Carta ao Leitor: A IA é humana


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A perspectiva histórica é sempre educativa. No século XIX, um movimento de trabalhadores têxteis ingleses protestava contra o uso de alguns modelos de máquinas que supostamente roubariam empregos, reduziriam os salários e poriam as famílias em severas dificuldades financeiras. Por meio de ataques organizados e simultâneos, a sabotagem coletiva destruía os equipamentos, sem dó nem piedade. Os revoltosos se autointitulavam luditas — seguidores de Ned Ludd, um tecelão cujo nome era usado como pseudônimo em cartas ameaçadoras para proprietários de fábricas e funcionários do governo.

O tempo mostrou que a grita era exagerada e o pavor, desmedido — e a tecnologia representaria um avanço para a civilização em todos os sentidos, com respeito a mão de obra, eliminação do trabalho infantil e mais riqueza. A má distribuição de renda, um problema da civilização, sempre teve mais a ver com más decisões políticas e descontrole das contas públicas do que com o recurso a equipamentos modernos, porque assim caminha a humanidade. A explosão do ludismo, de relevância nos anos 1800, é símbolo de comportamento recorrente — a revolta contra a inovação, que começa com espanto e, ao fim, termina com a percepção de muito barulho por nada, desde que sejam estabelecidas normas éticas para a instalação das novidades revolucionárias.

Três capas da revista Veja sobre inteligência artificial: uma mão humana e uma robótica se tocam; um robô segura um globo terrestre; um robô sorridente digita em um notebook
JORNALISMO - Capas de VEJA em torno da inteligência artificial: atenção desde o início da eclosão da ferramenta (./.)

Foi assim com o computador pessoal, foi assim na gênese da internet e tem sido assim com a inteligência artificial (IA). Uma minuciosa reportagem desta edição, assinada pelo editor Alessandro Giannini, investiga os humores da sociedade a partir de dados ruidosos: pesquisas globais indicam que 66% das pessoas já trabalharam com algum tipo de IA, mas 50% têm receio de usá-la. E mais: 35% temem perder o emprego para os robôs nos próximos cinco anos e 80% defendem que as empresas sejam obrigadas por lei a avisar quando oferecerem serviços com o apoio de algoritmos. É momento interessante demais para ser desdenhado, e VEJA se orgulha de ter acompanhado a eclosão da IA desde o princípio, em sucessivas capas, com o olhar humano, demasiadamente humano, de seus profissionais. Não é o caso de acessar uma bola de cristal inexistente, mas brota uma evidência a partir da evolução técnica e da compreensão do que é possível ou não fazer, de onde se pode chegar: a IA, atrelada a bom senso e regulação onde for preciso regulá-la, logo será tratada como oxigênio — não apenas respirável, mas necessária, apesar das imperfeições. A inteligência artificial é humana.

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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008



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