Gasto acelerado com IA gera impacto bilionário no caixa das big techs | Empresas


O ritmo acelerado de gastos de capital (capex) em infraestrutura de inteligência artificial afetou o fluxo de caixa livre da Alphabet –dona do Google-, Amazon, Meta e Microsoft. Mas para analistas consultados pelo Valor, a demanda de empresas de diversos setores por IA justifica o aumento dessas despesas e a redução do caixa. A tendência para os próximos trimestres é de continuidade de capex em alta, mas com projeção de retorno em dois a três anos, projetam os especialistas.

A Alphabet encerrou o segundo trimestre com fluxo de caixa negativo de US$ 5,9 bilhões, queimando caixa pela primeira vez desde sua abertura de capital, em 2004. A Amazon reportou caixa negativo em US$ 7,6 bilhões, após três anos com fluxo positivo. A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp reduziu seu caixa em 91% na comparação anual, encerrando junho com reserva de US$ 784 milhões. E a Microsoft fechou seu quarto trimestre fiscal com caixa de US$ 19,6 bilhões, redução de 23% ante o mesmo período do ano anterior.

Apesar da apreensão dos investidores sobre as despesas elevadas das big techs, o economista-chefe da Avenue, William Alves, nota que o crescimento das receitas de serviços de nuvem e inteligência artificial das empresas Alphabet, Microsoft e Amazon, responde a uma demanda real e ainda crescente por estes serviços. “As próprias empresas estão dizendo que não conseguem atender a demanda e por isso precisam investir mais”, nota Alves. “Elas conseguiram finalmente afastar as preocupações sobre uma bolha de IA.”

A receita da Amazon Web Services (AWS), líder do mercado de nuvem, alcançou US$ 42,2 bilhões no segundo trimestre, um crescimento de 36,7% na base anual.

A Microsoft, segunda colocada no setor, teve alta de 43% na receita com a plataforma Azure, no quarto trimestre fiscal de 2026. No ano fiscal, a receita da divisão de nuvem bateu a marca de US$ 100 bilhões, destacou o executivo-chefe (CEO) da empresa, Satya Nadella, em comunicado. “Estamos expandindo as fronteiras da curva de custo versus resultados, garantindo que cada cliente possa transformar tokens em resultados de negócios”, disse o executivo.

Já o Google Cloud, com a terceira posição no mercado de nuvem, apresentou o maior salto de receita entre as concorrentes. As vendas de US$ 24,8 bilhões entre abril e junho superaram em 82% o resultado obtido um ano antes.

Em conferência com analistas, na quinta-feira (30), o CEO da Amazon explicou que, mesmo com o aumento da projeção de gastos de US$ 200 bilhões para US$ 220 bilhões em infraestrutura este ano, a Amazon ainda não terá “capacidade suficiente para atender a toda a demanda que teremos em 2026”, sinalizando que a dinâmica será mantida em 2027. O executivo também detalhou que os data centers oferecem “mais de 30 anos de monetização sem necessidade de capital inicial adicional” e que os servidores e equipamentos de rede atingem o ponto de equilíbrio sobre investimentos em menos de três anos. Já os “clientes geralmente contratam capacidade de IA por pelo menos cinco anos.”

Para os analistas, as informações compartilhadas por Nadella e pelo CEO da Amazon, Andy Jassy, foram suficientes para acalmar o mercado sobre os gastos de capital das big techs.

Na sexta-feira (31), as ações da Amazon fecharam em alta de 15,32% na bolsa americana Nasdaq, colaborando para a recuperação dos papéis da Alphabet, com alta de 6,88%.

A Microsoft teve alta de mais de 15% no valor das ações após a divulgação do balanço, na quarta-feira (29). Na sexta-feira, as ações da companhia fecharam em alta de 3,02%.

O sócio do fundo Global Tech da São Pedro Capital, José Medeiros, afirma que a explicação de Jassy sobre a lógica de retorno sobre os investimentos em infraestrutura de IA vale para todas as hyperscalers [empresas de serviços de nuvem e IA em larga escala]. “Conforme ele explicou, o negócio se paga dentro de dois a três anos, incluindo as unidades de processamento gráfico (GPUs, na sigla em inglês) e a construção dos data centers. Só que os contratos da AWS são de pelo menos cinco anos”, diz Medeiros. “Considerando que uma GPU pode ter uma duração de dez anos e o retorno dos investimentos com uma margem incremental, o investidor vai apoiar esse capex [gasto de capital]”, ele observa.

Olhando para a demanda corporativa de IA, a analista da Legacy Capital, Letícia Tonholo projeta que a receita de inteligência artificial da AWS, que alcançou US$ 25 bilhões no segundo trimestre, dobrará até o fim do ano. “Essa demanda deve continuar crescendo, porque a adoção de IA pelas empresas ainda está no começo”, afirma Tonholo.

O analista de Global Tech do Itaú BBA, Stephano Gabriel, observa que o avanço da receita de nuvem da Alphabet terá continuidade. “O segmento de Google Cloud sai de um crescimento de 40% no quarto trimestre de 2025, na base anual, para alta de 60% no primeiro trimestre e, agora, de mais de 80%. Fazendo algumas estimativas em cima do ‘backlog’ [receita projetada em contratos] podemos ver essas receitas acelerando em mais de 100% ao ano, até o final do ano”, afirma.

Entre as cinco principais empresas de tecnologia americanas, a Meta Platforms enfrentou a reação mais pessimista do mercado aos resultados trimestrais. As ações caíram mais de 10% após a empresa apresentar um lucro por ação abaixo das estimativas de analistas e nova projeção de aumento de gastos com infraestrutura computacional.

O resultado refletiu despesas de US$ 2,4 bilhões com processos judiciais e de US$ 1,18 bilhão em custos de indenizações. Em maio, a empresa demitiu cerca de 8 mil funcionários (10% da equipe global).

O fluxo de caixa livre da empresa de Mark Zuckerberg caiu 91% para US$ 784 milhões, ante US$ 8,55 bilhões no ano anterior, devido aos investimentos pesados em data centers de IA. A estratégia também elevou a estimativa de capex anual para um valor entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões para apoiar a expansão agressiva de data centers voltados para IA.

Na visão dos especialistas, a entrada da Meta na oferta de serviços de computação em nuvem, gerando receita com capacidade computacional excedente, e os avanços de IA sobre a geração de anúncios trazem sentido à elevação do capex. “É um cenário completamente diferente do que vimos em 2022, quando a empresa estava gastando com o metaverso [na divisão Reality Labs] e sentiu um impacto de US$ 10 bilhões em receita diante das mudanças na privacidade de anúncios da Apple”, compara Medeiros, da São Pedro Capital.

A mudança de perspectiva dos investidores sobre aumento de gastos pode não ter sido uma notícia tão favorável à Apple, que corre por fora dos mercados de serviços de nuvem e IA em larga escala. “Como a Apple não tem esses gastos elevados com infraestrutura de IA em uma operação de ‘hyperscale’, manteve o fluxo de caixa muito positivo. Mas a situação mudou muito após esses últimos anúncios [sobre retornos de investimentos em IA]”, observa o sócio da São Pedro Capital.

A semana da dona do iPhone começou no topo do ranking das empresas mais valiosas do mundo, superando o valor de US$ 5 trilhões, e terminou com uma queda de 7,35% em suas ações na sexta-feira. Embora tenha elevado o lucro líquido e a receita, a companhia não alcançou a estimativa de crescimento de receita na China e no segmento de serviços, que inclui assinaturas de conteúdos e armazenamento de dados na nuvem. A expectativa de manutenção destes patamares para serviços e vendas no mercado chinês no próximo trimestre também não agradou ao mercado.

A inflação no mercado de chips de memória gera preocupação com as margens de lucro da Apple, mesmo com um portfólio de dispositivos mais caros, no segmento premium. “Historicamente, ela era mais relevante entre os fornecedores [de chips], mas agora os fornecedores têm dado prioridade à cadeia de data centers”, nota Gabriel, do Itaú BBA.



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