A IA agêntica vai tirar o software do centro das organizações


A próxima transformação da inteligência artificial não está nos algoritmos. Está no fim das organizações estruturadas em torno de sistemas.

Segundo uma análise recente do Gartner, até US$234 bilhões dos gastos globais com aplicações corporativas podem ficar expostos à chamada arbitragem agêntica até 2030. O termo é técnico, mas a mudança é simples de entender: parte das atividades hoje realizadas dentro de diferentes softwares poderá passar a ser coordenada diretamente por agentes de inteligência artificial.

Durante quase quarenta anos, empresas organizaram operações em torno de softwares. Cada área ganhou o seu. O financeiro passou a operar no ERP. O comercial, no CRM. O RH, em plataformas próprias. Hospitais organizaram parte relevante de suas operações em torno do prontuário eletrônico, dos sistemas de imagem, de agendamento, faturamento, suprimentos e gestão de leitos.

Foi uma evolução extraordinária. Esses sistemas organizaram dados, padronizaram processos, aumentaram o controle e permitiram que instituições cada vez maiores operassem com previsibilidade. Mas tiveram uma consequência pouco discutida: passaram a organizar o trabalho em torno dos sistemas, e não em torno das decisões.

Essa lógica começa a mudar.

Hoje, para concluir uma atividade, um profissional muitas vezes precisa acessar diferentes sistemas, localizar informações, comparar dados, preencher campos, solicitar aprovações e transportar manualmente decisões entre plataformas.

Na lógica que começa a emergir, agentes de inteligência artificial podem acessar diferentes aplicações, reunir informações, executar etapas e entregar diretamente o resultado esperado. Diferentemente das automações tradicionais, que seguem fluxos previamente definidos, esses agentes podem consultar fontes distintas, utilizar diferentes ferramentas e adaptar seus próximos passos de acordo com as informações encontradas.

O software continua existindo. O ERP continua registrando transações. O CRM continua organizando relações comerciais. Mas esses sistemas deixam de ser necessariamente o lugar onde o trabalho começa e termina.

A interface perde centralidade. O resultado ganha centralidade. Essa mudança parece tecnológica. É organizacional.

Durante décadas, a transformação digital das empresas foi construída a partir de uma pergunta: qual sistema precisamos implantar? A resposta gerou sucessivas camadas tecnológicas. Um sistema para finanças, outro para pessoas, outro para compras, outro para clientes. Com o tempo, os sistemas deixaram de apenas apoiar o trabalho. Passaram a definir como o trabalho acontece. O processo se adapta ao software. A área se organiza de acordo com seus módulos. A responsabilidade segue permissões e telas. A própria estrutura da organização passou a reproduzir a estrutura das aplicações.

A inteligência artificial começa a romper essa dependência. Agentes conseguem interagir com ferramentas, consultar fontes distintas, executar tarefas em sequência e adaptar os próximos passos conforme o resultado encontrado. Em vez de o profissional navegar manualmente por diversos sistemas, uma camada de orquestração pode coordenar o trabalho entre eles.

Isso não elimina a necessidade de software. Elimina a ideia de que cada decisão precisa começar dentro da interface de um software.

Na saúde, a implicação é particularmente relevante. Hospitais estão entre as organizações mais complexas que existem. Um único atendimento pode envolver dezenas de aplicações e atravessar assistência, diagnóstico, regulação, farmácia, faturamento, logística e supply chain. É um dos setores em que a fragmentação de decisões produz maior perda de valor. E é onde a coordenação por meio de uma camada agêntica pode gerar ganhos mais expressivos, desde que precedida de arquitetura de decisão. Sem ela, agentes apenas automatizam a fragmentação existente com mais velocidade.

O risco é real. Colocar agentes sobre uma organização fragmentada não produz, por mágica, uma organização integrada. Se os dados são inconsistentes, o agente acessará inconsistências mais rápido. Se as responsabilidades são ambíguas, a automação ampliará a ambiguidade. Se ninguém sabe quem decide, um agente não resolve o problema. Apenas o torna mais perigoso.

Por isso, antes de implementar agentes em processos críticos, organizações precisam responder a perguntas elementares: qual decisão queremos melhorar; quem responde pelo resultado; que limites o agente deve respeitar; quais ações exigem validação humana; como a decisão será auditada. A tecnologia pode atravessar sistemas. A governança precisa atravessar junto.

O próximo diferencial competitivo talvez não pertença às organizações que acumularem mais sistemas. Nem às que implantarem mais agentes. Vai pertencer àquelas capazes de transformar tecnologias dispersas em uma arquitetura integrada de decisão. Não apenas interoperabilidade de dados. Interoperabilidade de decisões. Não apenas integração entre aplicações. Integração entre objetivos, responsabilidades e fluxos.

Durante décadas, perguntamos qual sistema precisávamos implantar. A próxima década exigirá uma pergunta diferente: “quais decisões precisamos integrar, e qual arquitetura permitirá que pessoas, agentes e sistemas trabalhem juntos para executá-las?”.

O software não está desaparecendo. Só está deixando de ser o centro.

E, quando o centro muda, a organização muda junto.

Inovar é necessário. Inovar bem é inegociável.

*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.



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