do rugby em Portugal não tem de ser uma ilusão. Depois da extraordinária campanha no Mundial de 2023, os Lobos conquistaram respeito internacional e provaram que podem competir com seleções tradicionalmente mais fortes. Na estreia desta Nations Cup perderam por apenas um ponto frente aos Estados Unidos, num encontro decidido nos instantes finais, depois de uma exibição de enorme qualidade e caráter.

Seria de esperar que uma Seleção Nacional a competir ao mais alto nível internacional despertasse curiosidade, interesse e orgulho nacional. Mas, infelizmente, não é isso que acontece.

Portugal continua preso a uma cultura desportiva excessivamente centrada numa única modalidade. Quando o futebol termina, parece que o desporto em Portugal entra em pausa. Como se deixassem de existir atletas portugueses a competir, bandeiras nacionais para defender ou camisolas das quinas para apoiar. Esta realidade empobrece o nosso desporto.

Os países com maior sucesso desportivo são precisamente aqueles que valorizam a diversidade. Compreendem que o prestígio internacional de uma nação também se constrói através do desempenho nas mais variadas modalidades. Investem, promovem, divulgam e criam públicos. Portugal tem condições para fazer o mesmo, mas muitas vezes esquece-se de o fazer.

Não se trata de retirar espaço ao futebol. Trata-se de acrescentar espaço às restantes modalidades. O sucesso de umas não diminui o das outras; pelo contrário, reforça a imagem de um país mais competitivo, mais ambicioso e mais completo do ponto de vista desportivo.

O rugby é hoje um excelente exemplo dessa oportunidade. Tem uma Seleção competitiva, jogadores reconhecidos internacionalmente e uma identidade que conquista quem acompanha os jogos. Falta-lhe, sobretudo, visibilidade, ainda que em parte por culpa própria e dos seus decisores.

Deixo um exemplo muito prático e atual. Porque é que uma Seleção Portuguesa a disputar uma competição oficial organizada pela World Rugby não tem transmissão televisiva em canal aberto? Como podemos querer aproximar os portugueses do rugby se lhes retiramos a possibilidade mais simples de acompanhar a sua Seleção? É difícil criar novos adeptos quando os jogos não chegam ao grande público. É difícil atrair patrocinadores quando a exposição mediática é reduzida. É difícil desenvolver uma modalidade quando ela permanece praticamente invisível.

Naturalmente, os direitos televisivos, as audiências e as opções editoriais obedecem a critérios económicos. Mas o serviço público do desporto também passa por dar palco às Seleções Nacionais quando representam Portugal em competições internacionais relevantes. Se queremos um desporto mais plural, alguém tem de dar o primeiro passo.

O futuro do rugby português não depende apenas dos jogadores, dos treinadores ou dos dirigentes. Depende também da capacidade do país reconhecer e apoiar quem o representa com qualidade, independentemente da modalidade. Porque um país que apenas acompanha uma modalidade está inevitavelmente a desperdiçar talento. E um país que celebra todos os seus atletas é, inevitavelmente, um país mais forte.

PS: Não posso deixar de dar uma nota de reconhecimento merecido à Sport TV, que continua a desempenhar um papel determinante na divulgação do rugby em Portugal. Esta cobertura regular permite aos adeptos acompanhar o râguebi internacional ao mais alto nível ao longo de toda a época. Falta o rugby nacional. Fica aqui o desafio…



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