A instituição está a investigar a hipótese de milhares de candidatos terem recorrido à inteligência artificial para resolver a prova, que, pela primeira vez, foi realizada online
Daniel Fernando García Velázquez fez o exame de admissão para a universidade mais famosa do México quatro vezes, antes de finalmente obter o resultado que lhe deveria ter garantido a admissão.
Nas suas três primeiras tentativas, não teve outra opção senão percorrer os 400 km, desde a sua terra natal, Veracruz, até à Cidade do México para fazer o exame. A prestigiada Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) insistia que este tinha de ser realizado presencialmente.
Na sua quarta tentativa – e aquela que deveria ter sido vitoriosa -, em junho deste ano, ele viajou na mesma, apesar de, desta vez, pela primeira vez na história da universidade, o exame ser realizado online.
Desta vez, Velázquez obteve excelentes resultados no exame – 94 em 120, o que deveria ter-lhe garantido uma vaga no curso de Comunicação e Jornalismo, ministrado pela Escola de Estudos Superiores de Aragón, da UNAM.
No entanto, apesar desse resultado, Velázquez não sabe se lhe será permitido frequentar o novo semestre, que começa já no dia 10 de agosto, porque a UNAM suspendeu as matrículas enquanto lida com um escândalo relacionado com suspeitas de fraude generalizada.
A UNAM anulou milhares de exames, depois de os resultados terem revelado um número invulgarmente elevado de notas máximas, sugerindo que alguns estudantes recorreram a esquemas de fraude, quer através da utilização de ferramentas de inteligência artificial, quer obtendo as perguntas antecipadamente. Embora apenas cerca de 3 mil das cerca de 150 mil provas tenham sido invalidadas, todos os estudantes, incluindo aqueles que, tal como Velázquez, não são suspeitos de fraude, ficaram numa situação de incerteza, à espera do resultado da investigação da UNAM sobre o assunto.
Para agravar ainda mais a situação da UNAM, muitos dos estudantes que se sentem tratados injustamente estão agora a culpar o sistema de vigilância por IA que deveria garantir que o exame fosse à prova de fraude.
O alvoroço resultante chegou aos mais altos escalões políticos, com a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, ela própria licenciada em Física pela UNAM – a sugerir, na terça-feira, que a universidade recorra à ajuda do procurador-geral para esclarecer o caso.
Símbolo do México contemporâneo
A história da UNAM remonta ao século XVI, quando o governo fundou o que na altura se denominava Universidade Real e Pontifícia do México. Conheceu autonomia em 1929 e, desde então, tornou-se um símbolo do México contemporâneo, um centro de movimentos políticos e sociais e uma plataforma de mobilidade social, num país onde o Ensino Superior privado é proibitivamente caro para muitos.
Consequentemente, a concorrência pelas vagas é feroz. Todos os anos, mais de 100 mil candidatos se inscrevem para ingressar na universidade e, normalmente, entre 80% e 90% são rejeitados. O exame de admissão ao curso de licenciatura tem 120 perguntas e a pontuação mínima necessária para ser aprovado varia consoante a procura por cada disciplina, sendo que Medicina costuma estabelecer o nível mais elevado devido à sua popularidade.
Os rigorosos critérios de admissão da universidade levam frequentemente a protestos que exigem que esta disponibilize mais vagas nas suas salas de aula.
A UNAM esperava que a sua decisão de realizar o exame online este ano tornasse o exame mais acessível e equitativo para os estudantes, uma vez que estes não teriam de viajar de todo o país até aos locais de exame, que se situam principalmente na Cidade do México e arredores.
Para evitar fraudes, a universidade afirmou que um sistema baseado em inteligência artificial “permitiria a captura e o registo de qualquer comportamento e ação realizados por cada candidato”, o que seria utilizado em apoio aos supervisores humanos.
O que correu mal?
Mais de 150 mil pessoas em todo o México realizaram o exame deste ano, que decorreu aos fins de semana durante os meses de maio e junho, competindo por apenas 21 962 vagas disponíveis.
Um mês depois, pouco antes da data prevista para a divulgação dos resultados, a UNAM fez um anúncio surpresa: 2% dos exames – cerca de 3 000 – tinham sido invalidados devido à deteção de “comportamentos contrários ao estabelecido no Edital de Inscrições e na Legislação Universitária”.
Na altura, não foram fornecidos mais detalhes. No entanto, veio a saber-se que os resultados revelaram um número invulgarmente elevado de exames com pontuações perfeitas, o que sugere que alguns estudantes possam ter recorrido a fraude utilizando ferramentas de inteligência artificial ou obtendo as perguntas antecipadamente.
“É realmente chocante devido ao número de estudantes que obtiveram nota máxima no exame, algo que nunca tínhamos visto antes. O número triplicou em comparação com os anos anteriores”, afirmou Alma Maldonado, membro da comissão técnica nomeada para investigar a situação, numa entrevista ao programa “Perspectivas”, da CNN.
“Além disso, o número de alunos que não acertaram nenhuma resposta ou que acertaram apenas uma ou duas também aumentou, o que levanta muitas suspeitas”.
Entretanto, tem havido uma enxurrada de vídeos virais no TikTok e noutras plataformas de redes sociais, nos quais os utilizadores alegadamente mostram como enganar os sistemas de monitorização do exame.
Daniel Flores Miranda, outro jovem que fez o exame, disse à CNN que um conhecido lhe ofereceu um programa de computador que resolveria o teste por ele.
Ele revela que o custo era de 2 500 pesos mexicanos (pouco mais de 125 euros) e, embora não o tenha utilizado, sabe de pessoas que o fizeram e foram aprovadas.
O que acontece a seguir?
A Territorium Life, empresa contratada pela UNAM para administrar o exame, defendeu os seus sistemas de vigilância perante as queixas de alguns estudantes de que havia uma dependência excessiva da IA e insuficiente dos supervisores humanos.
Na carta enviada à comissão técnica, a empresa afirmou que a sua plataforma “funcionou conforme planeado” e que a sua integridade “não depende exclusivamente da infraestrutura tecnológica. Requer a coordenação de dois componentes indissociáveis: segurança tecnológica e segurança académica”.
Para os futuros estudantes, continua a não ser claro quem é que poderá, exatamente, ocupar as vagas já este mês.
A UNAM informou, entretanto, que tinha recebido os resultados da investigação da comissão e que esta tinha constatado que alguns candidatos tinham recorrido a fraude utilizando telemóveis, a ajuda de acompanhantes e até mesmo a falsificação de identidade durante o exame.
Consequentemente, anunciou que iria realizar um exame de controlo – desta vez, presencial – a todos os candidatos que obtiveram uma nota suficiente para serem aprovados, quer este ano, quer nos últimos cinco anos, o que equivale a cerca de 58 mil candidatos.
As datas e os locais do exame de recuperação ainda não foram divulgados, embora a comissão tenha recomendado que este se realize “o mais rapidamente possível”, para minimizar as perturbações no semestre.
O reitor da UNAM, Leonardo Lomelí, apelou a todos os candidatos desta edição para que demonstrem “comportamento ético”.
“A fraude não só prejudica a instituição, como prejudica a sociedade no seu conjunto, corrói o tecido social e é uma prática que temos de erradicar”, afirma.
*Mario González colaborou na elaboração desta reportagem











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