A ilusão da candidatura perfeita


A inteligência artificial pode reduzir barreiras no acesso ao financiamento e libertar recursos nas organizações. Mas também pode uniformizar candidaturas, acentuar desigualdades e criar processos em que textos produzidos por máquinas são avaliados por outras máquinas…

Há uma transformação silenciosa em curso nos processos de financiamento. As entidades apresentam candidaturas melhor estruturadas, os objetivos surgem claramente formulados, os indicadores estão alinhados com os resultados esperados e todos os projetos parecem inovadores, sustentáveis e escaláveis.

Ao mesmo tempo, muitas candidaturas começam a parecer-se demasiado umas com as outras…coincidência?

A inteligência artificial generativa permite hoje produzir, em poucos minutos, aquilo que anteriormente exigia vários dias de pesquisa, planeamento e trabalho. Pode organizar ideias, rever textos, traduzir conteúdos, sugerir indicadores, construir teorias da mudança e adaptar uma proposta aos critérios de determinado concurso.

Para organizações pequenas, com equipas reduzidas ou menores competências na preparação de candidaturas, esta evolução representa um passo importante pois podem deixar de estar tão dependentes da capacidade para contratar consultores, e dominar a linguagem técnica dos financiadores. Neste caso a inteligência artificial reduz o trabalho administrativo e permite que as equipas se concentrem mais na missão e menos no preenchimento de formulários.

A resposta, por isso, não deverá ser proibir a tecnologia.

Quando uma candidatura bem escrita não significa um projeto melhor

O principal risco reside em confundirmos qualidade formal com qualidade da intervenção.

Uma candidatura pode ser linguisticamente irrepreensível e completamente alinhada com os diferentes programas de financiamento e, ainda assim, assentar num diagnóstico insuficiente, numa relação frágil com a comunidade ou num modelo de intervenção pouco realista. A inteligência artificial melhora de facto a apresentação, mas não garante a relevância da necessidade, a capacidade da organização ou a exequibilidade do projeto.

Algumas fundações internacionais começaram já a reconhecer esta diferença.

O National Lottery Heritage Fund, no Reino Unido, informa os candidatos de que não serão excluídos por utilizarem inteligência artificial, mas alerta que os conteúdos gerados podem ser genéricos, incorretos ou impraticáveis, cabendo sempre ao candidato verificar a informação apresentada. A instituição publicou igualmente uma declaração sobre a sua própria utilização de IA, assumindo compromissos de transparência, formação e supervisão humana.

A Kent Community Foundation apresenta a IA como uma ferramenta de apoio à reflexão, redação e revisão, e não como substituto de uma candidatura genuína. Recorda também que um texto genérico, produzido exclusivamente por uma máquina, dificilmente terá o detalhe necessário para demonstrar a necessidade social, o conhecimento do território e a forma como a organização pretende atuar.

Também a London Community Foundation sublinha que não procura uma escrita perfeita, mas respostas claras, rigorosas e honestas. Reconhece os benefícios da tecnologia para quem enfrenta barreiras na comunicação, mas alerta para a necessidade de preservar profundidade, contexto local e a voz da própria organização. Neste caso a Fundação declara ainda que não utiliza atualmente IA nos processos de decisão sobre financiamento.

Estes exemplos revelam uma preocupação comum: a inteligência artificial pode apoiar a candidatura, mas a responsabilidade pelo conteúdo continua a pertencer à organização que a apresenta.

O risco da “candidatura média”

A utilização generalizada das mesmas ferramentas pode produzir uma espécie de candidatura média: formalmente correta, conceptualmente alinhada e linguisticamente convincente, mas progressivamente afastada da singularidade de cada organização e de cada território.

Repetem-se os mesmos conceitos, as mesmas estruturas e os mesmos compromissos com inovação, impacto, sustentabilidade e escalabilidade…

A vertente humana, o conhecimento vivido, a dúvida, a complexidade e até alguma imperfeição (também ela humana) são substituídos por narrativas demasiado perfeitas.

Este fenómeno pode prejudicar sobretudo os projetos menos convencionais. Desta forma, iniciativas emergentes ou em experimentação e respostas difíceis de enquadrar em categorias padronizadas poderão parecer menos consistentes do que projetos cuja linguagem foi meticulosamente adaptada às expectativas do financiador.

Surge igualmente uma nova desigualdade. As organizações com maior capacidade financeira e tecnológica saberão utilizar ferramentas mais avançadas, construir melhores instruções e integrar dados mais completos. Outras ficarão dependentes de versões gratuitas, potencialmente menos seguras e capazes apenas de produzir respostas genéricas.

E quando as fundações também utilizam inteligência artificial?

Mas esta análise não pode concentrar-se apenas nos candidatos. As próprias fundações estão a utilizar, ou poderão vir a utilizar, IA para resumir relatórios, verificar requisitos, organizar informação, apoiar diligências, preparar processos de decisão ou analisar grandes volumes de candidaturas aos programas que promovem.

A Foundation Scotland admite várias utilizações internas, mas estabelece uma fronteira clara: os conteúdos, recomendações e resultados produzidos por IA devem ser revistos por pessoas e não pode existir decisão automatizada sem supervisão humana.

No financiamento da investigação científica, as cautelas são ainda maiores. A Wellcome exige a declaração da utilização substantiva de IA nas candidaturas, com exceções para determinados apoios linguísticos. Por sua vez, a Cancer Research UK proíbe os avaliadores de introduzirem conteúdos confidenciais das candidaturas em ferramentas generativas ou de utilizarem essas ferramentas para redigir os seus pareceres.

Estas preocupações são particularmente relevantes porque as candidaturas podem conter dados pessoais, informação financeira, estratégias institucionais, propriedade intelectual ou informação sobre comunidades vulneráveis.

Existe ainda uma questão de transparência. Se uma fundação utilizar IA para selecionar, hierarquizar ou resumir candidaturas, os candidatos deverão saber em que medida essa tecnologia intervém no processo. As fundações não podem exigir transparência às organizações que apoiam e manter opacas as suas próprias práticas.

As perguntas que o setor deve colocar

Mais do que adotar imediatamente regras uniformes, o setor fundacional português necessita de analisar como estas ferramentas já estão a ser utilizadas e quais são os seus efeitos.

Importa compreender se a IA está efetivamente a facilitar o acesso ao financiamento ou apenas a elevar o nível formal exigido a todas as organizações. Será necessário avaliar se os formulários continuam adequados num contexto em que respostas extensas podem ser produzidas automaticamente e se a análise de candidaturas está excessivamente dependente da qualidade da escrita.

Deverá também ser discutida a fronteira entre apoio legítimo e substituição da autoria; quando deve existir declaração da utilização de IA; que informação nunca poderá ser introduzida em ferramentas públicas; como assegurar supervisão humana; e de que forma se protegem organizações com menor capacidade digital.

A questão central não deverá, portanto, ser apenas: “Esta candidatura foi escrita por inteligência artificial?” mas sim “A necessidade é real, a proposta é exequível, a organização conhece o território e a decisão de financiamento é justa?”

Ao nível das instituições que se candidatam a programas, a inteligência artificial pode melhorar a forma como apresentamos os projetos, mas não pode substituir aquilo que os torna relevantes: o conhecimento das comunidades, a experiência das organizações, a confiança construída no território e o julgamento humano de quem decide apoiar.

Ao nível dos financiadores, a principal promessa da tecnologia não deverá ser permitir analisar mais candidaturas com menos pessoas, mas sim libertar tempo administrativo para conhecer melhor as organizações, acompanhar os projetos e construir relações de maior confiança.

É nesse equilíbrio, entre eficiência e proximidade, inovação e responsabilidade, tecnologia e julgamento humano, que se decidirá se a inteligência artificial contribuirá para uma filantropia mais acessível e justa ou apenas para candidaturas cada vez mais perfeitas e cada vez mais iguais.

Os financiadores sabem bem que a candidatura mais perfeita nem sempre corresponde ao projeto que mais merece ser apoiado.



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