Conteúdos políticos de IA viralizam antes do início oficial da campanha. Má notícia para o eleitor: ferramentas de detecção falham


Um estudo produzido pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, em parceria com estudantes da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), identificou ao menos 40 casos — mais de dois por semana — de conteúdos criados por inteligência artificial que viralizaram nas redes sociais brasileiras entre fevereiro e junho e tratavam de política, inclusive da disputa eleitoral, muito antes do início oficial da campanha a partir deste domingo, dia 16. O levantamento identificou deepfakes com pedidos de voto, políticos retratados de forma sarcástica e avatares divulgando pesquisas eleitorais falsas.

Mais do que antecipar a tendência de uso de conteúdos sintéticos na disputa eleitoral deste ano, o relatório inédito, “A IA do Nosso Feed”, traz uma informação preocupante: as ferramentas gratuitas de detecção de conteúdo gerado por IA testadas pelo Observatório Lupa apresentaram muitas falhas.

Beatriz Farrugia, analista de pesquisa da Lupa e responsável pelo estudo, diz que o grupo se surpreendeu com a pobreza e a falta de precisão dos resultados apresentados pelas ferramentas gratuitas de identificação do uso de IA. Isso mostra o quanto será desafiador para o eleitor, muitas vezes, identificar materiais produzidos por inteligência artificial.

Em 20 casos testados, uma mesma imagem ou vídeo recebeu diagnósticos diferentes: uma ferramenta apontava indícios de uso de IA, enquanto outra considerava o material autêntico. Dos 226 conteúdos inicialmente suspeitos de uso de IA, 125 permaneceram inconclusivos porque não foi possível confirmar nem descartar o uso da tecnologia.

Farrugia ressalta que há um descompasso entre a velocidade com que as ferramentas de geração de IA avançam e a capacidade de detectar aquilo que elas produzem. Segundo ela, não existe uma solução simples que permita ao cidadão colocar um vídeo em uma ferramenta e confiar plenamente na resposta. Em uma eleição, quando um conteúdo falso pode viralizar rapidamente, essa fragilidade é ainda mais preocupante, afirma a analista da Lupa.

Em um dos exemplos mais gritantes de falhas encontrados pelo estudo, duas ferramentas classificaram como autêntico um deepfake de Lula e Jair Bolsonaro dançando juntos, vestidos como líderes de torcida.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a figura pública que mais apareceu nos conteúdos produzidos por IA, com 17 ocorrências, seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com 16, e pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, com oito.

Segundo o relatório, Lula foi alvo de peças políticas e humorísticas, incluindo vídeos falsos nos quais supostamente prometia cortar aposentadorias ou prender críticos. Já Bolsonaro apareceu em conteúdos que promoviam a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência. O candidato do PL ao Planalto foi o quarto nome mais citado nos conteúdos sintéticos comprovados identificados nesse período, todos de caráter eleitoral.

O estudo chama atenção para um deepfake do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) divulgando uma pesquisa falsa que colocava o senador Flávio Bolsonaro à frente de Lula no primeiro turno.

O levantamento foi por especialistas da Lupa, junto com 13 estudantes da FAAP, que monitoraram, durante quatro meses, os próprios feeds no Instagram, Facebook, X, TikTok e WhatsApp e armazenaram conteúdos que despertavam suspeita de terem sido criados ou manipulados por IA. A coleta foi espontânea, sem direcionamento para temas ou perfis.

Dos 226 conteúdos suspeitos de serem sintéticos, 101 eram de fato produzidos com IA, e 40% deles versavam sobre política. O vídeo foi o formato mais popular, representando 91% dos conteúdos comprovadamente sintéticos. Apenas nove eram imagens estáticas.

O Observatório Lupa destaca que os resultados do estudo reforçam o que já havia sido apontado pelo “Panorama da Desinformação”, publicado em fevereiro. O levantamento mostrou um salto na presença de IA entre os conteúdos falsos analisados pela Agência Lupa: de 4,65% para 25,77% em um ano.

Pela primeira vez, aponta a Lupa, conteúdos sintéticos de desinformação eleitoral superaram aqueles relacionados a golpes e fraudes financeiras.



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