A conta da inteligência artificial chegou – Observador


Durante dois anos, os mercados trataram a IA como uma promessa quase infalível. Bastava anunciar mais investimento, mais chips ou mais centros de dados para justificar novas subidas em bolsa. Agora, a pergunta mudou: não é se a tecnologia vai transformar a economia, mas quando — e se — essa transformação se traduzirá em lucros.

Na minha anterior crónica sobre a SpaceX, a IA e a bolha de avaliação, escrevi que a bolsa parecia vender o futuro e esquecer o presente. O que está agora a acontecer confirma essa ideia: a tecnologia pode ser real, poderosa e revolucionária, sem que isso torne automaticamente razoável qualquer avaliação.

A internet mudou o mundo. Isso não impediu que milhares de investidores perdessem dinheiro com empresas da primeira bolha tecnológica. O automóvel revolucionou a mobilidade, mas nem todos os fabricantes sobreviveram. A eletricidade transformou a indústria, mas não tornou todos os investimentos elétricos bons investimentos.

O mesmo acontecerá com a inteligência artificial.

A inversão da euforia

Durante a euforia, gastar milhares de milhões em IA era visto como sinal de visão estratégica. Agora, os mesmos gastos começam a ser lidos como ameaça à rentabilidade. Amazon, Google e Microsoft perderam, em conjunto, cerca de 900 mil milhões de dólares em valor de mercado depois de apresentarem planos de investimento em IA de aproximadamente 660 mil milhões de dólares.

Quando uma ação já incorpora um cenário quase perfeito, não é preciso que os resultados sejam maus. Basta que sejam menos extraordinários do que o esperado.

O paradoxo da eficiência

A IA promete aumentar a produtividade e reduzir custos, mas exige investimentos gigantescos a quem a desenvolve. Pode ser eficiente para o utilizador e financeiramente pesada para o fornecedor.

É esse o paradoxo central: a tecnologia pode criar valor económico sem garantir, para já, valor bolsista.

Da fé à análise

Não se trata de negar o potencial da inteligência artificial. Trata-se de distinguir entre uma boa tecnologia e um bom investimento.

O mercado volta, finalmente, às perguntas certas: quanto fatura realmente a empresa com IA, que margem consegue extrair e quanto capital ainda terá de queimar até provar que o futuro também paga contas?

O futuro continua a existir

A correção não prova que a IA seja uma ilusão. Prova apenas que pode haver uma bolha nas expectativas, mesmo quando a inovação é genuína.

O futuro continua a existir. Mas já não basta anunciá-lo. É preciso demonstrá-lo.





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