China quer oferecer inteligência artificial de graça para o mundo | Blogs | CNN Brasil


No dia 17 de julho, Xi Jinping subiu ao palco da Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai e fez um discurso que, visto pelo ângulo econômico, é tão estratégico quanto qualquer movimento militar ou comercial que a China já fez nos últimos anos.

Ele anunciou a criação da WAICO, uma nova organização internacional de cooperação em IA com 29 países-membros, e defendeu que o futuro da inteligência artificial deve ser aberto, colaborativo e compartilhado. ‘O desenvolvimento da IA não deve ser uma performance solo de um único país’, disse Xi, ‘mas uma sinfonia de cooperação internacional.’ 

A mensagem soa bonita. Mas ela também é um golpe direto no modelo de negócio americano. OpenAI, Anthropic e Google cobram pelo acesso aos seus modelos mais avançados.

DeepSeek, Qwen e Kimi, os grandes modelos chineses, são gratuitos ou quase gratuitos, com código aberto disponível para qualquer empresa ou desenvolvedor do mundo usar, adaptar e distribuir sem pagar nada.

O Qwen, desenvolvido pelo Alibaba, já é o modelo mais baixado do mundo, com 385 milhões de downloads, superando o Llama da Meta. Na plataforma OpenRouter, que agrega modelos de diferentes fornecedores, os quatro modelos mais utilizados atualmente são chineses. 

Os números de desempenho acompanham a estratégia de preço. Modelos como DeepSeek V4, Kimi K2 e Qwen-Plus fecharam a maior parte da lacuna de qualidade que antes separava os modelos americanos dos demais, e fazem isso a um custo até 60% menor do que as alternativas pagas.

Analistas chamam isso de AI dumping: a China está distribuindo inteligência artificial deliberadamente abaixo do custo de mercado para tornar os modelos fechados irrelevantes e transformar a camada de software em commodity. 

A estratégia encontra terreno fértil num momento em que as empresas ao redor do mundo estão  começando a se assustar com a conta da inteligência artificial.

Sam Altman, CEO da OpenAI, admitiu publicamente em junho que o custo com tokens passou de um assunto que ninguém mencionava no começo do ano para ‘um grande problema’ em poucas semanas.

Na Uber, o orçamento inteiro para ferramentas de IA de 2026 foi consumido em quatro meses. O mercado global de modelos de IA deve chegar a US$ 23,5 bilhões em 2026, segundo a Gartner, o dobro de 2025.

E o paradoxo é que o custo unitário por token caiu dramaticamente com a competição, mas as faturas das empresas continuaram subindo porque o consumo cresceu ainda mais rápido do que os preços caíram. 

É aqui que a história fica mais interessante do ponto de vista econômico. A IA pode estar prestes a repetir o caminho da internet. Nos anos 1990 e início dos anos 2000, as empresas de infraestrutura de rede, roteadores, cabos, servidores, eram as mais valiosas do mercado.

A Cisco chegou a ser a empresa mais valiosa do mundo em 2000. Depois, à medida que a infraestrutura foi se padronizando e barateando, o valor migrou para quem construiu aplicações em cima dela.

Google, Amazon, Facebook não fabricaram um único cabo ou roteador. Eles pegaram a infraestrutura que virou commodity e construíram os negócios mais valiosos da história. 

A pergunta que o mercado ainda não respondeu é se o mesmo vai acontecer com a IA. Hoje, Nvidia, OpenAI e os grandes provedores de cloud são os mais valiosos da cadeia: quem fornece os chips e quem fornece os modelos.

Mas se a China conseguir tornar os modelos de linguagem gratuitos, o que Xi Jinping explicitamente quer fazer, o valor pode migrar para quem usar esses modelos para resolver problemas reais em saúde, logística, finanças, educação.

Assim como aconteceu com a internet, os maiores beneficiados podem não ser os que constroem a estrada, mas os que decidem para onde ela leva. 

Para investidores, a questão é saber em qual parte dessa cadeia o dinheiro vai ficar. Se o modelo de IA virar commodity como o sistema operacional Linux virou, pagar múltiplos elevados por empresas cujo único diferencial é o modelo em si pode ser um erro caro.

O histórico da tecnologia sugere que a infraestrutura tende a se democratizar e que o lucro migra para a camada de aplicação. Xi Jinping pode estar certo sobre o futuro da IA.

Mas se estiver, os maiores ganhadores não serão necessariamente chineses nem americanos. Serão quem souber usar o que ficou barato para fazer algo que as pessoas realmente precisam. 



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