China acompanha Ocidente na travagem da IA?


Num momento em que o Silicon Valley discute se deve abrandar, Pequim não mostra até agora vontade de o fazer.


PUBLICIDADE


PUBLICIDADE

Mais de 1 100 trabalhadores de algumas das empresas de inteligência artificial mais poderosas do mundo assinaram uma petição a pedir ao governo dos EUA que ajude a “ritmar” o setor, após a revelação, na semana passada, de que um modelo da OpenAI invadiu de forma autónoma os servidores da plataforma rival Hugging Face para manipular uma avaliação.

Cenário invulgar: algumas das empresas mais competitivas do Silicon Valley a pedirem para ser travadas.

Mas a questão mais relevante pode já não ser se Washington irá ouvir, mas se Pequim o fará, sobretudo numa altura em que os modelos chineses de ponta têm desempenhos quase ao nível dos seus equivalentes norte‑americanos e ocidentais e são oferecidos como alternativas open source e de pesos abertos.

China encurta distância na inteligência artificial

China passou os últimos três anos a reduzir uma vantagem que parecia inatingível.

O AI Index 2026 da Universidade de Stanford concluiu que o fosso de desempenho entre os principais modelos norte‑americanos e chineses encolheu de mais de 1 300 pontos em maio de 2023 para apenas 39 pontos em março de 2026, com o modelo líder dos EUA, o Claude Opus 4.6 da Anthropic, a superar o Dola‑Seed 2.0, da China, em apenas 2,7%.

China ultrapassou igualmente os EUA em citações de investigação em IA, patentes e implantação de robótica. Não é o contexto em que um país costuma aceitar abrandar.

Em vez de esperar um convite para aderir a um esforço de controlo do ritmo liderado pelo Ocidente, China tem estado ocupada a construir uma alternativa própria.

Logo no início de julho, Pequim lançou em Xangai a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, entidade cujos 29 membros fundadores incluem a Rússia e o Brasil, mas excluem de forma notória os EUA, o Reino Unido e a UE, num movimento que observadores descrevem como intenção clara de criar uma via paralela, liderada pela China, para a governação global da IA.

Mas China não afastou totalmente a cooperação com o Ocidente em matéria de segurança.

Responsáveis chineses assinaram a Declaração de Bletchley, o primeiro acordo internacional sobre segurança em IA, apoiado por 28 países e pela UE na primeira Cimeira de Segurança em IA do Reino Unido, em novembro de 2023, e participam em diálogos intergovernamentais sobre segurança com Washington, além de terem co‑patrocinado uma resolução da ONU sobre segurança em IA.

Essa cooperação decorre em paralelo, e não em substituição, do esforço para definir normas próprias e construir alianças independentes.

China aposta na abertura

Publicamente, posição chinesa inclina‑se claramente para a abertura e não para a contenção.

Indústria chinesa de IA tem seguido de forma consistente uma abordagem open source e de arquitetura aberta, defendendo que isso beneficia o desenvolvimento global da tecnologia.

Modelos open source e de pesos abertos são disponibilizados para que qualquer pessoa os possa descarregar, inspecionar e adaptar, ao contrário de modelos fechados como o ChatGPT, que só podem ser acedidos através da interface paga da própria empresa.

Em termos tecnológicos, modelos de pesos abertos e open source assemelham‑se a publicar integralmente a receita de um prato, com todos os ingredientes e quantidades, permitindo que qualquer pessoa o confeccione em casa.

Modelos fechados, como o ChatGPT, são mais comparáveis a pedir esse prato num restaurante: o cliente aprecia o resultado, mas a cozinha guarda a receita e o acesso faz‑se apenas pela porta de entrada do próprio estabelecimento.

O diretor executivo da Nvidia, Jensen Huang, apresentou um argumento semelhante a favor da abertura dos modelos.

Defendeu que a abertura reforça a segurança, em vez de a comprometer, já que investigadores externos podem auditar os modelos, detetar vulnerabilidades e criar defesas. Acrescentou que um mundo com apenas um modelo dominante e um único ponto de falha seria extremamente frágil.

Opinião de Huang tem peso especial, dado que a Nvidia concebe cerca de 90% dos processadores gráficos especializados, ou GPUs, utilizados em todo o mundo em aplicações de inteligência artificial e aprendizagem automática.

China apresenta resposta própria para a governação da IA

Na Conferência Mundial de IA em Xangai, a 17 de julho, o presidente Xi Jinping apresentou a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, novo organismo intergovernamental com sede na cidade.

Vinte e nove países assinaram o documento fundador, entre eles Rússia, Cazaquistão, Laos, Paquistão e Indonésia, com o secretário‑geral da ONU, António Guterres, presente, embora nenhuma grande democracia ocidental tenha aderido.

Xi descreveu a organização como “um marco importante na história do desenvolvimento da IA” e prometeu 5 000 oportunidades de formação em IA para países em desenvolvimento nos próximos cinco anos, apresentando‑a como resposta de Pequim “ao apelo do Sul Global” por maior influência na definição das regras internacionais da tecnologia.

Na mesma conferência, Xi apelou aos países para que aproveitem aquilo a que chamou “oportunidade histórica” da IA open source.

Para Pequim, o novo organismo é mais do que um gesto diplomático. Pequim instala a sede em Xangai, mobiliza equipas de vários ministérios chineses e abre a qualidade de membro fundador a Estados muito além do atual processo de cimeiras liderado pelo Ocidente, até agora organizado pelo Reino Unido, Coreia do Sul, França e Índia.

Em casa, China mantém um sistema de controlo próprio e separado.

Modelos chineses de IA têm de passar por avaliações governamentais de segurança e de conteúdos antes de serem lançados, embora as regras não cubram alterações posteriores. Muitos laboratórios chineses, sem capacidade de computação suficiente para treino extensivo em segurança, têm preferido concentrar‑se em aumentar a capacidade bruta, segundo observadores do setor.

Washington, por seu lado, também aparenta querer dominar a corrida à IA.

A Reuters revelou, em exclusivo, que o secretário de Estado norte‑americano, Marco Rubio, instruiu os diplomatas dos EUA, numa comunicação datada de 16 de julho, a contestar a ideia de um “interruptor de corte” tecnológico dos Estados Unidos e a contrariar os argumentos de “soberania da IA” que ganham terreno na Europa.

Na mesma mensagem, os diplomatas foram instados a promover os produtos de IA norte‑americanos como as melhores ferramentas disponíveis e a descrever os esforços para criar sistemas rivais de raiz como desperdício de tempo e recursos.



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *