Será que estamos começando a falar com a voz do “chorume digital” escrito por inteligência artificial? Os efeitos inesperados do convívio diário com a IA
Eu estava procurando materiais para uma palestra sobre inteligência artificial e arte. Após algumas horas de leitura, percebi que todos falavam com uma única voz. E então, decidi jogar o meu próprio texto em um verificador de conteúdo…
Tudo soava fluido. E era exatamente isso o pior
“A inteligência artificial não é apenas um desafio para o artista, é também uma oportunidade para enriquecer o seu talento.” Li essa frase e senti uma leve pontada de irritação. Aquela incômoda, sutil. Teoricamente, está tudo certo. O problema é que vejo essa estrutura frasal em todos os lugares: “Não é apenas isso, é também…”
Eu buscava inspiração para uma palestra sobre inteligência artificial e arte. Um tema que pessoalmente me fascina e, ao mesmo tempo, me assusta um pouco. Queria ver como as pessoas escreviam sobre ele. Abri o notebook, fiz uma pesquisa e comecei a ler. Tudo soava fluido, sensato, mas surpreendentemente parecido. “A IA cria imagens. Sem pretensão. Sem espalhar tinta desnecessariamente na tela. Sem a espera romântica pela inspiração.” Soa bem? Sim. Mas veio novamente a sensação: eu já li isso. Milhares de vezes.
Chorume digital
Continuei lendo e tive uma sensação cada vez mais forte de que aqueles textos eram espantosamente parecidos. Como se tivessem sido feitos no mesmo molde. Mudavam os títulos, os autores, os portais. A leitura era fácil, mas não resultava em nada. Nenhuma reflexão mais profunda.
Foi então que me deparei com o termo “AI slop”. Feio, mas certeiro. Slop, ou seja, chorume, lavagem. Conteúdo produzido em massa que finge ser uma reflexão, mas é apenas um amontoado de frases prontas.
A Wikipedia o define assim:
“AI slop, ou simplesmente slop — conteúdos digitais gerados por meio de inteligência artificial generativa que são percebidos como carentes de esforço, qualidade ou significado profundo, e que são produzidos em grande quantidade.”
E, de repente, senti um calafrio, porque percebi que isso já não é mais a margem da internet, mas sim a norma.
“Para entender a lavagem contemporânea, é preciso imaginar as pessoas consumindo conteúdo da mesma forma que os porcos consomem a lavagem. O objetivo da lavagem dos porcos é fornecer o máximo de nutrientes pelo menor custo possível; o objetivo do chorume gerado por IA é prender o público no consumo do conteúdo pelo maior tempo possível, também pelo menor custo possível. Existe o chorume de comédia, literário, artístico, de nicho, o chorume infantil, o chorume político — mas, no chorume, o conteúdo sempre importa menos do que o simples fato de você estar olhando para ele.” — Oliver Whang, The New York Times
E então o detector disse: “Não foi você”
Eu já tinha o rascunho da minha palestra. Meu. Escrito por mim mesma, com base nos materiais coletados e nas minhas próprias reflexões. Por curiosidade, joguei-o em uma dessas ferramentas online que prometem identificar se um texto foi escrito por um ser humano ou por inteligência artificial.
O resultado? Provavelmente IA.
Primeiro eu ri. Depois, me senti desconfortável.
É claro que sei que esses detectores costumam falhar. Mesmo assim, a experiência mexeu comigo. Porque pensei: e se, após semanas absorvendo esse chorume da internet, eu mesma comecei a estruturar as frases da mesma forma? E se o estilo da IA impregnou o meu pensamento, assim como o cheiro do cigarro impregna na roupa?
Esse é, provavelmente, um dos problemas mais traiçoeiros. Tenho a impressão cada vez mais forte de que as pessoas, alimentadas por uma enxurrada de textos escritos por IA, estão começando a falar a língua dela.
Mas a IA pode nos ensinar alguma coisa?
Não quero fingir que a questão é simples. Porque não é. Muitos textos revisados por IA realmente se tornam mais fáceis de ler. Têm uma sintaxe melhor. Podem criar comparações incomuns que aguçam a imaginação.
Às vezes, a IA ajuda a encurtar uma frase que se espalhou como chá derramado na mesa. E pode até mostrar que o autor ama tanto a própria digressão que acabou perdendo o leitor pelo caminho. Isso traz disciplina ao criador.
Talvez, então, a inteligência artificial possa nos ensinar um pouco. Clareza. Cuidado com a forma. Pensar no público, que não está dentro da nossa cabeça e não tem a obrigação de entender atalhos que para nós são óbvios. No entanto, pessoalmente, tenho medo disso.
A pergunta mais importante é: por que estou fazendo isso?
Depois daquela experiência, voltei ao rascunho da palestra e comecei a lê-lo de novo. Mas não sob a ótica de saber se parecia bonito. Em vez disso, perguntei: isso é meu? Eu realmente penso assim? Essa frase faz sentido ou apenas tem uma boa aparência? Esta palestra vai ajudar alguém a enxergar um problema com mais clareza ou serve apenas para dar a impressão de que a autora é brilhante?
Porque acho que é aqui que corre a linha divisória. Nós consumimos o chorume digital toda vez que lemos mais uma história exagerada, sensacionalista e desprovida de uma moral profunda. Nós o absorvemos toda vez que comentamos “Amém” sob uma imagem gerada por IA com o apelo: “Se você ama Maria, escreva Amém”.
Isso se torna parte de nós toda vez que compartilhamos uma imagem com a legenda: “Hoje é meu aniversário, ma s ninguém vai curtir minha foto porque sou um veterano”.
Leiamos conteúdos de valor, apreciemos obras criadas por artistas humanos de verdade. Ouçamos música — talvez imperfeita, ma s feita por pessoas reais, com alma e coração, em vez desse chorume de IA, padronizado e desprovido de profundidade.











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