A inteligência artificial (IA) está a afirmar-se como o grande tema de investimento da atual geração, mas nem todas as empresas associadas à tecnologia serão vencedoras. A conclusão é de Michael Heldmann, CIO Equity na Allianz Global Investors, que defende uma abordagem mais seletiva num mercado marcado por fortes expectativas, elevados investimentos e avaliações exigentes.
O responsável compara o atual entusiasmo em torno da IA com os primeiros anos da internet. No final da década de 1990, a transformação provocada pela nova tecnologia era evidente, mas muitos investidores que apostaram indiscriminadamente em empresas ligadas à internet acabaram por se desiludir. Já quem identificou negócios com modelos sustentáveis e manteve o investimento durante o período de maior volatilidade conseguiu obter resultados expressivos.
Para Heldmann, a situação atual apresenta algumas semelhanças. A tecnologia é efetivamente transformadora, os ganhos de produtividade já são visíveis em vários setores e a adoção está a acelerar. Ainda assim, “nem todas as empresas que usam a etiqueta IA serão vencedoras”.
A questão, por isso, não será saber se vale a pena investir em IA, mas como fazê-lo.
É na camada de infraestrutura que o cenário permanece mais claro. Empresas como a Nvidia, que desenvolvem os chips especializados necessários para alimentar sistemas de IA, continuam no centro deste ciclo de investimento.
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À medida que empresas de todo o mundo aceleram a implementação de soluções de IA, a procura por capacidade computacional, armazenamento e transmissão de dados e software continua a crescer. Os investimentos em cloud de gigantes como Google, Amazon e Microsoft permanecem em aceleração, impulsionados pelo aumento das cargas de trabalho relacionadas com IA.
A aposta não se limita aos Estados Unidos. Os principais grupos tecnológicos chineses, frequentemente agrupados sob a designação de “Terrific Ten”, estão também a aumentar significativamente os investimentos e a aproximar-se dos seus concorrentes norte-americanos em termos de crescimento das avaliações bolsistas.
Os principais fabricantes de chips registaram um crescimento muito expressivo dos resultados nos últimos anos e, segundo Heldmann, ainda existe margem para valorização à medida que a utilização de IA se estende dos primeiros utilizadores tecnológicos à economia em geral.
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A mesma tendência poderá beneficiar outros segmentos da infraestrutura, como produtores e distribuidores de energia, operadores de centros de dados e fabricantes especializados de semicondutores, que continuam a beneficiar de uma vaga de investimento que estará ainda numa fase relativamente inicial.
Mais acima na cadeia de valor, contudo, a situação torna-se mais complexa. As empresas que utilizam IA para disponibilizar produtos e serviços aos consumidores continuam a representar oportunidades, mas exigem uma análise mais criteriosa.
O setor das viagens é um exemplo. A IA pode tornar o planeamento de viagens mais simples e rápido, o que à partida poderá beneficiar as plataformas de reservas. Mas a mesma tecnologia poderá permitir aos consumidores eliminar alguns intermediários, à medida que companhias aéreas, hotéis e outros operadores desenvolvem as suas próprias soluções.
O resultado é menos previsível e torna mais difícil identificar antecipadamente quais serão as empresas capazes de capturar o valor criado pela IA.
O mesmo acontece em áreas como os meios de comunicação social, serviços profissionais, aconselhamento financeiro e cuidados de saúde. A tecnologia deverá criar valor, mas a questão essencial para os investidores será perceber quais as empresas que conseguirão transformar esse valor em crescimento sustentável dos lucros.
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Nesse contexto, o entusiasmo em torno do potencial revolucionário da IA não será suficiente. A análise das posições competitivas das empresas deverá assumir um papel cada vez mais importante.
Três perguntas para avaliar um investimento em IA
Heldmann identifica três questões que os investidores deverão colocar antes de apostar numa empresa exposta à inteligência artificial.
A primeira é saber se a empresa conseguirá cobrar mais, e não menos, graças à IA. Os verdadeiros vencedores serão aqueles que utilizarem a tecnologia para aumentar o valor que oferecem aos clientes, e não apenas para reduzir custos. Se a IA tornar os produtos ou serviços de uma empresa mais fáceis de replicar, isso poderá constituir um sinal de alerta.
A segunda questão prende-se com a distribuição dos ganhos de eficiência. A IA pode reduzir significativamente os custos, mas, em setores competitivos, essas poupanças podem acabar por ser transferidas para os consumidores através de preços mais baixos, em vez de se traduzirem em maiores lucros para os acionistas. Por isso, será importante identificar empresas com poder de fixação de preços suficiente para beneficiar simultaneamente de menores custos e de margens mais elevadas.
Por fim, os investidores deverão questionar se os dados proprietários constituem realmente uma vantagem competitiva sustentável. Heldmann mostra-se cético perante empresas que apresentam os seus dados como uma barreira à entrada difícil de ultrapassar. À medida que as ferramentas de IA evoluem, o valor dos dados em bruto poderá diminuir e as vantagens competitivas mais duradouras terão de assentar em ativos mais difíceis de replicar, como marcas fortes, efeitos de rede, posições regulatórias ou relações profundas com os clientes.
Apesar das oportunidades, existem também riscos estruturais que podem ser subestimados perante o entusiasmo em torno da IA.
Uma sociedade de advogados ou uma operação de back-office financeiro que perca uma parte significativa do trabalho para ferramentas de IA poderá não estar perante um problema temporário, mas perante uma alteração permanente do seu modelo de negócio.
O mesmo poderá acontecer em determinadas áreas dos media e noutras atividades intensivas em conhecimento. Para Heldmann, isso não significa que os investidores devam abandonar completamente estes setores, mas antes que devem exigir às equipas de gestão planos credíveis para adaptar os negócios às mudanças provocadas pela tecnologia.
A dinâmica do mercado poderá ainda sofrer alterações com a entrada em bolsa de algumas das maiores empresas privadas de IA. Heldmann aponta para uma vaga de grandes IPO, incluindo nomes como SpaceX, OpenAI e Anthropic, que poderá colocar no mercado público algumas das empresas tecnológicas mais influentes do mundo.
Embora os mercados tenham capacidade para absorver estas grandes operações sem perturbações significativas, a entrada destes novos protagonistas poderá desviar a atenção dos investidores das empresas que já beneficiaram da atual vaga de investimento em IA.
Ao mesmo tempo, estas operações irão alargar as oportunidades de investimento, mas as avaliações elevadas e as expectativas também elevadas reforçam a necessidade de seletividade.
Para Heldmann, manter-se completamente afastado da inteligência artificial não será uma opção adequada para os investidores, dada a importância e a velocidade de evolução da tecnologia.
O desafio estará em distinguir as empresas com capacidade para gerar resultados sustentáveis a longo prazo daquelas que estão simplesmente a beneficiar do entusiasmo em torno da IA.
A estratégia passa, assim, por manter a exposição ao tema, mas concentrar o investimento em empresas com crescimento real dos resultados e vantagens competitivas duradouras, sem ignorar os riscos de disrupção que podem atingir até algumas das empresas hoje mais valorizadas pelo mercado.
A conclusão é simples: tal como aconteceu com outras grandes revoluções tecnológicas, não será suficiente apanhar a onda da IA. Será necessário saber quais as empresas capazes de não serem arrastadas por ela.











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